A ciência que nos torna nós mesmos

Sempre imaginei a ciência das coisas, que conceitua os cientistas, como algo fabuloso, algo que só é herdado por aqueles que estão dispostos a segregar a própria vida em função do entendimento das coisas existentes. No princípio, achava que a ciência era absoluta no que diz respeito a, fonte de entendimento das vias funcionais e constitutivas físicas da realidade. Estava errado.

Quando não possuimos um contato estreito com os mecanismos utilizados pela ciência para apoiar suas bases fundamentais, somos embebedados na crença de que a vida sem ela é insossa se não tivermos a nossa disposição a definição dos fenômenos e a causa de cada um dos efeitos observados pelas nossas capacidades perceptivas. Enquanto alguns utilizam o cientificismo para julgar conhecíveis todas as coisas, outros descobrem que esse julgamento é irrisório diante do fato de que a primeira incapacidade humana se mostra no momento que homem tenta descobrir e interpretar a si mesmo. Talvez eu poderia dizer que existe uma boa ciência e uma má ciência; a boa, é aquela que mostra ao homem quem de fato ele é, não no conhecimento da sua constituição física e psíquica, mas o conhecimento no que diz respeito a sua própria incapacidade de conhecer o que almeja; a má, é a ciência que o engana, aquela que o embebeda e o faz acreditar que ela é a sacerdotisa mediadora entre ele e a realidade externa, tornando-o inconscientemente fundamentalista.

As respostas são os alvos previstos e almejados por aqueles que se submetem a perguntar, e descobrem que o ato de conceber uma resposta resulta na gestação de uma nova pergunta. Apesar das respostas serem os entes desejados no ritual questionamentário, percebi que não são elas que causam a impulsão humana na perscrutação da realidade, mas sim as perguntas. A consciência de que as perguntas e os questionamentos afloram de forma indeterminada e desregrada, me levou aos campos da dúvida; não da dúvida cética, mas da dúvida cientificamente cautelosa, que livra o homem da ciência absolutista pedante. A dúvida é a consciência da nossa incapacidade de conhecer a forma cabal das coisas; é pela via da dúvida que a boa ciência é feita, ou seja, é quando homem toma para si um “sim” dado pela natureza, que é a confirmação de uma hipótese por intermédio das vias experimentais, como um “talvez”.

Comentários sobre Ortodoxia - Gilbert Keith Chesterton - (1)

G.K. Chesterton:

“O cristianismo é centrífugo, se propaga.

“Mas a cruz, embora tendo no seu centro uma colisão e contradição, pode estender seus quatro braços eternamente sem alterar sua forma. Por ter um paradoxo no seu centro ela pode crescer sem alterar sua forma. Símbolo obnubilado.”

“E outro símbolo da natureza física expressa bastante bem o lugar real do misticismo perante a humanidade. A única coisa criada para a qual não podemos olhar é a única coisa em cuja luz olhamos tudo. (como o sol do meio dia, o misticismo explica todas as outras coisas por meio da luz ofuscante de sua vitoriosa invisibilidade.) O intelectualismo independente é (no sentido exato da frase popular) só brilho de lua; pois é luz sem brilho calor, e é luz secundária, refletida por um morto.”

“O transcendentalismo pelo qual todos os homens vivem ocupa primeiramente a posição semelhante à do sol no céu. Temos consciência dele como uma espécie de esplêndida confusão; é algo brilhante e informe, ao mesmo tempo fulgor e borrão. Mas o círculo da lua é tão claro e inconfundível, tão recorrente e inevitável, como o circulo de Euclides sobre um quadro negro. Pois a lua é absolutamente razoável; e a lua é a mãe dos lunáticos; ela deu a todos eles o seu nome.”

Ortodoxia - além de ser uma obra cômica, devido o imensurável senso de humor de Chesterton, é uma obra prima no que diz respeito à defesa do cristianismo por vias filosóficas. Em boa parte da obra o materialista é relacionado a um louco doente, a sua consciência é determinada exclusivamente por uma sucessão de fatos mediante o resultado de uma cadeia de causalidade e efeito, ou seja, uma ordem bem estabelecida para qualquer evento no tempo para a qual o homem se volta.

Rubem Alves em Filosofia da Ciência argumenta que, “o homem tende a buscar uma ordem”, o fato é que, a necessidade de ordem está presente na construção de qualquer pensamento, teoria, hipótese e por fim, lei. É a sucessão de eventos, causa-efeito, que faz com que a ordem seja aceitável, e assim, em si mesma auto-justificável. Claro que não é levado em consideração a causa da primeira causa do início do sistema que está sendo construído, caso fosse, o efeito cascata seria inevitável, e acabaria por cair na mesma sentença de causa primária do universo, que pelo menos ainda hoje é e continuará a ser inverificável.

Assim como a lua é geometricamente coerente e constante, assim é o materialista, por que se volta para o argumento determinista. Laplace propôs o pensamento de que, seria possível determinar a partir de um modelo equacionário matemático qualquer estágio do universo, não sabemos se ele se referia a estágios físicos isolados, ou se incluiu na idéia, questões meramente humanas relacionadas à escolha e vontade, voltadas para a tão discutida questão do livre arbítrio. O que levanta outra questão acerca de: será que as meras atitudes humanas aparentemente sem causa como argüiu G.K. interferem na sucessão de eventos físicos no universo?

