Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores D’Arcais Tema: Deus existe? 2° Parte


Sem nenhuma delonga prévia –

O contra-argumento de Paolo Flores d’Arcais que diz: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão” vai se tornar o coração do debate e o momento mais importante no que diz respeito à temática abordada. A princípio, Flores insiste nas citações dos patrícios cristãos dos primeiros séculos que “supostamente” não enxergavam razão alguma na teo-filosofia cristã.

O “Credo quia absurdum” (no sentido de “crer por ser um absurdo”) de Tertuliano e a “loucura da cruz” do apóstolo Paulo, servem como combustível pra o argumento de Flores de que para as primeiras gerações de cristãos não era a razão que levava a crer, e sim a fé. E ainda, não simplesmente crer num Deus criador, mas crer no absurdo de um Cristo morto e ressuscitado em primogenitura.

A necessidade de se demonstrar que o “resumo e a culminância” da razão não estão presentes na teologia cristã é de fundamental importância pelo almejo ao mérito de desvencilhar qualquer relação histórica entre as ciências humanamente criadas com a doutrina da cristandade. Joseph Ratzinger por sua vez deixa a desejar e acaba despejando um hibrido de Pascal e Kierkegaard a respeito da insuficiência da nossa especulação filosófica quando consideramos a ação insólita do amor divino. Diante do frágil argumento de Ratzinger, Flores acabando sendo municionado a apontar uma “incerteza” estranha à fé de Pascal devido ao clássico argumento da aposta, e ainda, o que segundo meu ponto de vista é o mais absurdo, usar a distância histórica – 300 anos aproximadamente – de Santo Agostinho aos eventos neo-testamentários pra questionar a perfeita relação entre a doutrina cristã e o racionalismo platônico proposto pelo bispo de Hipona.

No que diz respeito à razão

Apesar da impossibilidade de cada debatente tratar minuciosamente cada ponto no debate ocorrido ao vivo, qualquer desapontamento é justo com o prefeito da Congregação de Doutrina da Fé, Ratzinger – que permitiu a ovação da platéia à Flores e deixou a hierarquia eclesiástica da instituição católica pesar mais do que a defesa da verdade. Entre os deslizes de Ratzinger, está falta de tratamento prévio para a “loucura” citada por Paulo, que é justificável quando o mesmo afirma que a “sabedoria desse mundo, dos poderosos desse mundo, se aniquilam”; no entanto, Ratzinger acerta quando demonstra que Paulo não atribuía irracionalismo à doutrina cristã justamente por que utilizou da filosofia grega nos poetas para pregar no areópago ateniense. A evidência maior para esse pensamento é o primeiro entre poucos vestígios da lei moral nas epístolas do apóstolo no trecho da Carta aos Romanos 2-15, mas também, que a exploração da verdade com “V”(V maiúsculo) só se dá seguramente mediante a ação do “Espírito de Deus que penetra todas as coisas, até as profundezas de Deus”, como consta na Epístola aos Coríntios 2-10.

Esse mesmo capítulo encerra com a expressão: “nós temos a mente de Cristo”. Não foi a doutrina cristã que se nutriu da fonte racional, mas o impulso racional humano que se nutre da fonte divina, a saber, o “Espírito que penetra todas as coisas”; sendo assim, não se pode esperar o contrário de Santo Agostinho quando encontra no racionalismo platônico um ajuste como chave e fechadura com o cristianismo da patrística, e ainda, o mesmo ajuste ocorre no antagônico ao racionalismo em Aristóteles – futuro empirismo inglês do período iluminista -, só que dessa vez com a proposta de Tomás de Aquino oito séculos após Agostinho. As duas propostas para uma segura forma de construção de conhecimento, que durante um longo período histórico se escarneciam num embate filosófico, se mostraram cristianizadas em paradoxo sem problema algum para o fundamento da fé cristã, que é a ressurreição de Jesus Cristo.

Flores não ouviu de Ratzinger que não é o absurdo da fé em si que se incompatibiliza com a razão, mas a ausência da “mente de Cristo” durante o exercício da razão, nisto consiste o absurdo proposto por Paulo e tomado como exercício nu e cru da fé invocada por Tertuliano. É possível reportar a filosofia agostiniano e aquiniana em favor da evidência dessa “mente”, conduzida no mesmo exercício de tantos durante a história humana.

No que diz respeito ao erro de Ratzinger: O iluminismo.

A princípio ficou parecendo que Ratzinger quis adornar seu discurso tornando-o mais atraente quando o relacionou à liberdade do intelecto humano durante o século das luzes. Flores foi voraz recorrendo às encíclicas papais de João Paulo II que registrava a causa das mazelas da pós modernidade gestadas no Iluminismo. Mal sabia Ratzinger que Flores tinha feito o dever de casa direitinho.

