São as marcas que nos fazem presentes um no mundo do outro - Kate Danny Forster


Na verdade, as marcas nos fazem presentes uns nos outros, mutuamente e reciprocamente. As marcas são gestoras das nostalgias que de tempos em tempos visitam o estado de espírito daquele que se propõe a contemplar estas marcas.

Apesar de não podermos retardar o tempo que sutilmente sentimos e que fica mais evidente quando a transformação é acentuada, ainda sim, conseguimos desenvolver mecanismos que possuem a capacidade de enganar esse tempo inquieto e incansável. Assim, privamos a nossa essência do tribunal do tempo que nos julga sem julgamento prévio culpados por vir-a-ser, sem ao menos ouvir o que temos a dizer em nossa defesa - lançando sobre nós a sentença no instante em que chorando entramos nesse mundo, consumando o decreto condenatório do juiz implacável, quando em silencio partimos muitas vezes sem chance de nos despedir, sem chance de um último desejo.

As marcas são os resultados da nossa essência, essa que astutamente conseguiu driblar a imposição eterna em todo aquele afortunado que adentra na existência, no instante que recebe para si a consciência de que obteve involuntariamente o estado de ser. Apesar de não existir outra alternativa se não a de estar preso a esta realidade inegociável, aliviamos, quando por hora não nos esquecemos, a condenação que começa no choro pueril do nascimento e que se consuma na partida silenciosa pelas vias da morte, na viajem enigmática que fazemos de volta para o não-ser.

Olhar para as marcas é, como diz Drummond, "não nos afastarmos, irmos de mãos dadas", é eternizar o rosto amado na banalidade aparente do retrato tirado, que eterniza o momento em que se ama aquele que foi "retratado", mesmo se porventura perceber que esse amor era efêmero, e que consequentemente não era amor.



Do amor ao desamor.

Entre amor e desamor, o tempo.

No tempo, do amor ao desamor, amor efêmero.

Amor que é amor é amor,

amor que é efêmero é desamor,

amor que é desamor não é amor.


Amor de ontem,

amor de hoje,

amor de amanhã

se ainda houver amor...

Para o amor,

amor que é amor,

é eterno amor.



"Que seja eterno enquanto dure", já dizia o poeta. No entanto, há marcas eternas que não só nos fazem presentes no mundo uns dos outros como também nos torna eternos no universo singular alheio. O "eterno durável" e mensurável é reflexo imperfeito das idéias do mundo das idéias eternas.

Não há marca mais eterna do que a marca do amor, do multifacetado amor, desde o amor romântico dos amantes passando pelo amor das amizades, até o amor causado pelo propósito eterno, que é o único capaz de tirar a sentença causada pelo pecado cometido com o ato de vir-a-ser.

De mãos dadas é mais fácil, o fardo fica mais leve; de mãos dadas com as marcas, com as marcas eternas - e então, enquanto a viajem enigmática e silenciosa é feita por aqueles cuja condenação foi consumada, as marcas os traz de volta para o mundo daqueles que ainda estão carregando o fardo, e cada olhar direcionado para as marcas esculpidas pelas essências habilidosas e indomáveis, transforma o eterno durável do poeta, com suas essências efêmeras, em "eterno atemporal", este que é detentor das essências escultoras das marcas eternas que corrobora com a verdade que diz, "não haverá limites para o homem (Gn 11:6)", mesmo diante da sentença iniciada na parturição e consumada na morte; mesmo diante do julgamento cuja sentença é única, e cujo juiz é insubstituível, o tempo. Ainda sim, conseguimos deixar nossas marcas uns nos outros, nos fazendo presentes no mundo alheio e, com isso, nos tornando eternamente presentes mesmo depois do cumprimento da sentença ao iniciar a viajem de volta para o não-ser.

Comentários sobre Ortodoxia - Gilbert Keith Chesterton - (2)


G.K. Chesterton - “Sua visão espiritual é estereoscópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes, e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo”.

“Mas a cruz, embora tendo no seu centro uma colisão e contradição, pode estender seus quatro braços eternamente sem alterar sua forma. Por te um paradoxo no seu centro ela pode crescer sem alterar sua forma. Símbolo obnubilado.”

Talvez na primeira postagem estas duas declarações tenham ficado um pouco desconexas em relação à primeira afirmação que era direcionada ao cristianismo. O cristianismo é centrífugo, se propaga.

Antes de voltar a essa questão e justificar a minha interpretação ou extrapolação do pensamento de Chesterton a outras questões referentes à pós modernidade, sabendo que Chesterton não alcançou a pós modernidade, mas a ela seu pensamento se aplica, é preciso reconhecer que uma parte do cristianismo pós moderno se encontra muito mais no enclausuramento do que na propagação. Muitos hoje, principalmente os auto intitulados representantes da revelação divina, preferem se voltar para questões meramente fúteis e “picuinhosas” referentes às supostas facetas práticas do cristianismo, entre elas, a tão enganadora teologia da prosperidade, que não passa de um camuflado anseio em se beneficiar com o estado natural do mundo, que é a decadência provocada pelo fardo existencial, e as grandes cruzadas “curandeirísticas”, que mais se parecem com um circo de exibicionismo do que com a ação milagrosa de Deus na cura de enfermidades físicas.

