Uma possível honestidade no pouco entendimento científico

Sem a pretensão de abordar de forma sistemática e metodológica a questão epistemológica da ciência, este texto trata de alguns pontos simples - de certo direcionados a um leigo -, porém essenciais no que diz respeito à forma como que qualquer interessado deve compreender a ciência. Mesmo não tocando nos fundamentos do método científico ou na complexa relação entre o observador e a matéria, acredito que a compreensão dos conceitos de alguns adjetivos como Modelo Teórico, Simulação Computacional, Realidade, Modelo Matemático e etc., já produzem uma visão diferente da ciência quanto ferramenta investigativa, e ainda, dando um sentido real quanto Verdade que uma teoria ou modelo científico se propõe a ser.

Segue um compilado traduzido e adaptado das partes essenciais contidas na introdução do livro Molecular Dynamics Simulation: elementary methods de J. M. Haile da Universidade Clemson na California do Sul, este que fornece uma introdução básica para um conhecimento mais profundo desta disciplina filosófica e metodológica. É possível dentro da discussão sobre modelos computacionais teóricos de sistemas moleculares, extrair conceitos fundamentais da visão científica, inclusive para outras áreas da ciência que, tanto utilizam o formalismo descritivo dos fenômenos da natureza, como também subsidiam a iniciativa experimental de igualmente tentar descrever a matéria sensível.

Introdução

(...)

A simulação computacional em dinâmica molecular é a realização de uma velha, e antiquada, ideia científica; (…) o comportamento de um sistema pode ser calculado se nós temos - para cada parte do sistema - um conjunto inicial de condições somadas às forças de interação. Da época de Newton até os dias atuais, esta interpretação mecânico determinística da natureza tem dominado a ciência.

Em 1814, cerca de um século depois de Newton, Laplace escreveu:

“(...) uma inteligencia na qual poderia compreender todas as forças pelas quais a natureza é animada, e a respectiva situação dos seres que a compõem – uma inteligência suficientemente vasta que poderia submeter estes dados para analise – abraçaria da mesma forma o movimento de corpos maiores do universo até os átomos mais leves. Para isto, nada poderia ser incerto, e o futuro, como o passado, estaria presente a estes olhos.”

Se esta aproximação é impedida pela complexidade da realidade, então, nós substituímos a realidade por um modelo. Em uma de suas palestras, cerca de um século depois de Laplace, Thompson observou:

parece para mim que o teste da pergunta “entendemos ou não um problema particular em física?” é, na verdade, “podemos fazer um modelo mecânico disto?”

Hoje, cerca de um século depois de Thompson, nós permanecemos incontidos do sonho de Laplace: o requisito da “inteligencia” é suprido por um computador digital, e a “respectiva situação” é um conjunto inicial de posições e velocidades [no caso da Dinâmica Molecular]. Agora, modelos matemáticos determinísticos permeiam não somente as ciências físicas e engenharia, mas a vida e as ciências sociais também.

Este determinismo é antiquado no sentido de que, enquanto que frequentemente é bem sucedido, no entanto, ainda é simplista. A despeito da afirmação de Laplace, nós podemos identificar sistemas que ainda são imprevisíveis – o mercado de ações e o clima, por exemplo. Por que deveria ser assim? Se o modelo matemático determinístico pode nos ajudar com sucesso a lançar a Apolo XI à lua, por quê não pode nos ajudar a prevê o clima na terra nos próximos meses?

A resolução desde problema é baseada no tipo de força agindo entre os componentes do sistema: quando o sistema contém objetos que interagem não linearmente, o comportamento do sistema pode ser imprevisível. Nos últimos anos estudos em dinâmica não linear tem dissociado o determinístico do previsível. Situações [fenômenos] determinísticas possuem “outputs” [observáveis, ou, parâmetros de interesse] do sistema conectados aos “inputs” [condições físicas pré estabelecidas] do sistema. Situações calculáveis são aquelas situações determinísticas nas quais um algorítimo permite-nos calcular os outputs do sistema se os inputs são conhecidos. Situações previsíveis são aquelas situações calculáveis nas quais o algorítimo pode ser numericamente implementado para calcular os outputs. Situações calculáveis podem ser imprevisíveis porque um grande número de inputs foram necessários devido uma imprecisão irrealisticamente alta com a qual os inputs devem ser conhecidos, e/ou porque a estabilidade do algorítimo é sensível para intermediar os cálculos. Num bilhar, a bola oito numa caçapa é determinística, calculável e previsível. Portanto, vai chover daqui dois meses é determinístico mas não previsível.

O tema primordial deste livro é predicado na dissociação do previsível do determinístico. (…) usar uma máquina para calcular o comportamento do modelo de alguns corpos não garantem que o comportamento seja representativo daquele modelo, muito menos que o modelo imita a realidade. Isto é esta imprevisibilidade determinística que faz a dinâmica molecular fascinante e desafiante.

É divertido fazer um mero modelo escrevendo algumas equações diferenciais e construir isso tudo dentro de um computador? Não. O divertido, ao que parece, inicia-se quando temos completado uma simulação, quando nós temos um “número”. Agora surgem todas as antigas questões características da ciência: Quão bom é este número? Quão errado isto poderia ser? Isto é representativo, reproduzível? O que isto significa? Eu acredito nisto? Como eu testo isso? Se isto está certo, o que deve seguir?
(…)Simulações computacionais são modelos performados, não coisas reais, e nisto consiste que, a “ciência da simulação” está necessariamente ligada à arte da construção de modelos.

Teoria versus Experimento
Numa conferência em 1970 um debate acalorado ocorreu em torno da questão se simulações computacionais são teorias ou experimentos. O lado da teoria argumentou que simulação é claramente teórica porque nenhuma medida é feita no sistema real em si; simulações moleculares [ou de qualquer outra natureza científica] são puras “calculações”. O lado do experimento contestou que os resultados de simulações são usados como experimento, nomeadamente, para testar teorias. Além disso, este lado notou que resultados de simulações, como experimentos, estão propensos a problemas de reprodutibilidade e erros estatísticos. Por isso, permeando a literatura, é uma posição considerada na interpretação de simulações moleculares como experimentos computacionais.

Qual a resolução deste dilema? O que importa o que nós achamos do conceito simulação? Considere o seguinte exemplo. Para performar um experimento, para tomar uma medida, o observador deve interagir com o sistema: algum tipo de sonda tem que necessariamente cruzar os contornos do sistema. Assim, é fato que sistemas isolados não podem ser estudados experimentalmente, uma vez que nossa sonda cruza o contorno e nosso sistema não é mais realmente isolado. Portanto, nós podemos performar cálculos teóricos, tais como simulações, nos sistemas verdadeiramente isolados e obter resultados significativos. A resolução do nosso dilema tem que simulações moleculares são formas de teoria; elas não envolvem medidas no sistema real.

Como nós pensamos, a simulação é importante, de fato crucial, por causa de algumas consequências: se eu aceito que simulações são experimentos, então isto segue que modelos simulados são reais. Munido com esta atitude junto com a facilidade de realmente fazer simulações, nós podemos ser tentados a abandonar o laboratório completamente. O perigo reside em romper a simulação da realidade.

Mas esta é apenas uma questão acadêmica? Recentemente uma apresentação publica foi feita por um executivo chefe de um grande fabricante de computadores. Na apresentação, fotos de Jupiter tiradas pela sonda Voyage foram comparadas com imagens produzidas de uma simulação computacional (...). O ponto do orador foi que as imagens simuladas eram verdadeiramente “mais reais que a vida real”. Mas se isso era verdade, não existia nenhuma necessidade de explorações espaciais – nós simplesmente performaríamos simulações. Note que, de fato, o CEO pode ter falhado em dois pontos: não somente que a simulação pode substituir a realidade mas ele também confundiu imagem fotográfica com realidade.


Reducionismo versus Simulação

Desde o tempo de Newton, quase todas as teorias científicas tem sido desenvolvidas no método reducionista: um sistema complexo tem sido reduzido para um ou para subsistemas mais simples e esses subsistemas são analisados. Ultimamente estes subsistemas tomaram a forma dos modelos, e hoje os modelos tomaram quase que exclusivamente a forma matemática. Antes de 1960, os modelos matemáticos tinham que ser simples o suficiente para serem resolvidos analiticamente, mas agora, essa necessidade é dispensada devido a viabilidade dos computadores digitais.