Ratzinger não está errado quando diz que “o cristianismo deveria voltar a pensar naquelas suas raízes”, e que por isso “não via nenhuma oposição absoluta entre o cristianismo e o iluminismo, porém, uma oposição entre traços do iluminismo moderno e a fé cristã”.

Flores além de jogar pesado chamando Ratzinger à responsabilidade bíblica que convoca ao “sim, sim ou não, não”, também o encurrala quando aponta as citações das encíclicas papais acerca do período iluminista, desarmando qualquer intenção de Ratzinger de continuar na defesa do seu argumento enfeitado devido o seu comprometimento em ser incondicionalmente submisso ao “santo padre”.

Para João Paulo II, nasce no iluminismo todo individualismo pós moderno que desumaniza o homem, extrai dele a alma que o torna um ser singular em meio à coletividade, e o joga às traças, no comunismo, no liberalismo imoral desenfreado e no hedonismo consumista que rege a sociedade atual. O santo padre é defendido por Ratzinger com o contexto histórico vivido pelo mesmo, atribuindo a João Paulo II o título de último apologista do socialismo ideal, justamente por ter vivido em meio à barbárie nazista da segunda grande guerra.

O fato é que Ratzinger também não é nenhum apedeuta, e se redime quando convoca a todos para uma profunda reflexão de valores em responsabilidade de cada um aos problemas atuais. Em seu discurso, bem conhecido no nosso país no meio político, consegue arrancar alguns aplausos, um elogio do mediador do debate, e ainda não cai no sacrilégio de discordar do santo Papa.

Mesmo com as lacunas deixadas por Ratzinger, Paolo Flores não fica na vantagem justamente por que seu argumento é fraco e imprudente, não se sustentando diante de uma análise mais minuciosa da história da igreja e dos sistemas filosóficos envolvidos. É possível presumir um Flores sem chance alguma diante de debatedores sagazes como Dinesh D’Souza e William Lane, mais experientes que Ratzinger no trato com ateus militantes.

Um ponto importante citado por Ratzinger quando invoca o argumento de Pascal é a relação entre a fé com a geometria e matemática no que diz respeito ao nascimento de todas elas com o puro exercício da razão. Mas... Isso fica para uma postagem bem futura.

Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores d’Arcais

Tema: Deus existe?
1° Parte


A concepção humana acerca da existência de Deus tem sido a causa de todo arcabouço social, antropológico e científico desde as civilizações mais primitivas das quais existem registros históricos. “As bases fundamentais do pensamento e consequentemente da ciência”, como afirmava Durkheim, “possuem suas origens na religião”; diante desse verdadeiro pensamento tendo por base cada via tomada por todos os sistemas filosóficos construídos ao longo da história, política e religião se discutem sim, desde que os envolvidos no diálogo tenham bases sustentáveis pra permanecerem de pé. Infelizmente é preciso aceitar a amarga idéia que coloca o futebol fora desse grupo, afinal de contas, a atuação presente de uma equipe não será de sucesso se a mesma simplesmente invocar seu passado de glória.
O debate ocorrido em 2000 entre o ainda cardeal católico e prefeito da congregação de doutrina da fé, Joseph Ratzinger (atual Bento XVI), e o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais, tem sua peculiaridade justamente porque a pergunta da temática é tratada com muita responsabilidade, um adjetivo evidente no discurso de ambos que em nenhum momento em especial entram no mérito de tratar questões metafísicas inerentes às qualidades naturais de Deus – ambos trabalham com o que se tem na mão, ou seja, na realidade física da natureza e da sociedade. Mediada por um judeu, Gad Lerner, o debate solene e respeitoso entre ambos (muito diferente de alguns envolvendo os ateus Cristopher Hitchens e Richard Dawkins), cai sobre nuanças da temática que são de fundamental importância na compreensão do pressuposto deusístico numa concepção holística, tratando o sistema teo-filosófico cristão de forma singular diante das outras religiões justamente porque o cristianismo é visto como peculiar. Isso devido sua base fundamental que se concreta junto com as principais vertentes filosóficas de toda história da humanidade, que em seus sistemas eram divergentes entre si, como o racionalismo e o empirismo, mas que conseguiam uma em similitude a outra, se harmonizarem com a doutrina cristã moral, e ainda, com ótica cristã concernente a realidade.

Cristianismo racionalmente verdadeiro e o braço secular do Estado.