Lembrando o trecho que diz: ”o poeta, místico quer colocar na sua cabeça o céu infinito, o materialista, quer por o céu infinito em sua finita cabeça, e a mesma se estilhaça” - G.K. expôs a forma em que os antigos observavam a existência, mesmo possuindo plena consciência da existência palpável, não conseguiam se desfazer da “natureza” espirituosa, e mesmo ordenando os eventos em cadeia de fatos, por traz havia um revestimento de uma aura mística espirituosa do todo. Com a luz ofuscante de uma fonte informe e borrosa, é possível ver claramente a ação, o fato, o físico, a causa e seu respectivo efeito na existência. A própria natureza do intelecto, a lua, era mais plausível mediante a irradiação da luz mística do sol, ou seja, uma tendência a uma consciência ordenada, mesmo em um universo físico aparentemente ascendente na sua desordem entrópica, seria justificável na declaração de G.K :

“Sua visão espiritual é estereoscópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes, e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo”.

O Prefácio n° 1 - A primeira postagem

Quando me propus a escrever o que penso sobre determinadas questões voltadas principalmente à ciência, no que diz respeito ao conhecimento e a forma de percepção das coisas que existem, descobri que pensar e escrever são duas coisas que exigem técnicas um tanto distintas. Alguns dizem que escrever é uma arte, diante disso, posso presumir que escrever é uma prática artística que requer muitos critérios, ou melhor, escrever é trafegar pelas vias formais e normativas da língua.

O que percebi quando comecei escrever alguns textos é que, escrever é uma coisa difícil de fazer, por que como eu já citei, é necessário que existam dotes artísticos no escritor e ainda, que ele seja um bom piloto de idéias. Usando essas duas analogias, não estou ostentando em mim essas qualidades artísticas e o caráter de um bom piloto, estou justificando é a minha considerável habilidade enferrujada dos tempos remotos de desenhar mangás e caricaturas; e ainda que a minha habilidade com a direção de veículos ainda está sendo aperfeiçoada, corroborando com o fato de que ainda não possuo licença para trafegar livremente com veículos automotores pelas vias urbanas. Assim como existem vários paradigmas que nos orientam e determinam a vias normativas para o desenvolvimento de textos, o pensamento também possui seus caminhos de encontros e desencontros, e são esses os caminhos adotados que podem fazer muita diferença na formação intelectual de um indivíduo que se ocupa na prática do pensamento. Pensar também é uma arte.

Acredito que o pensamento só tem sentido quando ele é holístico, pois um pensamento isolado em si mesmo nada diz e nada significa. Vejo o pensamento como o resultado de uma soma entre duas variáveis, a variável daquilo que somos e a variável daquilo que vemos. Mediante essa soma, pensamos nas coisas, ou na coisa, mas sempre a coisa objeto pensada está isolada apenas no momento em que está sendo perscrutada, mas na sua essência ela está interligada, e isolada, perde seu sentido - é o que a escola da psicologia gestaltica demonstra com mais detalhes e definições. As duas variáveis que resultam no pensamento também são dependentes de diversas outras variáveis, e o resultado desse efeito cascata de dependências me diz que, pensar e formalizar conceitos, é uma tarefa bastante difícil, alem de me fazer perceber que o fundamento dessa idéia é o mesmo do cálculo de derivadas parciais, e reconhecendo isso eu estou de ante mão me justificando diante de futuras oposições em relação à essência de algum pensamento, ou em relação às manobras barbeirísticas de um condutor desajeitado e ainda em aperfeiçoamento em relação à escrita.

“Idéias são a prova de bala” - mas as idéias são parturiadas no instante do intenso exercício do pensamento, da mesma forma como nascem as poesias segundo Drummond, que dizia que para se escrever uma poesia é preciso conviver com ela certo tempo. É com base na máquina incubadora do pensamento e no cuidado da convivência necessária para um aperfeiçoamento da mente, que é dada a luz uma idéia, que vem não simplesmente para fazer parte de um rol demonstrativo que rotula as facetas de uma personalidade, mas vem para fazer sua específica função, que antes de qualquer coisa é a de atingir, como um projétil bélico.

Talvez eu escreva muito mais com idéias do que com a escrita condicionada às normas do idioma, até por que o único objetivo é o já supracitado, atingir outras idéias que refletem em práticas e posicionamentos que os julgo equivocados, como o relativismo pós-moderno, o materialismo filosófico e a absolutividade pedante da ciência que tem por base única fundamental o naturalismo que se justifica no método científico, onde a intenção é somente usar o conhecimento como bode expiatório ante as calamidades neurais acometidas pelo homem pós-moderno. Essa forma de pensar pós-modernista, que é uma mazela, talvez seja o alvo principal, pois esse mecanismo de pensamento que condiciona a existência do ser humano as evidência empíricas é mórbido, e serve apenas para justificar a prática e o gozo produzido pela internalização de uma idéia que produz uma ação confortadora na consciência humana diante da possibilidade de uma prestação de contas transcendental a essa existência.