É notório que as declarações de Chesterton em ortodoxia mais estão direcionadas a questões epistemológicas do homem ante a investigação da existência, e de uma forma habilidosa, demonstra que o materialismo filosófico e o realismo a que parte da ciência se encontra, são posições não tão confortáveis como a dos visionários estereocópicos, ou seja, o realismo é tão fundamentalista quanto o mais fanático homem-bomba islâmico que age mediante a promessa de se obter dezenas de virgens em um paraíso fruto de uma “revelação” que historicamente tinha a finalidade de satisfazer necessidades e interesses meramente políticos, ao contrário da teo-filosofia cristã, que prefere se voltar para o fardo existencial a que a humanidade foi acometida.

Classificada como um símbolo obnubilado, à cruz é atribuída por Chesterton alguns atributos; ela possui um centro, uma colisão e uma contradição. E ainda declara que nela está presente um paradoxo, onde o crescimento não provoca a alteração da forma, fato geometricamente óbvio. Muitos dos paradoxos da teologia cristã não são obscuros, pelo contrário, são notáveis nas simples declarações como, “amai ao vosso inimigo”, enquanto os paradigmas filosóficos mais antigos dizem o contrário, como no sistema do pré-socrático Heráclito, que diz, a luta é a essência de todas as coisas; o paradoxo cristão se torna absurdamente ridículo ante a justificação do progresso como resultado da guerra segundo Nietzsche, e que o Super-Homem é o modelo a ser alcançado, enquanto o publicano réu confesso da parábola bíblica é a mais clara demonstração da fraqueza e da mediocridade a que o homem foi condicionado a viver de forma aceitavelmente satisfatória. Claro que tudo isso foi apenas a base para tecer meu pensamento, a declaração de Chesterton se resume simplesmente no contraditório geométrico duas hastes da cruz.

“Estender eternamente seus braços sem alterar sua forma”, o mesmo depois foi dito, “aumentar seu tamanho, crescer, sem alterar sua forma primária de cruz”, dizendo a mesma coisa ambas as declarações corroboram com a história desde a fundação inconsciente do cristianismo durante as viagens missionárias do apóstolo Paulo. A história mostra o crescimento do cristianismo, e me privando de tentar justificar os meios ao qual a expansão do cristianismo se deu - meios esses que tinham em vista interesses políticos, econômicos e de hegemonia imperial, não sendo tão diferente de hoje em muitos meios além das instituições religiosas - justifico o crescimento das duas hastes, a contradição, o paradoxo da cruz cristã, uma perpendicular a outra, formando um ângulo reto entre ambas, nas entidades efêmeras e inatas da existência, o espaço e o tempo.

A analogia do paradoxo cristão na forma de cruz ao sistema cartesiano bi-dimensional que organiza perpendicularmente as coordenadas que descrevem o tipo de movimento a que um corpo está sendo submetido, não foi acidental, mas sim proposital, pois estender seus braços e crescer, como fez o cristianismo, é abraçar o tempo e o espaço. Estender na recíproca relação do espaço-tempo foi mandamento fundamental nas declarações do Cristo, “testemunhareis até os confins da terra”, referente ao espaço, e ainda, “estarei convosco até o fim dos tempos”, referente ao tempo; talvez não só essa, mas várias interpretações desse símbolo obnubilado que é a cruz, sejam a causa da permanência e da sua eficácia ao longo dos mais de dois mil anos.

Percebemos o mundo no espaço e no tempo, duas coordenadas que sentimos a cada instante no golpear dos nossos sentidos, uma nos fazendo compreender a vastidão a qual nossa pequenez se encontra inserida, e outra, fazendo-nos sentir o esvair da frágil existência material que simplesmente flui junto com o inegociável tempo que para frente lança a humanidade e as coisas que existem. E é justamente aí que se encontra o segredo da declaração do Cristo que dizia, “quem beber da minha fonte jamais terá sede, e quem comer do meu pão, jamais terá fome”, declarando que o diagnóstico para a efemeridade da existência se encontra nos braços estendidos da cruz, que se propagam no espaço e no tempo, crescendo, eternamente crescendo, levando para a eternidade o espaço e o tempo que se tornarão eternos como aqueles que nela se lançam, mesmo no obscuro dos seus significados, na loucura que a mesma representa para a vã filosofia gestada na incontida capacidade humana de se distanciar do propósito eterno, que foi ser criado para Ele.