Um exemplo de reducionismo é considerar um estudo da Matéria da forma mais simples:

Matéria → compostos → elementos → moleculas → átomos → partículas elementares → quarks

A modelagem pode ocorrer em algum estágio da redução. Um modelo bem sucedido requer uma construção que força o comportamento de interesse permanecer invariante quando o sistema é substituído por um modelo. O objetivo do reducionismo é explicar o comportamento do sistema pela combinação de explicações do comportamento destes sub-sistemas. Simulações prevêem uma alternativa para o reducionismo porque nos permitem estudar o comportamento de classes de subsistemas ou sistemas. Assim, enquanto o reducionismo enfatiza a analise estrutural, a simulação enfatiza a analise comportamental.

(...) Em algum caso, a validade da teoria e do modelo seriam testados comparando as previsões com os parâmetros experimentais medidos na substância. Portanto, a conexão observáveis inseridas (inputs) e observáveis obtidas (outputs) permaneceriam implícitas no aparato matemático usado para fazer a previsão.

Mas o objetivo das simulações não é tornar explícita a conexão entre inputs e observáveis outputs. Em outras palavras, mais do que previsões, o objetivo está mais na natureza da explicação: modelos idealizados “explicam a natureza mesmo quando não a descrevem”.
 
Nota 1: em justiça, paleontologistas, pelo menos, tem discordado de imprevisibilidade determinística. Assim, Stephen Jay Gould postula que a fita da vida foi rebobinada para algumas previsões, em condições suficientemente afastadas e refeitas, o resultado seria vida ao contrário da vida que conhecemos.
Nota 2: contribuições para o entendimento do texto entre colchetes.
Nota 3: traduzido do inglês por Diego Guedes.


Uma Proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 2º Parte

Considerando a temática devidamente prefaciada, a segunda parte dessa sessão de posts tratará diretamente de questões práticas relacionadas à atividade científica atual, justamente com o que deveriam ser suas considerações epistemológicas. Ou, das relações da ciência com a falta de epistemologia inerente ao que deveria ser a prática, no mínimo racional, desenvolvida pela capacidade humana de perscrutar os fenômenos. Pessoalmente, acredito que durante toda a história científica a construção do conhecimento esteve cercada por dogmas das mais variadas vertentes, e ao contrário do que foi proclamado pela classe científica (em tons de acusação), a dogmatização mais nociva no campo científico teórico-empírico não é a religiosa, mas o próprio dogma científico – cientificismo.
No post anterior a intenção determinística laplaciana para o universo exemplifica a junção entre a bajulação (provindo do interesse político ainda existente hoje) e o desejo pessoal, sendo o segundo, enquadrado na tentativa de marcar a história com uma suposta ideia “revolucionária”, fugindo dos padrões trilhados pela ciência da época. É óbvio que fugir dos padrões científicos do seu tempo é concebível, no entanto, deve ocorrer como uma consequência para o que as evidências direcionam, sempre considerando a qualidade epistemológica do campo que se está trabalhando. No caso da matemática, o caráter metafísico, separado da experiência fenomenológica que ela mesma descreve, se justifica apenas em si mesmo com as relações lógicas, sem precisar de uma problemática empírica a fim de impulsionar o desenvolvimento pelos moldes metafísicos.
O fato é que, o local de gestação das relações lógicas matemáticas, deveria servir de incômodo pra parte da classe científica atual (e porque não dizer da ciência histórica?), mas é justamente o meio pelo qual se justificam e se orgulham por obtê-la – a razão. No entanto, para que nenhuma injustiça seja cometida antes de afirmar algo, é preciso se ater ao fato de que a posição ideológica, quanto modelo considerado e atribuído aos fenômenos da natureza, é completamente pertinente na atividade do cientista: ele aceita uma cosmovisão pré-estabelecida pré estabelecida em sí por um mecanismo que ele desconhece, seja ela naturalista, materialista, panteística, animista e etc...; acreditando ser tal cosmovisão o produto da sua atividade investigativa, ou melhor, o lugar onde pra ele convergiu apontado pelas evidências empíricas. E é justamente neste ponto que inicia a pratica da “militância falaciosa”. O que “proteladamente” estou querendo dizer é que, o campo da razão humana, responsável pela gestação e desenvolvimento da lógica matemática, de fato, é o mesmo que ao longo dos séculos propôs, especulou e ampliou a atividade supranatural do homem racional com a divindade. Ou seja, o útero estruturado pela razão humana que pariu a matemática, da mesma forma, lançou ao mundo a teologia. E sem sombra de dúvida, nessa “família” a teologia é o irmão mais velho que durante séculos (considerando o exemplo histórico) serviu muito bem à humanidade de mãos dadas com a “irmã mais nova”.
A suposta e restrita incompatibilidade entre a teologia e a matemática, mais tem sido o resultado da escolha de uma cosmovisão pessoal do que do próprio exercício da razão, isso devido à intrínseca insuficiência correspondente à atividade investigativa. E a base que se opoe a essa visão é justamente a auto suficiência racional da lógica matemática, de tomar para si apenas a conceptualização dos sinais da linguagem para se auto descrever, não dependendo de uma problemática externa à mente humana, concebida mediante os sentidos, como a química, a física e a biologia.



“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma.
Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”
Nietzsche



Desconsiderando a vida prática de Nieztsche que foi antagônica a esse pensamento, a prática científica investigativa deve ser um enlace entre o exercício da dúvida e a honestidade de assumir, ou a incompletude do modelo proposto, ou o caráter inerente de lei limite da proposta. O fato é que nem todo campo de pesquisa aplica em si a sustentabilidade epistemológica, cuidando em fazer uma ciência em prol unicamente do desenvolvimento imparcial do conhecimento. Os preconceitos individuais do cientista são inseparáveis da prática exploratória, no entanto, existem preconceitos irrelevantes, e outros, completamente nocivos. O materialismo é um deles porque é dogmático, engessado, pragmático, insustentável, e o pior, é completamente insuficiente diante da complexidade não só da natureza investigada, como também, diante da obscura relação entre observador e objeto.

O problema do dogma evolucionista frente à quebra de paradigma

Nesta parte do post, penso ser relevante primeiramente apontar o dogma em questão:

"Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução" - Theodosius Dobzhansky (1900-1975)

Atualmente a teoria evolucionista tem sido adotada e ensinada nas universidades com a mesma qualidade inerrante das escrituras sagradas cristãs. Talvez a primeira tentativa de justificar o dogma theodosiano tenha sido com o desenvolvimento do neodarwinismo causado pelo avanço do conhecimento no campo da química aplicada à genética dos seres vivos. Mesmo desconhecendo a existência do DNA (isso pra não dizer do átomo) e desconsiderando princípios fundamentais de termodinâmica, Darwin propôs um modelo de mutação fisiológica e hereditária para os seres vivos se baseando simplesmente em observações oculares, desprovido de qualquer experimentação reprodutiva daquilo que estava propondo. O fato é que, num período pós iluminista, marcado pela ascensão de uma pueril ciência experimental, uma cosmovisão alternativa que viesse a desvencilhar a sociedade da manipulação clerical que ainda subjugava a economia e a política às suas imposições seria, muito bem vinda.
Antes, é preciso considerar que, em termos de proposta científica diante das especulações acerca do desenvolvimento dos seres vivos na terra, a teoria evolucionista é satisfatória mediante suas limitações e lacunas - que diga-se de passagem, a faz semelhante a um queijo suíço; mas que funciona limitadamente (como as leis de Newton) diante da problemática apresentada pela biologia e pela classificação das espécies em termos taxonômicos. O pensamento de Theodosius é cabal e impositivo, e “estupra” a filosofia da ciência que ao longo de mais de dois mil anos vem tateando a natureza da interface entre objeto e observador, e que ainda se mostra não solucionável. É fato que a polêmica do século XIX ecoa ainda hoje no que diz respeito ao caráter teórico da evolução, no entanto, a polêmica, a rejeição e a aceitação da teoria evolucionista são alimentadas pela falta de conhecimento da mesma, e ainda, da falta de conhecimento das intenções darwinianas. Os naturalistas e materialistas eram alimentados pelo instinto positivista da revolução, ainda embebedados pelas novas vias de lucro monetário e intelectual produzidos pela revolução francesa; no entanto, eram suprimidos pela hegemonia religiosa da época, necessitando de uma suposta “arma” argumentativa vestida de uma pseudo comprovação empírica (observação ocular apenas) – Darwin serviu como uma luva de seda no casco de um jumento.
O resultado do desejo de segregar a ciência natural dos domínios religiosos (numa concepção ampla de religião) é o atraso do desenvolvimento científico. A sensatez de invocar as bases epistemológicas e comprovar a ruptura de paradigma kuhniana, ou, em outro sistema, a legitimidade de uma teoria científica por meio do exercício da sua falseabilidade (Popper), não pode se aplicar a teoria evolucionista que mesmo recebendo o título de “teoria” é colocada no pedestal dogmático do cientificismo como intocável. Fato que está levando o embate a rotular os mais moderados de evolucionistas, e ainda, de darwinistas aqueles que fazem suas preces na sacristia simiesca. Mesmo impondo a atividade de questionar a veracidade da teoria evolutiva ao religioso “fundamentalista”, não era esperado que até o religioso tirasse sua capa “dogmática” e exercitasse a sensatez de considerar a evolução em seu caráter genuíno de teoria – sendo Francis Collins e Alister McGrath belos exemplos de autoridade nesse campo.
Atualmente, em termos de mudança, é mais fácil ter o próprio pessimismo municionado com a realidade pós moderna que faz ciência com uma máquina pragmática de molde materialista. Mas há motivos para acreditar que haverá sempre uma minoria em prol da ciência genuína, alheia à especulação condicionada aos interesses econômicos e relativísticos em suprimir a qualidade do exercício da razão por meio do viés teológico – subjugando-o ao escárnio inconsciente da classe leiga que alimenta os cofres bancários dos neoateus ativistas. Recentemente, a bióloga evolucionista Lynn Margulis em entrevista a revista Discover fez a seguinte declaração:

“[…] Este é o problema que eu tenho com os neodarwinistas: eles ensinam que a geração de novidade é o acúmulo de mutações aleatórias no DNA, numa direção estabelecida pela seleção natural […] A seleção natural elimina, e talvez mantenha, mas ela não cria. […] Eu fui ensinada muitas vezes que o acúmulo de mutações aleatórias resultava em mudança evolucionária – resultava em novas espécies. Eu acreditei nisso, até que procurei pela evidência. […] Não existe gradualismo no registro fóssil […] O ‘equilíbrio pontuado’ foi inventado para descrever a descontinuidade”.

Ainda é possível se deparar com a sensatez em meio à ciência dos cifrões, mesmo diante do fato de que os meios acadêmicos são verdadeiros templos de pragmatismo científico e treinamento cientificista. Isso quando a má formação dos professores não induz a práticas completamente desonestas e anti-acadêmicas, como a indução à leitura de Richard Dawkins como material complementar acadêmico em grupos de formação em ciência biológicas e áreas afins.
O “problema epistemológico” da ciência é uma realidade historicamente presente na investigação, inclusive no simples ato de pensar. No entanto, a “crise epistemológica” foge do padrão problemático científico de não ser capaz de auto justificar-se devido à própria natureza, esta que é inseparável da qualidade humana. A crise reporta a valores pessoais, a interesses que sintetizam o incômodo causado por ideias absolutistas no campo da moral e da ética que por sua vez caem no questionamento de suas respectivas aplicações; não por causa de suas naturezas ontológicas, mas devido ao que elas impõem... Pois, querendo ou não, a ciência natural é falha em descrever tanto o erro de jogar uma bitola de cigarro na rua quanto o erro de violar o equilíbrio da vida humana. Ou seja, o método científico traz não só a incompletude de sua aplicação aos fenômenos naturais, como a incapacidade de justificar a si própria, e ainda, traz sua inviabilidade em descrever a vida humana numa concepção holística.
Pessoalmente, acredito que o método científico nunca será capaz de sustentar algum desses campos. Mas nos serve bem, e isso é o que deve importar.

Para as mães que são Mães

Em uma homenagem às mães que são Mães, segue um pequeno poema de Drummond. O mesmo que eu recitei à minha mãe numa oportunidade a alguns atrás.


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Uma proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 1º Parte

Em geral os estudiosos da arte de escrever aconselham impor o título do tratado somente ao findar de sua construção. Confesso que antes de escrever o presente texto pensei primeiro no que seria o título, que se originou da tentativa de convergir numa só frase o estado vigente em que se encontra a realidade científica da pós modernidade. A “ciência” hoje se encontra numa crise epistemológica, onde a atividade repetitiva e técnica dos que utilizam seus recursos se confundem, quando não os iludi, com a natureza questionadora e instigante da ciência genuína.


(Caracterizar a ciência “genuína” requer trilhar um caminho laborioso que não julgo ser capaz de transcorrer aqui num simples post; isso porque inúmeros tratados foram propostos ao longo da história nesta tentativa, e ainda hoje, muitos deles são questionados em função das diferentes cosmovisões existentes).


O último filósofo pré socrático chamado Platão, fundamentou seu sistema filosófico baseando-se na existência das qualidades inatas do ser humano tomando a projeção imperfeita de um estado transcendental de perfeição que ele chamou de “mundo das ideias”. Deixando de lado uma argumentação epistemológica mais pomposa, até porque a intenção do post é demonstrar a crise epistêmica da ciência atual por meio de exemplos práticos, podemos considerar alguns atos científicos não como projeções imperfeitas de uma ciência genuína, mas como projeções dogmáticas e completamente fora da linha de base onde se permite colapsar as convicções dos cientistas. Uma filosofia científica com bases sólidas, que envolva o espectador, além da realidade especulativa em questão, teve como incitação a atividade de vários filósofos que trataram a ciência de forma qualitativa, desde Kant, Kuhn, Popper e Husserl (só citando alguns) a conclusão comum foi de que a realidade tangível não é tão tangível assim, e o que propomos na verdade se limita à qualidade de modelo interpretativo, e não de modelo descritivamente cabal do objeto especulado. Ou seja, uma ciência genuína seria naturalmente uma projeção imperfeita da qualidade de “conhecer” da ciência do mundo das idéias de Platão. A chamada “coisa em si” kantiana e a “epoche” husserleriana, adverte o ato de especulação da realidade num sentido de que a mesma é intangível, e que a fenomenologia está preocupada mais com os objetos da consciência, admitindo que estar consciente do evento não é “tocar” o evento em termos de “coisa em si”.
A expressão visível da crise epistêmica - o que poderíamos chamar de mazela fenotípica, em contraste com os impasses epistemológicos presente no cerne da filosofia da ciência – vem ecoando ao longo dos séculos na medida em que a construção do conhecimento progride e é acumulado. Talvez não seja viável incluir aqui questões relacionadas a concepções holísticas do universo, como a tentativa de conceber um universo determinístico como bem defendia Laplace simplesmente por perceber na matemática uma lógica intrínseca num sentido racional e metafísico da sua natureza ontológica. No entanto, sem ir muito longe, este poderia ser o primeiro exemplo de um despontar dessa crise epistemológica antes mesmo da pós modernidade, ou melhor, gestada nos aposentos do “século das luzes”, onde se vê os desejos pessoais bem a frente das necessidades da investigação em si. A questão não era se o universo é determinista ou não, mas sim, que Laplace queria que assim o fosse a fim de justificar não só seus discursos materialistas como também facilitar a aceitação de seu tratado por parte de Napoleão Bonaparte, e de quebra, obter um “carimbo” de Lagrange, outro matemático mais próximo da confiança do imperador. Laplace e Lagrange estava coerentes com a filosofia "modinha" da época, que era ostentar na ciência um viés materialista sem garantia de eficiência – como hoje está demonstrado que não houve vantagem nenhuma em optar por tal estratégia.
No espaço temporal que compreende o período moderno até a atual pós modernidade, se encontra o que eu chamo da maior tentativa de enquadrar a natureza investigada à vontade humana, a Teoria da Unificação. A unificação das forças presentes no universo e que justificam diversos fenômenos de interação e de expressão, em termos de processos de transformação e automação, é um desejo que vem se perpetuando nos meios científicos, mais restritamente no campo da física teórica. O êxito de tal aspiração resultaria na possibilidade de descrever o estado físico do universo em diferentes pontos do tempo ascendente – o que de certa forma corroboraria com a imprudência laplaciana se não fosse à incipiência da teoria quântica, em temperar o microcosmos com um sistema de probabilidades para um dado evento em vez de um princípio clássico de causa e feito. Não vou divagar no fato de Einstein ter tentado propor uma unificação sem conhecer duas forças hoje tão prosaicas (forças fraca e forte), mas na insistência ainda hoje dos físicos de tentar unificar um sistema de equações sem ao menos ter certeza da sua veracidade. Fica explícito que a questão é de tendenciosidade (preconceito ou vontade própria numa linguagem sociológica) e não de evidência demonstrada no tatear da natureza. Em seu Best Seller Uma Breve História do Tempo, Sthephen Hawking levanta um questionamento sobre a unificação no ponto problemático da natureza restrita do parâmetro gravitacional. Onde a incompatibilidade do fenômeno da gravidade presente nos corpos com os parâmetros qualitativos dos sistemas mecânico quânticos reporta à aceitação tanto da teoria da relatividade como teoria correta, como também da mecânica quântica como teoria correta. É completamente irrisório considerar a veracidade de ambas as teorias sem considerar seus estados de leis limites, ou seja, atribuir o status de “lei irrevogável” seria cair no mesmo erro de Lord Kelvin em lançar sob ombros flácidos da mecânica clássica newtoniana e das equações de Máxwell para o eletromagnetismo a responsabilidade de descrever a realidade tangível.
No problema da unificação da física a questão epistemológica se torna mais problemática quando questionamos a existência dessa suposta unificação como “suposta de fato”. É a simples pergunta, “e se não houver unificação”? Não quero unicamente recorrer à hipótese (pessoal) de que a intenção da unificação está restritamente em determinar o estado do universo no tempo zero (t=0 do big bang, antes de tudo) nem no tempo infinito (quando o universo estiver morto), mas levanto a possibilidade completamente pertinente de que a unificação reporta ao desejo de que o universo tenha uma causa física inata em sí mesmo, antagônicamente ao que hoje é sabido, de que não há nenhuma causa física para a expansão ou até mesmo para a existência de vida na terra – Martin Rees que o diga na sua obra chamada Seis Números, levantando o chamado Princípio Antrópico.
O segundo post tratará da continuação e provavelmente da conclusão da temática iniciada; pelo menos por enquanto. É preciso se ater à complexidade do campo argumentado, que levanta tanto questões históricas como também outras de caráter filosófico da ciência. Outro ponto que influência e corrobora com toda questão levantada é quanto à natureza sociológica da ciência ao longo dos séculos, que é crucial durante a construção de modelos que descrevem a realidade, e que muitas vezes (na verdade, por um ponto de vista pessoal, todas às vezes) levam a conclusões que podem não descrever a realidade de forma coerente, ou até mesmo, a posições equivocadas quanto ao poder restrito à ciência como determinadora do curso da vida humana em termos de certezas e verdades.