A primeira questão chave do debate é levantada por Ratzinger ainda no seu prelúdio, quando afirma que o cristianismo não se baseia nas “imagens e idéias míticas, cuja justificação se encontra em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a analise racional da realidade pode perceber”. Ratzinger, assim como praticamente todos apologistas, filósofos e cientistas cristãos, afirma que o cristianismo se nutriu da fonte do conhecimento inerente ao ser humano, e não na poesia e na política, como o emaranhado sistema religioso grego-romano construía suas religiões com seus deuses humanamente apoteosados. Essa nutrição vai ser chamada por ele no debate de “triunfo do conhecimento sobre o mundo das religiões”, afirmando que o antagonismo existente entre religião e razão não se aplica ao cristianismo justamente porque o mesmo só tem sentido à luz da razão. No entanto, o caráter de religião revelada permanece intacto devido a herança judaica, sendo que o que é defendido pelos filósofos cristãos da patrística e pelos apologistas, é que essa doutrina revelada aos profetas judeus e trazida pelo Cristo, se harmoniza com as bases fundamentais do pensamento humano numa visão epistemológica.
Paolo Flores presumivelmente discorda e usa apenas dois argumentos contra a afirmação do cardeal, porém, somente uma delas é relevantemente argumentativa. O primeiro deles tratado nesse post é a seguinte contra-afirmação de Flores: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão, [...] então compreenderão que se a fé pretende ser isso é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor, inclusive mediante o braço secular do Estado”. Deixando para o próximo post o termo equivocado de Flores que diz, “se a fé pretende ser”, em lugar de, “se o cristianismo pretende ser” - até porque Flores é simplista porque na reprodução escrita do debate é explicito que ele se refere a essa fé como fé católica e não fé cristã como um todo – o temor de que o cristianismo possa ser imposto por esse braço secular do Estado pode parecer um questionamento pueril, mas tem uma audácia que esconde numa roupagem hipocritamente humilde a intenção chave do argumento. Caso a preocupação de Flores e de outros ateus fosse a da pratica da imposição de premissas cristãs à sociedade secular (termo criado inclusive por cristãos por reconhecer não a aceitação da moral, mas da fé cristã), seria fácil confrontá-lo com o fato de que as bases democráticas das sociedades ocidentais são enrijecidas e firmes. O próprio cristianismo foi quem trouxe tal democracia com Jesus Cristo, sendo reivindicada e afirmada socialmente na reforma protestante, tecendo o fio condutor das sociedades formadas além do atlântico e do ocidente em geral. O que Flores não considerou foi que, antes mesmo de a revolução francesa atacar o regime autoritário impositor da monarquia "impondo outro regime", o democrático, o cristianismo já militava nessa vertente igualitária da humanidade; a doutrina apostólica e os ensinamentos de Cristo gestaram numa sociedade pluralista, porém individualista, o conceito de unidade e irmandade levando em consideração e respeitando as diferenças e a qualidade unitária de cada ser humano, em que os fatores culturais e morais eram vistos como a expressão visível da qualidade de seres diferentes (folhas) provindos de um mesmo ramo na árvore da criação.
Diante do fato histórico, de uma forma geral sem se ater a determinadas alianças políticas entre igreja e estado durante a história da humanidade, é notório o caráter não impositor do cristianismo em sua própria teologia. Particularmente considero quase impossível a imposição de um regime mediante os ditames impositivos de antigos sistemas ideológicos que amarravam a sociedade a um dogma religioso ou a uma premissa filosofica social. O comunismo é um bom exemplo que sustenta meu argumento; não há mais espaço pra tanta barbárie cometida em nome de uma ideologia dogmática quando observamos a realidade mundial no que diz respeito à comunicação em massa e conhecimento da história dos regimes ditadoriais do passado - inclusive do mal provocado por modelos sociais que se sustentavam em pressupostos materialistas, dando ao homem o título de máquina desajeitada que carrega seus genes sem nenhum propósito e bem comum.
São esses males que estão escondidos na afirmação de Flores acerca do seu temor quanto à imposição da moral cristã mediante o braço secular do Estado. Considerar o sistema teológico cristão em harmonia e permuta com a premissa filosófica respeitosa da razão, seria desarmar e infundar discussões presentes no âmago da sociedade, como a questão do aborto, do homossexualismo, cultura de células embrionárias e eutanásia. Se a razão é amiga da teologia cristã, ela tem argumentos bem sólidos contra a secularização da moral e relativização da mesma em todas as discussões e intenções supracitadas.

