Comentários sobre Ortodoxia - Gilbert Keith Chesterton - (1)

G.K. Chesterton:

“O cristianismo é centrífugo, se propaga.

“Mas a cruz, embora tendo no seu centro uma colisão e contradição, pode estender seus quatro braços eternamente sem alterar sua forma. Por ter um paradoxo no seu centro ela pode crescer sem alterar sua forma. Símbolo obnubilado.”

“E outro símbolo da natureza física expressa bastante bem o lugar real do misticismo perante a humanidade. A única coisa criada para a qual não podemos olhar é a única coisa em cuja luz olhamos tudo. (como o sol do meio dia, o misticismo explica todas as outras coisas por meio da luz ofuscante de sua vitoriosa invisibilidade.) O intelectualismo independente é (no sentido exato da frase popular) só brilho de lua; pois é luz sem brilho calor, e é luz secundária, refletida por um morto.”

“O transcendentalismo pelo qual todos os homens vivem ocupa primeiramente a posição semelhante à do sol no céu. Temos consciência dele como uma espécie de esplêndida confusão; é algo brilhante e informe, ao mesmo tempo fulgor e borrão. Mas o círculo da lua é tão claro e inconfundível, tão recorrente e inevitável, como o circulo de Euclides sobre um quadro negro. Pois a lua é absolutamente razoável; e a lua é a mãe dos lunáticos; ela deu a todos eles o seu nome.”

Ortodoxia - além de ser uma obra cômica, devido o imensurável senso de humor de Chesterton, é uma obra prima no que diz respeito à defesa do cristianismo por vias filosóficas. Em boa parte da obra o materialista é relacionado a um louco doente, a sua consciência é determinada exclusivamente por uma sucessão de fatos mediante o resultado de uma cadeia de causalidade e efeito, ou seja, uma ordem bem estabelecida para qualquer evento no tempo para a qual o homem se volta.

Rubem Alves em Filosofia da Ciência argumenta que, “o homem tende a buscar uma ordem”, o fato é que, a necessidade de ordem está presente na construção de qualquer pensamento, teoria, hipótese e por fim, lei. É a sucessão de eventos, causa-efeito, que faz com que a ordem seja aceitável, e assim, em si mesma auto-justificável. Claro que não é levado em consideração a causa da primeira causa do início do sistema que está sendo construído, caso fosse, o efeito cascata seria inevitável, e acabaria por cair na mesma sentença de causa primária do universo, que pelo menos ainda hoje é e continuará a ser inverificável.

Assim como a lua é geometricamente coerente e constante, assim é o materialista, por que se volta para o argumento determinista. Laplace propôs o pensamento de que, seria possível determinar a partir de um modelo equacionário matemático qualquer estágio do universo, não sabemos se ele se referia a estágios físicos isolados, ou se incluiu na idéia, questões meramente humanas relacionadas à escolha e vontade, voltadas para a tão discutida questão do livre arbítrio. O que levanta outra questão acerca de: será que as meras atitudes humanas aparentemente sem causa como argüiu G.K. interferem na sucessão de eventos físicos no universo?

Lembrando o trecho que diz: ”o poeta, místico quer colocar na sua cabeça o céu infinito, o materialista, quer por o céu infinito em sua finita cabeça, e a mesma se estilhaça” - G.K. expôs a forma em que os antigos observavam a existência, mesmo possuindo plena consciência da existência palpável, não conseguiam se desfazer da “natureza” espirituosa, e mesmo ordenando os eventos em cadeia de fatos, por traz havia um revestimento de uma aura mística espirituosa do todo. Com a luz ofuscante de uma fonte informe e borrosa, é possível ver claramente a ação, o fato, o físico, a causa e seu respectivo efeito na existência. A própria natureza do intelecto, a lua, era mais plausível mediante a irradiação da luz mística do sol, ou seja, uma tendência a uma consciência ordenada, mesmo em um universo físico aparentemente ascendente na sua desordem entrópica, seria justificável na declaração de G.K :

“Sua visão espiritual é estereoscópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes, e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo”.

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