Texto Alheio

Nunca ocorreu neste blog o ato de publicar textos alheios, pelo contrário, escrevo sobre textos alheios quando não sobre meu próprio texto (em geral sendo superficial). No entanto, recentemente Olavo de Carvalho publicou na sua Sepientiam Auten non Vincit Malitia um belo texto elucidativamente sarcástico tratando de um dos casos mais “estranhamente” explicados do conflito fé e razão – o chamado “caso Galileu”.
O fato é que indiretamente o texto do Olavo recai sobre a recente tragédia carioca, nas entrelinhas do discurso se encontra o escudo contra qualquer má interpretação dos eventos que motivaram o criminoso a cometer tal ato. Reconheço que estou sendo subjetivo, mas prefiro assim, afinal de contas, “quem lê entenda”.
A partir de agora é com o Olavo.


Um mártir da ciência

A narrativa praticamente inteira da origem das ciências modernas, tal como aparece na mídia popular, em livros escolares, em filmes, em peças de teatro e até numa boa quantidade de obras escritas por acadêmicos, é uma farsa publicitária de dimensões colossais, que a pesquisa histórica das últimas décadas vem desmascarando impiedosamente.
As biografias convencionais de Giordano Bruno, Galileu, Newton, Copérnico, Descartes e outros pais da modernidade falsificam não somente as suas doutrinas, para torná-las mais palatáveis ao gosto do público, mas os fatos materiais de suas vidas, para embelezar esses personagens à custa da difamação de seus contemporâneos.
Se você pretende que seus filhos venham a ter uma educação de verdade, comece por não permitir que eles sejam alimentados, por um sistema educacional criminoso, com balelas idiotas que deformarão para sempre sua visão do passado histórico e farão deles bois-de-presépio, prontos a dizer “amém” aos professores analfabetos que não vêem neles almas imortais a ser protegidas, mas militantes e eleitores em potencial, para a glória dos picaretas que nos governam.
Entre muitas outras, a lenda mais deformante é talvez a de Galileu Galilei como “mártir da ciência”, fundador da ciência experimental e homem corajoso que enfrentou a Inquisição em nome do direito de investigar a verdade.
Para começar, qualquer pesquisador sério da história das ciências sabe que Galileu nunca raciocinou a partir de dados experimentais, mas de construções matemáticas hipotéticas que depois ele legitimava com pseudo-experimentos puramente imaginários, jamais levados à prática, e usados sempre como meios de persuasão retórica, nunca de verificação. Os poucos experimentos efetivos que ele realizou foram todos errados. No que Galileu estava mesmo interessado eram antigas doutrinas ocultistas e esotéricas, das quais obteve a inspiração para suas teorias e dinheiro para sustentar uma vida senhorial como autor de horóscopos para celebridades.
Em segundo lugar, ele jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como “a melhor de Roma” e sua filha Maria Celeste como “um lugar tão delicioso”.
O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).
A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.
Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.
Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.
Comparem esse e outros episódios do mesmo teor com os de centenas de milhões de inocentes torturados e assassinados em nome da ciência por iluministas, evolucionistas, marxistas ou nazistas, e verão que a famosa “opressão religiosa” da qual a modernidade teria nos libertado era um reino de tolerância e benevolência que a brutalidade da vida moderna soterrou num passado cada vez mais distante, cada vez mais inimaginável.

Olavo de Carvalho, publicado em 13 de abril de 2011 no diário do comércio.

O que na verdade somos

Um Poema...
O essencial é saber ver [...]
Mas isso [...]
Isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender [...]
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
e raspar a tinta com que pintaram os sentidos. - Alberto Caeiro

Um comentário...
Nós. Casas. Vão-nos pintando pela vida afora até que memória não mais existe do nosso corpo original. O rosto? Perdido. Máscara de palavras. Quem somos? Não sabemos. Para saber é preciso esquecer, desaprender. - Rubem Alves

Um pensamento...

Ninguém melhor nos engana do que nós mesmos. A justificativa para isso? Não nos conhecemos. E isso tem uma lógica interessante, onde geralmente as pessoas que nos enganam são as que acabamos de conhecer; ou seja, as pessoas que não conhecemos direito, ou, aquelas que conhecemos a muito tempo mas encontramos “uma vez na vida e outra vez na morte”.
Um silogismo: "somos tendenciosamente enganados por quem não conhecemos, e nós não nos conhecemos, logo, somos facilmente enganados por nós mesmos”. No poema, somos paredes de uma casa pintada. A cor original? Raspe, e muito, porque só quem é ajudante de pintor é quem sabe o quanto é chato, ruim, complicado, cansativo e perigoso para a saúde raspar a tinta das paredes de uma casa. Raspar tinta é desaprender, e isso é muito perigoso. Tirar máscaras é desaprender, e isso também é perigoso, pois o risco de cair e se afogar em um poço de ceticismo é bem considerável.
É fácil comparar e comprovar toda essa conversa na origem das coisas, para o nosso caso, na origem das palavras. A palavra persona vem do latim, quer dizer “máscara”, e é o que no mundo das artes cênicas chamam de personagem. Personagens estão por toda parte, nas novelas, seriados, quadrinhos, livros... dentro de nós. Até por que, do latim, a palavra persona, derivou o que chamamos de personalidade, ou seja, o que nós possuímos, cada um individualmente, sendo a causa que “supostamente” define a pessoa que somos. O mais cômico é que, exaltados e vaidosos dizemos, “eu tenho personalidade... tá? ou então elogiamos, “meu amigo é um cara de personalidade”.
A realidade é que, aquilo que nós tão altivamente nos orgulhamos como sendo nossa personalidade, nada mais é do que uma máscara, uma pintura que ao longo dos anos em nossa existência foi sendo desenhada aleatoriamente sem controle; e de forma inconsciente foi moldada ao que somos nesse exato momento. O produto que somos, é o multifacetado efeito dos eventos ocorridos em nossas vidas, dos livros que lemos, das pessoas que conhecemos, das vitórias, das derrotas, dos perigos, das tristezas, dos amores, da bonança, da falta, do lugar que vivemos e dos lugares que passamos, e o pior, das nossas escolhas.
Escolhas... será que elas são reflexos daquilo que somos ou é justamente a evidência do efeito como resultado daquilo que nos tornamos por termos nos esquecidos quem de fato éramos?
Para a primeira ou segunda hipótese, o Apóstolo Paulo diria a mesma coisa, “mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento, e que me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros”. Grande verdade, a lei do pecado é a lei da escolha, onde temos o entendimento (algumas vezes não temos) das coisas, que nem ao menos sabemos a o que tal entendimento está condicionado, ou foi condicionado. Mas mesmo assim as escolhas são e serão os fenótipos dos personagens (personalidade) em nós contidos.
O diagnóstico para a personalidade, ou seja, a maneira de tirar as máscaras, lixar a tinta da parede e com isso ver o que realmente somos, e quem somos, é desaprender. Caeiro descobriu o que a muito tempo foi dito, e numerosas vezes repetido ao longo da história pelos mais sábios homens (não é a toa que Schopenhauer dizia: “os sábios sempre disseram as mesmas coisas”). A mesma coisa estava escrito no tempo de Apolo da antiga Grécia, “conhecer a ti mesmo”, e quando Sócrates foi consultar o oráculo do Delfos nesse templo, pôde ler tal escritura, então...tudo estava claro. A sacerdotisa Pítia perguntou: Sócrates, o que sabes tu? A resposta de Sócrates? Só sei que nada sei. O decreto? Sócrates, o mais sábio da Grécia. Segundo o relato de Platão, Sócrates, o divisor de águas da filosofia Grega, descobriu uma verdade eterna, que milênios depois em forma de poema, por Alberto Caeiro, se fez beleza para se “ver com os olhos”.