As próximas postagens tratarão do "se a fé pretende ser" de Flores no que diz respeito ao erro dessa afirmação, que é o erro do seu outro argumento utilizado no debate, que era o de que os cristãos primitivos viam a fé como absurdo em discordância com relação à razão - esse é um argumento não tão relevante de Flores que poderia ser respondido utilizando somente os fatos da história da filosofia. Mas Ratzinger por imprudentemente utilizar a palavra "Iluminismo", leva o debate pra uma área que o deixa de saia justa devido os erros cometidos pela instituição católica durante a história.


Ideologia? Eu é que não quero uma.


“[...] o perigo de trocar a necessária segurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e pela sua Weltanschauung (cosmovisão) não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica, mas o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa de força da lógica de uma idéia que pode subjugar o homem quase tão violentamente como uma força externa.”
Arendt, Hannah; Origens do totalitarismo.


“Ideologia, eu quero uma pra viver” (Cazuza). É notório que Cazuza refletia tão bem no campo do amor ao passo que antagonicamente fazia em questões conflituosas da realidade vigente. A compreensão de ideologia também é oposta ao analisarmos a profundidade filosófica (num sentido ontológico e epistemológico) do trecho supracitado de Arendt, e o total descaso e niilismo sublimado da apedeutíce do jovem pateticamente poeta acendido pela mídia oitentísta; claro que isso se deu simplesmente por o mesmo ser filho do dono de uma gravadora famosa do Rio de Janeiro burguês.
Em um tempo já passado considerei a detenção de uma ideologia algo primordial na vida de alguém com objetivos francos. Percebi que estava redondamente enganado. E mais uma vez, caí na mesma situação de Chesterton, como na tentativa de construir uma nova heresia moderna, novamente volta-se a Ortodoxia cristã, alegando que o primeiro tolo foi ele mesmo antes de ser acusado por um leitor de charlatanismo intelectual.
O que percebi foi que, enquanto eu estava fugindo da pretensão cientificista na intenção de ser o mais honesto possível em minhas conclusões, eu me distanciava no sentido de querer me agarrar a certa ideologia em todos os campos que perscrutava. Mas me senti aliviado em perceber a concordância etimológica que Paul Ricoeur e Hannan Arendt comungaram no termo “ideologia”; isso por que o alívio deu-se devido à explanação epistemológica que Arendt e Ricoeur deram ao termo ideologia, tratando com outros termos questões éticas e políticas da mesma forma que as ciências experimental e racional são subjugadas às bases epistemológicas (essas por si mesmas questionáveis e não dogmáticas ao meu ponto de vista).
Resumidamente, para Arendt e Ricoeur, a ideologia inevitavelmente simplifica e esquematiza a realidade, ao passo que a mesma se fundamenta em proposição (ões) axiomática(s) em que todo o sistema segue sendo construído a partir dela. Arendt vai mais além afirmando que todo pensamento ideológico tem a intenção de apresentar a lógica de uma idéia o mesmo status de realidade. Talvez todo esse prelúdio conceitual tenha sido enfadonho, mas julgo necessário, visto que, a intenção é afirmar que determinados posicionamentos se dissolvem numa análise mais profunda dos termos, incluindo assim, qualquer defesa de um modelo de realidade e a sua imposição num sentido arbitrário.
Em suma, a defesa de uma ideologia está para o fundamentalismo (no sentido pejorativo mesmo!) na política, assim como o cientificismo está para o aleijo intelectual no sentido de desonestidade no tratamento dos dados e no acesso ao mesmo durante a construção do modelo científico. Tal desonestidade se dá na atribuição ao objeto percebido (assim como na ideologia) o caráter de realidade, em que ambos são adjetivos de uma mesma fonte, ou seja, a percepção do objeto e a ideologia sendo adjetivos da experiência empírica.

Uma nova (talvez) rota anti-esquerdista

Tomar como crítica ao movimento histórico socialista aquele velho sofisma de que o mesmo teve seu sistema doutrinário construído por um burguês (Karl Marx) - esse que conclamava a luta violenta no sentido literal contra a classe burguesa –, enquadraria a crítica numa posição ad hominem sem sentido, visto que, devemos enquadrar na mesma posição de Marx o crítico que se levanta contra a fome sem nunca ter desfrutado de um ronco no estômago. No entanto, em similitude a esse sofisma, seria a taxação escarnecedora de capitalista, atribuída àquele desfavorecido vítima da “luta de classes” que se opõe a tal modelo socialista de sociedade; mas que teve a “infelicidade” de nascer cercado de belas e cheirosas enfermeiras num hospital privado. Mas concordemos: seria a mesma coisa se o tal desafortunado fosse parturiado pelas mãos dos açougueiros do SUS treinados na escola Freddye Krueger.