Desaprender... é mesmo uma verdade eterna?

É sim, e quem disse foi Jesus, que baixou um decreto, “deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus”. Ser criança é estar “desaprendido” das coisas, afinal de contas, as crianças aprendem, e a conseqüência é crescerem e serem acometidas da "adultice aguda”. O que Sócrates fez foi voltar a ser criança, desaprendendo, e assim, enxergou a si próprio, conheceu a si mesmo.

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande” - Adélia Prado
Mais uma que entendeu tudo certinho

Criança é alegria, é a expressão mais casta da vida, a fase da existência que o tempo não existe. Faça o teste, pergunte a uma criança: “o que é o tempo”? Ela provavelmente responderá inocentemente: “são os números do relógio dãaaaaa...” ou, “é o barulhinho dos ponteiros que fazem assim, tic, tac, tic, tac, tic, tac”.
O tempo existe para os adultos, estes o percebem quando tem consciência da estranha força que os arrasta da permanência, que promove o esvair da frágil existência que quer ficar, que quer permanecer, que não quer passar. Ele inevitavelmente engole as crianças para si quando apresenta e impõe a elas um universo cartesiano, dividido e apresentado na forma de conceitos, idéias e teorias. E aquele mundo mágico infantil, a terra do nunca, onde o tempo nunca passa e todos são eternamente crianças se transforma em uma mórbida terra mecanicista, regida por insípidas leis de causalidades macroscópicas e probabilidades quânticas, e que se esfacela em pequenos pacotes de energia que hora é onda, hora é partícula, simplesmente por que vive na indecisão de quanto ao que quer ser, justamente por não saber quem ela mesma é. Não sabe escolher como disse o Apóstolo.
Conhecer a si mesmo, é voltar a ser criança, e para voltar a ser criança é necessário desaprender tudo o que foi ensinado pelo mundo dos quanta, só assim se entra no reino de Deus. À medida que a persona vai sendo retirada, o “desaprendimento” vai confirmando a teologia cristã, e o que realmente somos vai ficando mais evidente, a criança vai renascendo, jeito que Jesus ensinou a Nicodemos, aí... é como cantar a canção, “quanto mais agente chega perto de Deus, agente se conhece mais”.

Tomara que a retórica da canção seja verdadeira

"Esse texto foi escrito a mais ou menos dois anos, e a possibilidade de alguns pontos não estarem de acordo com o pensamento atual do autor é considerável."

Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores D’Arcais Tema: Deus existe? 2° Parte


Sem nenhuma delonga prévia –

O contra-argumento de Paolo Flores d’Arcais que diz: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão” vai se tornar o coração do debate e o momento mais importante no que diz respeito à temática abordada. A princípio, Flores insiste nas citações dos patrícios cristãos dos primeiros séculos que “supostamente” não enxergavam razão alguma na teo-filosofia cristã.

O “Credo quia absurdum” (no sentido de “crer por ser um absurdo”) de Tertuliano e a “loucura da cruz” do apóstolo Paulo, servem como combustível pra o argumento de Flores de que para as primeiras gerações de cristãos não era a razão que levava a crer, e sim a fé. E ainda, não simplesmente crer num Deus criador, mas crer no absurdo de um Cristo morto e ressuscitado em primogenitura.

A necessidade de se demonstrar que o “resumo e a culminância” da razão não estão presentes na teologia cristã é de fundamental importância pelo almejo ao mérito de desvencilhar qualquer relação histórica entre as ciências humanamente criadas com a doutrina da cristandade. Joseph Ratzinger por sua vez deixa a desejar e acaba despejando um hibrido de Pascal e Kierkegaard a respeito da insuficiência da nossa especulação filosófica quando consideramos a ação insólita do amor divino. Diante do frágil argumento de Ratzinger, Flores acabando sendo municionado a apontar uma “incerteza” estranha à fé de Pascal devido ao clássico argumento da aposta, e ainda, o que segundo meu ponto de vista é o mais absurdo, usar a distância histórica – 300 anos aproximadamente – de Santo Agostinho aos eventos neo-testamentários pra questionar a perfeita relação entre a doutrina cristã e o racionalismo platônico proposto pelo bispo de Hipona.

No que diz respeito à razão

Apesar da impossibilidade de cada debatente tratar minuciosamente cada ponto no debate ocorrido ao vivo, qualquer desapontamento é justo com o prefeito da Congregação de Doutrina da Fé, Ratzinger – que permitiu a ovação da platéia à Flores e deixou a hierarquia eclesiástica da instituição católica pesar mais do que a defesa da verdade. Entre os deslizes de Ratzinger, está falta de tratamento prévio para a “loucura” citada por Paulo, que é justificável quando o mesmo afirma que a “sabedoria desse mundo, dos poderosos desse mundo, se aniquilam”; no entanto, Ratzinger acerta quando demonstra que Paulo não atribuía irracionalismo à doutrina cristã justamente por que utilizou da filosofia grega nos poetas para pregar no areópago ateniense. A evidência maior para esse pensamento é o primeiro entre poucos vestígios da lei moral nas epístolas do apóstolo no trecho da Carta aos Romanos 2-15, mas também, que a exploração da verdade com “V”(V maiúsculo) só se dá seguramente mediante a ação do “Espírito de Deus que penetra todas as coisas, até as profundezas de Deus”, como consta na Epístola aos Coríntios 2-10.

Esse mesmo capítulo encerra com a expressão: “nós temos a mente de Cristo”. Não foi a doutrina cristã que se nutriu da fonte racional, mas o impulso racional humano que se nutre da fonte divina, a saber, o “Espírito que penetra todas as coisas”; sendo assim, não se pode esperar o contrário de Santo Agostinho quando encontra no racionalismo platônico um ajuste como chave e fechadura com o cristianismo da patrística, e ainda, o mesmo ajuste ocorre no antagônico ao racionalismo em Aristóteles – futuro empirismo inglês do período iluminista -, só que dessa vez com a proposta de Tomás de Aquino oito séculos após Agostinho. As duas propostas para uma segura forma de construção de conhecimento, que durante um longo período histórico se escarneciam num embate filosófico, se mostraram cristianizadas em paradoxo sem problema algum para o fundamento da fé cristã, que é a ressurreição de Jesus Cristo.

Flores não ouviu de Ratzinger que não é o absurdo da fé em si que se incompatibiliza com a razão, mas a ausência da “mente de Cristo” durante o exercício da razão, nisto consiste o absurdo proposto por Paulo e tomado como exercício nu e cru da fé invocada por Tertuliano. É possível reportar a filosofia agostiniano e aquiniana em favor da evidência dessa “mente”, conduzida no mesmo exercício de tantos durante a história humana.

No que diz respeito ao erro de Ratzinger: O iluminismo.

A princípio ficou parecendo que Ratzinger quis adornar seu discurso tornando-o mais atraente quando o relacionou à liberdade do intelecto humano durante o século das luzes. Flores foi voraz recorrendo às encíclicas papais de João Paulo II que registrava a causa das mazelas da pós modernidade gestadas no Iluminismo. Mal sabia Ratzinger que Flores tinha feito o dever de casa direitinho.

Ratzinger não está errado quando diz que “o cristianismo deveria voltar a pensar naquelas suas raízes”, e que por isso “não via nenhuma oposição absoluta entre o cristianismo e o iluminismo, porém, uma oposição entre traços do iluminismo moderno e a fé cristã”.