Talvez um dos chavões mais usados por um esquerdista contra um anti-esquerdista seja a acusação de capitalista – isso quando o mesmo ridiculamente o enxovalha por ter votado no Alckimim nas últimas eleições, ou até mesmo, atira a pedra menos burra que lançada na cabeça do anti-esquerdista vem escrita legivelmente, e ainda deixa uma marca na testa, com o xingamento: “neoliberalista filho do FHC”. Diante desses poucos exemplos de termos pré-fabricados e decorados na escola preparatória de pueris esquerdistas (a universidade), fica a pergunta: “por que o anti-esquerdista tem que ser sempre o capitalista?”. Isso me faz lembrar do termo atribuído à forma de alcançar um ponto no gráfico cartesiano representativo de uma medida energética de entalpia (depois que aprendi isso em introdução a físico-química I procuro saber se algumas situações se enquadram na mesma idéia); tal termo, denominado função de estado, determina que tal valor possa ser alcançado por diferentes vias, ou melhor, diferentes rotas de processamento. Sabendo disso, posso afirmar seguramente que o anti-esquerdismo é uma função de estado, pois tal posição não se dá necessariamente por intermédio da rota capitalista, mas pode vir simplesmente tomando como análise a fundamentação filosófica (muitas vezes deixada de lado) do movimento de esquerda, que foi construída na pedante base estrutural materialista no único sentido de se opor a conformidade de uma época marcada pelas moribundas influências absolutistas da passada revolução francesa. Influências essas tantos provindas de uma tradição patriarcal (familiar, detentora dos bens de consumo), como também regida pela presente concepção de ação divina determinadora, ou seja, num sentido mais maktub, determinista, como se aquele desafortunado acomodado com sua própria apedeutíce não tivesse razões pra lutar e melhorar a sua realidade pelo simples fato de ter vindo ao mundo naquelas condições.

A questão não é silogística, no sentido de que, um não materialista necessariamente se torna anti-esquerdista pelo simples motivo de que a fundamentação dos movimentos de esquerda está sustentada no materialismo. Muito menos na posição daquele que afirma viver “segundo a vontade de Deus” em ser enquadrado no rol determinista, apático e conformado com a mórbida realidade simplesmente sendo feliz com sua monetariamente pobre vida. O problema, mediante uma concepção própria, é epistemológico. Seria incoerente quando não redundantemente hipócrita, defender uma visão de mundo (e sociedade) que tem como premissa fundamental um sistema que relativiza a moral e rotula inconscientemente a ciência como fundamentalista - ao mesmo nível de escárnio a que uma cartomante é exposta por um cientificista moderno.

Talvez uma tolice possa estar sendo defendida neste post, agora convenhamos, a tolice anti-esquerdista é doce comparada com o amargo fundamentalismo científico materialista que se veste de liberalismo, quando na verdade engessa o intelecto cujas limitações são desconhecidas. Se não existia a via epistemológica da função de estado anti-esquerdista, acho que acabo de criá-la, longe das facetas desiguais e a-sentimentais do capitalismo, que faz da humanidade singularmente inestimável do homem, objeto de valor irrisório diante do sentido cabal, em essência, do que o mesmo representa.

Um lindo rótulo esquerdista – A embalagem bonita de uma ervilha podre


Nunca escondi o argumento (talvez batido, diga-se de passagem) que aponta a realidade pós modernista como ludibriadora da mente humana no que diz respeito à construção de sua própria cosmovisão. O que quero dizer é que, a presente influência de tantas nuanças filosóficas levou o homem a se enclausurar cada vez mais no seu próprio mundo singular, com suas próprias verdades e paradigmas. No entanto, a intenção principal dos inconscientes progenitores da nomenclatura ontológica (ou seriam taxonomistas da história?) na banda fina da era do combustível fóssil descrita no gráfico histórico, era justamente de tornar relativo o padrão, ou seja, tornar a premissa pragmática como mais uma; semelhante a tantos biscoitos parecidos entre si num pacote de negresco.

O fato é que, o resultado já estava previsto, “os ouvidos coçaram” e as verdades simples, porém mais sólidas que a rocha detentora da excálibur na obra de T.H. White, deram lugar a verdades fluidas, mas extraordinárias como tão bem apontou Chesterton ser a mania do homem moderno. Na era merchandising em que, o rótulo colorido e uma moça bonita na propaganda garante que uma ervilha podre é rica em nutrientes, não é de se admirar que muitos rotulem verdades tão bem estabelecidas – tornando-as extraordinárias - na iniciativa de coçar seus ouvidos devido à falta de ouvir o que “aquele que tem ouvidos ouve”.