Flores além de jogar pesado chamando Ratzinger à responsabilidade bíblica que convoca ao “sim, sim ou não, não”, também o encurrala quando aponta as citações das encíclicas papais acerca do período iluminista, desarmando qualquer intenção de Ratzinger de continuar na defesa do seu argumento enfeitado devido o seu comprometimento em ser incondicionalmente submisso ao “santo padre”.

Para João Paulo II, nasce no iluminismo todo individualismo pós moderno que desumaniza o homem, extrai dele a alma que o torna um ser singular em meio à coletividade, e o joga às traças, no comunismo, no liberalismo imoral desenfreado e no hedonismo consumista que rege a sociedade atual. O santo padre é defendido por Ratzinger com o contexto histórico vivido pelo mesmo, atribuindo a João Paulo II o título de último apologista do socialismo ideal, justamente por ter vivido em meio à barbárie nazista da segunda grande guerra.

O fato é que Ratzinger também não é nenhum apedeuta, e se redime quando convoca a todos para uma profunda reflexão de valores em responsabilidade de cada um aos problemas atuais. Em seu discurso, bem conhecido no nosso país no meio político, consegue arrancar alguns aplausos, um elogio do mediador do debate, e ainda não cai no sacrilégio de discordar do santo Papa.

Mesmo com as lacunas deixadas por Ratzinger, Paolo Flores não fica na vantagem justamente por que seu argumento é fraco e imprudente, não se sustentando diante de uma análise mais minuciosa da história da igreja e dos sistemas filosóficos envolvidos. É possível presumir um Flores sem chance alguma diante de debatedores sagazes como Dinesh D’Souza e William Lane, mais experientes que Ratzinger no trato com ateus militantes.

Um ponto importante citado por Ratzinger quando invoca o argumento de Pascal é a relação entre a fé com a geometria e matemática no que diz respeito ao nascimento de todas elas com o puro exercício da razão. Mas... Isso fica para uma postagem bem futura.

Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores d’Arcais

Tema: Deus existe?
1° Parte


A concepção humana acerca da existência de Deus tem sido a causa de todo arcabouço social, antropológico e científico desde as civilizações mais primitivas das quais existem registros históricos. “As bases fundamentais do pensamento e consequentemente da ciência”, como afirmava Durkheim, “possuem suas origens na religião”; diante desse verdadeiro pensamento tendo por base cada via tomada por todos os sistemas filosóficos construídos ao longo da história, política e religião se discutem sim, desde que os envolvidos no diálogo tenham bases sustentáveis pra permanecerem de pé. Infelizmente é preciso aceitar a amarga idéia que coloca o futebol fora desse grupo, afinal de contas, a atuação presente de uma equipe não será de sucesso se a mesma simplesmente invocar seu passado de glória.
O debate ocorrido em 2000 entre o ainda cardeal católico e prefeito da congregação de doutrina da fé, Joseph Ratzinger (atual Bento XVI), e o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais, tem sua peculiaridade justamente porque a pergunta da temática é tratada com muita responsabilidade, um adjetivo evidente no discurso de ambos que em nenhum momento em especial entram no mérito de tratar questões metafísicas inerentes às qualidades naturais de Deus – ambos trabalham com o que se tem na mão, ou seja, na realidade física da natureza e da sociedade. Mediada por um judeu, Gad Lerner, o debate solene e respeitoso entre ambos (muito diferente de alguns envolvendo os ateus Cristopher Hitchens e Richard Dawkins), cai sobre nuanças da temática que são de fundamental importância na compreensão do pressuposto deusístico numa concepção holística, tratando o sistema teo-filosófico cristão de forma singular diante das outras religiões justamente porque o cristianismo é visto como peculiar. Isso devido sua base fundamental que se concreta junto com as principais vertentes filosóficas de toda história da humanidade, que em seus sistemas eram divergentes entre si, como o racionalismo e o empirismo, mas que conseguiam uma em similitude a outra, se harmonizarem com a doutrina cristã moral, e ainda, com ótica cristã concernente a realidade.

Cristianismo racionalmente verdadeiro e o braço secular do Estado.

A primeira questão chave do debate é levantada por Ratzinger ainda no seu prelúdio, quando afirma que o cristianismo não se baseia nas “imagens e idéias míticas, cuja justificação se encontra em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a analise racional da realidade pode perceber”. Ratzinger, assim como praticamente todos apologistas, filósofos e cientistas cristãos, afirma que o cristianismo se nutriu da fonte do conhecimento inerente ao ser humano, e não na poesia e na política, como o emaranhado sistema religioso grego-romano construía suas religiões com seus deuses humanamente apoteosados. Essa nutrição vai ser chamada por ele no debate de “triunfo do conhecimento sobre o mundo das religiões”, afirmando que o antagonismo existente entre religião e razão não se aplica ao cristianismo justamente porque o mesmo só tem sentido à luz da razão. No entanto, o caráter de religião revelada permanece intacto devido a herança judaica, sendo que o que é defendido pelos filósofos cristãos da patrística e pelos apologistas, é que essa doutrina revelada aos profetas judeus e trazida pelo Cristo, se harmoniza com as bases fundamentais do pensamento humano numa visão epistemológica.
Paolo Flores presumivelmente discorda e usa apenas dois argumentos contra a afirmação do cardeal, porém, somente uma delas é relevantemente argumentativa. O primeiro deles tratado nesse post é a seguinte contra-afirmação de Flores: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão, [...] então compreenderão que se a fé pretende ser isso é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor, inclusive mediante o braço secular do Estado”. Deixando para o próximo post o termo equivocado de Flores que diz, “se a fé pretende ser”, em lugar de, “se o cristianismo pretende ser” - até porque Flores é simplista porque na reprodução escrita do debate é explicito que ele se refere a essa fé como fé católica e não fé cristã como um todo – o temor de que o cristianismo possa ser imposto por esse braço secular do Estado pode parecer um questionamento pueril, mas tem uma audácia que esconde numa roupagem hipocritamente humilde a intenção chave do argumento. Caso a preocupação de Flores e de outros ateus fosse a da pratica da imposição de premissas cristãs à sociedade secular (termo criado inclusive por cristãos por reconhecer não a aceitação da moral, mas da fé cristã), seria fácil confrontá-lo com o fato de que as bases democráticas das sociedades ocidentais são enrijecidas e firmes. O próprio cristianismo foi quem trouxe tal democracia com Jesus Cristo, sendo reivindicada e afirmada socialmente na reforma protestante, tecendo o fio condutor das sociedades formadas além do atlântico e do ocidente em geral. O que Flores não considerou foi que, antes mesmo de a revolução francesa atacar o regime autoritário impositor da monarquia "impondo outro regime", o democrático, o cristianismo já militava nessa vertente igualitária da humanidade; a doutrina apostólica e os ensinamentos de Cristo gestaram numa sociedade pluralista, porém individualista, o conceito de unidade e irmandade levando em consideração e respeitando as diferenças e a qualidade unitária de cada ser humano, em que os fatores culturais e morais eram vistos como a expressão visível da qualidade de seres diferentes (folhas) provindos de um mesmo ramo na árvore da criação.
Diante do fato histórico, de uma forma geral sem se ater a determinadas alianças políticas entre igreja e estado durante a história da humanidade, é notório o caráter não impositor do cristianismo em sua própria teologia. Particularmente considero quase impossível a imposição de um regime mediante os ditames impositivos de antigos sistemas ideológicos que amarravam a sociedade a um dogma religioso ou a uma premissa filosofica social. O comunismo é um bom exemplo que sustenta meu argumento; não há mais espaço pra tanta barbárie cometida em nome de uma ideologia dogmática quando observamos a realidade mundial no que diz respeito à comunicação em massa e conhecimento da história dos regimes ditadoriais do passado - inclusive do mal provocado por modelos sociais que se sustentavam em pressupostos materialistas, dando ao homem o título de máquina desajeitada que carrega seus genes sem nenhum propósito e bem comum.
São esses males que estão escondidos na afirmação de Flores acerca do seu temor quanto à imposição da moral cristã mediante o braço secular do Estado. Considerar o sistema teológico cristão em harmonia e permuta com a premissa filosófica respeitosa da razão, seria desarmar e infundar discussões presentes no âmago da sociedade, como a questão do aborto, do homossexualismo, cultura de células embrionárias e eutanásia. Se a razão é amiga da teologia cristã, ela tem argumentos bem sólidos contra a secularização da moral e relativização da mesma em todas as discussões e intenções supracitadas.

As próximas postagens tratarão do "se a fé pretende ser" de Flores no que diz respeito ao erro dessa afirmação, que é o erro do seu outro argumento utilizado no debate, que era o de que os cristãos primitivos viam a fé como absurdo em discordância com relação à razão - esse é um argumento não tão relevante de Flores que poderia ser respondido utilizando somente os fatos da história da filosofia. Mas Ratzinger por imprudentemente utilizar a palavra "Iluminismo", leva o debate pra uma área que o deixa de saia justa devido os erros cometidos pela instituição católica durante a história.


Ideologia? Eu é que não quero uma.


“[...] o perigo de trocar a necessária segurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e pela sua Weltanschauung (cosmovisão) não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica, mas o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa de força da lógica de uma idéia que pode subjugar o homem quase tão violentamente como uma força externa.”
Arendt, Hannah; Origens do totalitarismo.


“Ideologia, eu quero uma pra viver” (Cazuza). É notório que Cazuza refletia tão bem no campo do amor ao passo que antagonicamente fazia em questões conflituosas da realidade vigente. A compreensão de ideologia também é oposta ao analisarmos a profundidade filosófica (num sentido ontológico e epistemológico) do trecho supracitado de Arendt, e o total descaso e niilismo sublimado da apedeutíce do jovem pateticamente poeta acendido pela mídia oitentísta; claro que isso se deu simplesmente por o mesmo ser filho do dono de uma gravadora famosa do Rio de Janeiro burguês.
Em um tempo já passado considerei a detenção de uma ideologia algo primordial na vida de alguém com objetivos francos. Percebi que estava redondamente enganado. E mais uma vez, caí na mesma situação de Chesterton, como na tentativa de construir uma nova heresia moderna, novamente volta-se a Ortodoxia cristã, alegando que o primeiro tolo foi ele mesmo antes de ser acusado por um leitor de charlatanismo intelectual.
O que percebi foi que, enquanto eu estava fugindo da pretensão cientificista na intenção de ser o mais honesto possível em minhas conclusões, eu me distanciava no sentido de querer me agarrar a certa ideologia em todos os campos que perscrutava. Mas me senti aliviado em perceber a concordância etimológica que Paul Ricoeur e Hannan Arendt comungaram no termo “ideologia”; isso por que o alívio deu-se devido à explanação epistemológica que Arendt e Ricoeur deram ao termo ideologia, tratando com outros termos questões éticas e políticas da mesma forma que as ciências experimental e racional são subjugadas às bases epistemológicas (essas por si mesmas questionáveis e não dogmáticas ao meu ponto de vista).
Resumidamente, para Arendt e Ricoeur, a ideologia inevitavelmente simplifica e esquematiza a realidade, ao passo que a mesma se fundamenta em proposição (ões) axiomática(s) em que todo o sistema segue sendo construído a partir dela. Arendt vai mais além afirmando que todo pensamento ideológico tem a intenção de apresentar a lógica de uma idéia o mesmo status de realidade. Talvez todo esse prelúdio conceitual tenha sido enfadonho, mas julgo necessário, visto que, a intenção é afirmar que determinados posicionamentos se dissolvem numa análise mais profunda dos termos, incluindo assim, qualquer defesa de um modelo de realidade e a sua imposição num sentido arbitrário.
Em suma, a defesa de uma ideologia está para o fundamentalismo (no sentido pejorativo mesmo!) na política, assim como o cientificismo está para o aleijo intelectual no sentido de desonestidade no tratamento dos dados e no acesso ao mesmo durante a construção do modelo científico. Tal desonestidade se dá na atribuição ao objeto percebido (assim como na ideologia) o caráter de realidade, em que ambos são adjetivos de uma mesma fonte, ou seja, a percepção do objeto e a ideologia sendo adjetivos da experiência empírica.

Uma nova (talvez) rota anti-esquerdista

Tomar como crítica ao movimento histórico socialista aquele velho sofisma de que o mesmo teve seu sistema doutrinário construído por um burguês (Karl Marx) - esse que conclamava a luta violenta no sentido literal contra a classe burguesa –, enquadraria a crítica numa posição ad hominem sem sentido, visto que, devemos enquadrar na mesma posição de Marx o crítico que se levanta contra a fome sem nunca ter desfrutado de um ronco no estômago. No entanto, em similitude a esse sofisma, seria a taxação escarnecedora de capitalista, atribuída àquele desfavorecido vítima da “luta de classes” que se opõe a tal modelo socialista de sociedade; mas que teve a “infelicidade” de nascer cercado de belas e cheirosas enfermeiras num hospital privado. Mas concordemos: seria a mesma coisa se o tal desafortunado fosse parturiado pelas mãos dos açougueiros do SUS treinados na escola Freddye Krueger.

Talvez um dos chavões mais usados por um esquerdista contra um anti-esquerdista seja a acusação de capitalista – isso quando o mesmo ridiculamente o enxovalha por ter votado no Alckimim nas últimas eleições, ou até mesmo, atira a pedra menos burra que lançada na cabeça do anti-esquerdista vem escrita legivelmente, e ainda deixa uma marca na testa, com o xingamento: “neoliberalista filho do FHC”. Diante desses poucos exemplos de termos pré-fabricados e decorados na escola preparatória de pueris esquerdistas (a universidade), fica a pergunta: “por que o anti-esquerdista tem que ser sempre o capitalista?”. Isso me faz lembrar do termo atribuído à forma de alcançar um ponto no gráfico cartesiano representativo de uma medida energética de entalpia (depois que aprendi isso em introdução a físico-química I procuro saber se algumas situações se enquadram na mesma idéia); tal termo, denominado função de estado, determina que tal valor possa ser alcançado por diferentes vias, ou melhor, diferentes rotas de processamento. Sabendo disso, posso afirmar seguramente que o anti-esquerdismo é uma função de estado, pois tal posição não se dá necessariamente por intermédio da rota capitalista, mas pode vir simplesmente tomando como análise a fundamentação filosófica (muitas vezes deixada de lado) do movimento de esquerda, que foi construída na pedante base estrutural materialista no único sentido de se opor a conformidade de uma época marcada pelas moribundas influências absolutistas da passada revolução francesa. Influências essas tantos provindas de uma tradição patriarcal (familiar, detentora dos bens de consumo), como também regida pela presente concepção de ação divina determinadora, ou seja, num sentido mais maktub, determinista, como se aquele desafortunado acomodado com sua própria apedeutíce não tivesse razões pra lutar e melhorar a sua realidade pelo simples fato de ter vindo ao mundo naquelas condições.

A questão não é silogística, no sentido de que, um não materialista necessariamente se torna anti-esquerdista pelo simples motivo de que a fundamentação dos movimentos de esquerda está sustentada no materialismo. Muito menos na posição daquele que afirma viver “segundo a vontade de Deus” em ser enquadrado no rol determinista, apático e conformado com a mórbida realidade simplesmente sendo feliz com sua monetariamente pobre vida. O problema, mediante uma concepção própria, é epistemológico. Seria incoerente quando não redundantemente hipócrita, defender uma visão de mundo (e sociedade) que tem como premissa fundamental um sistema que relativiza a moral e rotula inconscientemente a ciência como fundamentalista - ao mesmo nível de escárnio a que uma cartomante é exposta por um cientificista moderno.

Talvez uma tolice possa estar sendo defendida neste post, agora convenhamos, a tolice anti-esquerdista é doce comparada com o amargo fundamentalismo científico materialista que se veste de liberalismo, quando na verdade engessa o intelecto cujas limitações são desconhecidas. Se não existia a via epistemológica da função de estado anti-esquerdista, acho que acabo de criá-la, longe das facetas desiguais e a-sentimentais do capitalismo, que faz da humanidade singularmente inestimável do homem, objeto de valor irrisório diante do sentido cabal, em essência, do que o mesmo representa.

Um lindo rótulo esquerdista – A embalagem bonita de uma ervilha podre


Nunca escondi o argumento (talvez batido, diga-se de passagem) que aponta a realidade pós modernista como ludibriadora da mente humana no que diz respeito à construção de sua própria cosmovisão. O que quero dizer é que, a presente influência de tantas nuanças filosóficas levou o homem a se enclausurar cada vez mais no seu próprio mundo singular, com suas próprias verdades e paradigmas. No entanto, a intenção principal dos inconscientes progenitores da nomenclatura ontológica (ou seriam taxonomistas da história?) na banda fina da era do combustível fóssil descrita no gráfico histórico, era justamente de tornar relativo o padrão, ou seja, tornar a premissa pragmática como mais uma; semelhante a tantos biscoitos parecidos entre si num pacote de negresco.