Nos últimos meses, a escritora e ativista intelectual especialista em língua francesa, Norma Braga, tem feito uma contra ofensiva ao posicionamento de algumas lideranças cristãs que insistem em querer conciliar a teo-filosofia cristã com as bases do movimento de esquerda; bases essas que podem ser tanto comunistas como socialistas. Apesar de ter deixado minha posição (pra não ser pretensioso em dizer contribuição) no blog da Norma, vou reproduzir aqui em algumas postagens meu posicionamento com um argumento diferente e não citado nas postagens e comentários do blog da Norma. O argumento é muito singelo, em vez de justificar a discordância entre a filosofia cristã e o movimento de esquerda tendo em vista fatos históricos, que por si só são fatos e justificam o antagonismo entre os dois posicionamentos, se baseia no fundamento tomado pelos gestores socialistas que buscam em solos materialistas aquilo que vem ostentando como uma sociedade igualitária, livre da luta entre classes. A questão é que, não há possibilidade de aceitar como modelo ideal de sociedade um sistema socialista sabendo eu, e questionando sempre nesse blog, que esse sistema toma para si uma pedra de esquina chamada materialismo. A incoerência seria tanto intelectual, pois é uma mazela científica que aos poucos tento combater por vias epistemológicas; e também uma incoerência quanto ao meu posicionamento cristão, que se baseia na defesa de uma moral que está longe de ser relativa no aspecto cultural e histórico como propõe a pós modernidade, mas que se fundamenta naquilo que Kant e Hannah Harendt chamavam de ”lei moral”, inata e todo ser humano.

Ao que parece, não é mais difícil encontrar no meio da liderança cristã no Brasil, em todas as vertentes, a defesa de um sistema social que coloca a verdade transcendental, que descreve a existência, como uma simples expressão fenotípica da cobertura de uma “superestrutura” que tem como real e essencial a posse material e tecnológica. Onde uma das principais facetas desse sistema é a relativação da moral e da verdade religiosa, trazendo de volta a idiossincrasia do pensamento epicurista que comunga a segregação moral afim de trazer um bem estar para a condição humana arredia. Não me parece que esses “conciliadores” estejam preocupados com tais questões fundamentais, e entre aproveitar a falta de “informação” histórico filosófica da grande massa, e a rotulação da verdade simples e sólida por uma verdade extraordinária vestida de boa intenção afim de, acabar com as mazelas sociais com a mesma intenção da moça bonita do comercial de ervilha podre – dinheiro -, prefiro a segunda opção, pois a mesma é mais provável diante condição humana vigente, que apesar de querer uma sociedade igualitária, prefere que seja igualitariamente rica e consumidora. Afinal de contas, viver como hippie ninguém quer, por mais socialista que seja.

O que é o que é... A gravidade?



Entrar na universidade aos onze anos e publicar uma tese de doutorado aos dezesseis parece impossível para lógica educacional convencional; mas não para a lógica do físico imaginário Sheldon Cooper no seriado The Big Bang Theory. Sua sistemática exacerbada aliada a sua perspicácia analítica ilimitada, ambas adoçadas com boas e concentradas doses de egocentrismo e soberba, o indicaram para o que chamamos hoje de o mais audacioso intento científico-teórico, e depois experimental, da história da ciência: O intento da unificação na física.

Talvez seja desnecessário divagar historicamente nas fases que resultaram no despontar do almejo de trazer à compreensão humana um caráter determinístico para o universo em seus eventos intrínsecos. No entanto, vale citar que foi na concepção quase completamente filosófica do matemático Laplace com seu princípio determinístico para os estágios do universo, que a física se inspirou a fim de tornar tangível à limitada cognição humana essa idéia que hoje oscila entre o pessimismo e o otimismo de um suposto êxito. Mas uma questão que me inquieta, e que parece não tocar o ego do Dr. Cooper, é a fundamentação epistemológica dessa tentativa; isso num sentido bem simplista, visto que não pretendo discutir sobre toda unificação, mas tomando dela um exemplo simples e prático de desacordo teórico, e ainda, a busca tendenciosa por querer enquadrar a realidade na vontade própria de que a mesma assim seja, ou seja, unificada, tendo na história pontos que indicam a consciência dessa possibilidade, mas que ficaram abafados pelo burburinho dos que trafegam por essas vias científicas. Esse desacordo está longe de ser corroborado pela retirada de um paradigma a fim de dar lugar a outro, como propõe Thomas Kuhn; será fácil perceber que é a busca pela retirada do paradigma idealista em função do paradigma sensualista, ou seja, materializando ainda mais o universo material, que fundamenta a vaidade inoculada na humildade fingida de que estamos soltos no acaso probabilístico quântico, porém, sozinhos na existência.


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Palavras --> Pensamento - Pensamento de quem existe. Cogito Ergo Sum. Logo --> Palavras


Existe um livro chamado “Conversas pra quem gosta de ensinar” de Rubem Alves; eu nunca li, mas por diversas vezes não resisti à tentação de comprar alguma obra de Rubem Alves durante visitas à livraria – costumo dizer que algumas de suas obras, quando lidas, fazem-nos sentir golpeados pelo vento das quatro da tarde em meio a altos eucaliptos, e ainda, é inevitável sentir aquele cheiro verde arrastado por esse vento, que parece ser carregado pelos raios de sol que passam entre os altos e pálidos troncos de eucalipto.

Se eu tivesse a oportunidade de conversar com Rubem Alves eu faria um pedido. Pedia que escrevesse um livro com a seguinte temática, “Aprender a conversar e aprendendo com conversas”. Isso por que eu tenho plena convicção de que em uma boa conversa é possível aprender, não só retendo o que o outro “ensina”, mas também retendo em si mesmo o que o outro “incita”. Em uma conversa virtual (via scrap) com um amigo chamado Jonas Jácome, proeminente estudante de letras e direito, tive a oportunidade de questioná-lo diante da sua afirmação axiomática que reproduzo na integra:

As palavras são uma mera representação da realidade, não são a realidade em sua completude. Referem-se tão somente aos precários usos interpretativos lexicais de um determinado povo e lugar. Portanto partindo desse princípio: a Bíblia objeto positivo confirmativo das ações existências deusisticas* seria apenas um livro como qualquer outro −ínfimo e limitado ante a flexibilidade do código simbólico verbal (o pensamento da humanidade – materializado neste mundo tão somente através da linguagem), e a constante leitura ativa das construções frasais. Não estou aqui para levantar a bandeira do Materialismo Imanente descrendo assim o Idealismo Transcendente. Mas sim, para mostrar o caráter múltiplo e qualitativo das coisas em si e a limitada leitura que fazemos delas quando as trazemos para nossas falas, fato este que nos demonstra a necessidade de considerar como e quais fatores contribuíram para o estabelecimento de “Deus” como causa primeira.

[...] o discurso é moldado de acordo às vontades de que esteve ou está no poder, ou seja, a bíblia é um instrumento de legitimação do poder religioso. Logo ela está apta ser interpretada ao bel-prazer de quem a usa, e faz dela base para um poder relativo ao meio em que está.

Sem mais delongas.

Eu poderia simplesmente contestar essa afirmação demonstrando o salto pressuposicional incoerente que relaciona a construção lingüística de um grupo de indivíduos, influenciada por, sua história, tradição, cultura, espaço geográfico e a influência do dialeto de outros grupos, com a sua convicção quanto a uma realidade transcendental que muitas vezes se fundamenta na experiência prática de alguns “privilegiados”; essa convicção se perpetua no arraste da história, e no fim, também vai fazer parte de todas as facetas supracitadas que influencia a construção lingüística do mesmo. No entanto, é fácil observar esse salto, tendencioso por sinal, segregando o significado dos sinais correspondentes à escrita em seu enlaçado normativo, do significado nato do sinal em seu contexto cultural e histórico que reproduz apenas o evento em si, seja ele um fato histórico lançado ao conhecimento da posteridade, ou, o registro de uma dada vontade ou pensamento pessoal prosaico a todos.


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A presente influência do Woodstock.


Nunca é demais citar G. K. Chesterton para invocar sua percepção a determinadas verdades; em uma dessas verdades percebidas ele declara que “agente procura a verdade, mas pode acontecer que a agente procure instintivamente as verdades mais extraordinárias”.

Tanto na arte como na ciência, a verdade é apresentada de forma tal que venha a causar admiração, quando não, espanto. O fato é que em qualquer atitude humana concernente a inspeção da realidade, espera-se sentir nessa verdade encontrada um lampejo de gozo, no sentido de provar com a descoberta essa verdade que dantes estava imperscrutável à cognição humana. Longe da pretensão de aconselhar Chesterton complementando suas descrições da realidade, eu diria que além de procurar verdades extraordinárias nós também queremos que tudo que apresentemos como nossas verdades, ou mesmo como nossa forma de ver tudo que julgamos ser verdade, seja também visto por todos como uma “coisa” extraordinária. Claro que não podemos especificar se isso é efeito da causa referente a nossos preconceitos e convicções pessoais, ou então, da vaidade contida no nosso ser de tornar aquilo em que depositamos nossas convicções algo mais embelezado por uma roupagem eufemista, tornando então tal convicção uma verdade extraordinária.