O fato é que, o resultado já estava previsto, “os ouvidos coçaram” e as verdades simples, porém mais sólidas que a rocha detentora da excálibur na obra de T.H. White, deram lugar a verdades fluidas, mas extraordinárias como tão bem apontou Chesterton ser a mania do homem moderno. Na era merchandising em que, o rótulo colorido e uma moça bonita na propaganda garante que uma ervilha podre é rica em nutrientes, não é de se admirar que muitos rotulem verdades tão bem estabelecidas – tornando-as extraordinárias - na iniciativa de coçar seus ouvidos devido à falta de ouvir o que “aquele que tem ouvidos ouve”.

Nos últimos meses, a escritora e ativista intelectual especialista em língua francesa, Norma Braga, tem feito uma contra ofensiva ao posicionamento de algumas lideranças cristãs que insistem em querer conciliar a teo-filosofia cristã com as bases do movimento de esquerda; bases essas que podem ser tanto comunistas como socialistas. Apesar de ter deixado minha posição (pra não ser pretensioso em dizer contribuição) no blog da Norma, vou reproduzir aqui em algumas postagens meu posicionamento com um argumento diferente e não citado nas postagens e comentários do blog da Norma. O argumento é muito singelo, em vez de justificar a discordância entre a filosofia cristã e o movimento de esquerda tendo em vista fatos históricos, que por si só são fatos e justificam o antagonismo entre os dois posicionamentos, se baseia no fundamento tomado pelos gestores socialistas que buscam em solos materialistas aquilo que vem ostentando como uma sociedade igualitária, livre da luta entre classes. A questão é que, não há possibilidade de aceitar como modelo ideal de sociedade um sistema socialista sabendo eu, e questionando sempre nesse blog, que esse sistema toma para si uma pedra de esquina chamada materialismo. A incoerência seria tanto intelectual, pois é uma mazela científica que aos poucos tento combater por vias epistemológicas; e também uma incoerência quanto ao meu posicionamento cristão, que se baseia na defesa de uma moral que está longe de ser relativa no aspecto cultural e histórico como propõe a pós modernidade, mas que se fundamenta naquilo que Kant e Hannah Harendt chamavam de ”lei moral”, inata e todo ser humano.

Ao que parece, não é mais difícil encontrar no meio da liderança cristã no Brasil, em todas as vertentes, a defesa de um sistema social que coloca a verdade transcendental, que descreve a existência, como uma simples expressão fenotípica da cobertura de uma “superestrutura” que tem como real e essencial a posse material e tecnológica. Onde uma das principais facetas desse sistema é a relativação da moral e da verdade religiosa, trazendo de volta a idiossincrasia do pensamento epicurista que comunga a segregação moral afim de trazer um bem estar para a condição humana arredia. Não me parece que esses “conciliadores” estejam preocupados com tais questões fundamentais, e entre aproveitar a falta de “informação” histórico filosófica da grande massa, e a rotulação da verdade simples e sólida por uma verdade extraordinária vestida de boa intenção afim de, acabar com as mazelas sociais com a mesma intenção da moça bonita do comercial de ervilha podre – dinheiro -, prefiro a segunda opção, pois a mesma é mais provável diante condição humana vigente, que apesar de querer uma sociedade igualitária, prefere que seja igualitariamente rica e consumidora. Afinal de contas, viver como hippie ninguém quer, por mais socialista que seja.

O que é o que é... A gravidade?



Entrar na universidade aos onze anos e publicar uma tese de doutorado aos dezesseis parece impossível para lógica educacional convencional; mas não para a lógica do físico imaginário Sheldon Cooper no seriado The Big Bang Theory. Sua sistemática exacerbada aliada a sua perspicácia analítica ilimitada, ambas adoçadas com boas e concentradas doses de egocentrismo e soberba, o indicaram para o que chamamos hoje de o mais audacioso intento científico-teórico, e depois experimental, da história da ciência: O intento da unificação na física.

Talvez seja desnecessário divagar historicamente nas fases que resultaram no despontar do almejo de trazer à compreensão humana um caráter determinístico para o universo em seus eventos intrínsecos. No entanto, vale citar que foi na concepção quase completamente filosófica do matemático Laplace com seu princípio determinístico para os estágios do universo, que a física se inspirou a fim de tornar tangível à limitada cognição humana essa idéia que hoje oscila entre o pessimismo e o otimismo de um suposto êxito. Mas uma questão que me inquieta, e que parece não tocar o ego do Dr. Cooper, é a fundamentação epistemológica dessa tentativa; isso num sentido bem simplista, visto que não pretendo discutir sobre toda unificação, mas tomando dela um exemplo simples e prático de desacordo teórico, e ainda, a busca tendenciosa por querer enquadrar a realidade na vontade própria de que a mesma assim seja, ou seja, unificada, tendo na história pontos que indicam a consciência dessa possibilidade, mas que ficaram abafados pelo burburinho dos que trafegam por essas vias científicas. Esse desacordo está longe de ser corroborado pela retirada de um paradigma a fim de dar lugar a outro, como propõe Thomas Kuhn; será fácil perceber que é a busca pela retirada do paradigma idealista em função do paradigma sensualista, ou seja, materializando ainda mais o universo material, que fundamenta a vaidade inoculada na humildade fingida de que estamos soltos no acaso probabilístico quântico, porém, sozinhos na existência.


Leia a postagem completa, click aqui.

Palavras --> Pensamento - Pensamento de quem existe. Cogito Ergo Sum. Logo --> Palavras


Existe um livro chamado “Conversas pra quem gosta de ensinar” de Rubem Alves; eu nunca li, mas por diversas vezes não resisti à tentação de comprar alguma obra de Rubem Alves durante visitas à livraria – costumo dizer que algumas de suas obras, quando lidas, fazem-nos sentir golpeados pelo vento das quatro da tarde em meio a altos eucaliptos, e ainda, é inevitável sentir aquele cheiro verde arrastado por esse vento, que parece ser carregado pelos raios de sol que passam entre os altos e pálidos troncos de eucalipto.

Se eu tivesse a oportunidade de conversar com Rubem Alves eu faria um pedido. Pedia que escrevesse um livro com a seguinte temática, “Aprender a conversar e aprendendo com conversas”. Isso por que eu tenho plena convicção de que em uma boa conversa é possível aprender, não só retendo o que o outro “ensina”, mas também retendo em si mesmo o que o outro “incita”. Em uma conversa virtual (via scrap) com um amigo chamado Jonas Jácome, proeminente estudante de letras e direito, tive a oportunidade de questioná-lo diante da sua afirmação axiomática que reproduzo na integra:

As palavras são uma mera representação da realidade, não são a realidade em sua completude. Referem-se tão somente aos precários usos interpretativos lexicais de um determinado povo e lugar. Portanto partindo desse princípio: a Bíblia objeto positivo confirmativo das ações existências deusisticas* seria apenas um livro como qualquer outro −ínfimo e limitado ante a flexibilidade do código simbólico verbal (o pensamento da humanidade – materializado neste mundo tão somente através da linguagem), e a constante leitura ativa das construções frasais. Não estou aqui para levantar a bandeira do Materialismo Imanente descrendo assim o Idealismo Transcendente. Mas sim, para mostrar o caráter múltiplo e qualitativo das coisas em si e a limitada leitura que fazemos delas quando as trazemos para nossas falas, fato este que nos demonstra a necessidade de considerar como e quais fatores contribuíram para o estabelecimento de “Deus” como causa primeira.

[...] o discurso é moldado de acordo às vontades de que esteve ou está no poder, ou seja, a bíblia é um instrumento de legitimação do poder religioso. Logo ela está apta ser interpretada ao bel-prazer de quem a usa, e faz dela base para um poder relativo ao meio em que está.

Sem mais delongas.

Eu poderia simplesmente contestar essa afirmação demonstrando o salto pressuposicional incoerente que relaciona a construção lingüística de um grupo de indivíduos, influenciada por, sua história, tradição, cultura, espaço geográfico e a influência do dialeto de outros grupos, com a sua convicção quanto a uma realidade transcendental que muitas vezes se fundamenta na experiência prática de alguns “privilegiados”; essa convicção se perpetua no arraste da história, e no fim, também vai fazer parte de todas as facetas supracitadas que influencia a construção lingüística do mesmo. No entanto, é fácil observar esse salto, tendencioso por sinal, segregando o significado dos sinais correspondentes à escrita em seu enlaçado normativo, do significado nato do sinal em seu contexto cultural e histórico que reproduz apenas o evento em si, seja ele um fato histórico lançado ao conhecimento da posteridade, ou, o registro de uma dada vontade ou pensamento pessoal prosaico a todos.


Leia a postagem completa, click aqui.