Bom seria se o ato de tornar a própria verdade algo extraordinário tivesse se limitado somente a “suposta” conversão dos Beatles ao hinduísmo em meados de 1966, quando George Harisson e John Lennon em viagens à Índia usaram a Bagavad-Gita (cartilha do hinduísmo) para “extraordinarizar” as singelas e românticas músicas dos garotos de Liverpool, que até então apenas cantavam sobre pueris relações amorosas, corações quebrados e garotas ideais almejadas por jovens rebeldes. Claro que canções como Sgt. Pappers e Imagine se perpetuaram como escolas musicais para futuros músicos - no caso da primeira; e futuros ateus romanticamente naturalistas, no caso da segunda – Imagine a word no religion.

Mas esse “bom seria” não é um fato, e a profecia de Chesterton também alcançou o mosaico da ciência quase uma década depois da conversão dos Beatles com a publicação do The Tao of Phisics (1975) de Frirjof Capra, alguns anos mais tarde veio a publicação de The Web of Life, e, O Ponto de Mutação (editora Cutrix no Brasil), ambas do mesmo autor do Tao. Acredito que a revolução hinduísta beatlemaníaca em 1966 não tenha nenhuma relação com Capra no que diz respeito a sua congratulação de doutor em física pela Universidade de Viena nesse mesmo ano – mas, sinceramente, tenho lá minhas dúvidas, até por que a Era do sexo, drogas e rock n’ roll estava só germinando, e o histórico Woodstock estava prestes a entrar pra história.

O ponto fundamental do pensamento de Capra se encontra na fusão entre, as teorias de caráter construtivo da mecânica quântica, e o misticismo oriental nas vertentes do hinduísmo, do budismo, do taoísmo, do zen e do I Ching. A física moderna, agora, é obrigada a suportar o “próprio cuspe no próprio olho” (que caiu por gravidade) depois de tantos séculos defendendo uma concepção mecanicista do universo gestada com Galileu e Newton; sendo inclusive, tal concepção, a base da inspiração dos físicos que procuram unificar as forças (conhecidas pelo menos) presentes no universo em um único sistema de equações. Tudo pelo simples almejo da audácia de torná-lo determinístico em todos os seus estágios de transmudação e entropia.

Deepak Chopra e Amit Goswani são companheiros de Capra na difusão dessa nova influência do Woodstock nas cadeiras científicas – ou poderíamos dizer nova vertente de forjar na própria verdade algo extraordinário? O fato é que o estereótipo de “místicos quânticos” foi inevitável, e a cada obra publicada por algum deles, a batelada de críticas por parte de toda classe naturalista da ciência se tornou praxe.

A questão crucial é que, esse exemplo de transformar a própria verdade em uma verdade extraordinária forjada, está longe de ser só mais um motivo de chacota para os materialistas, e ainda, está longe de ser a simples corroboração com o modismo pós-modernista em olhar a filosofia oriental como uma tradição de valor cultural inestimável, sendo digna até de ocupar nossa sociedade com jargões made in Caminho das Índias. Alguns religiosos, pra não dizer cristãos, tem aproveitado dessa nova exposição da realidade por parte dos místicos quânticos na justificativa de embelezar e embasar a fé, com o intuito de racionalizar a própria crença em Deus por essas vias supostamente científicas. Digo supostamente por que Goswani, Chopra, Capra e outros, tem sido “taxonomicamente” classificados como pseudocientístas assim como toda classe científica detentora do movimento Inteligent Desing, que erradamente são relacionados aos defensores do criacionismo científico cristão.

Para que a questão aqui não se torne demasiadamente obnubilada, é preciso se ater a dois problemas: a busca por verdades extraordinárias por parte dos chamados místicos quânticos, que utilizam os paradoxos da mecânica quântica para fundamentar uma concepção esotérica do universo, em que, mente e matéria estão ligadas por variáveis não-locais, ou seja, variáveis desconhecidas que influenciam um dado evento, sendo assim a base da alusão à filosofia oriental que defende uma concepção holística de universo; e ainda, a intenção de “alguns” em transformar a verdade religiosa cristã em uma “verdade religiosa cristã extraordinária”, utilizando essa concepção holística de universo com base na chamada “consciência quântica” apresentada pelos místicos quânticos. O fato é que, apesar de parecer inteligente, convincente e até ter a intenção de “dar razão aos que questionarem a respeito da fé”, tal ação não possui razão nenhuma – pelo menos razão no que se refere aos padrões bíblicos de fé cristã.

Diante dos dois problemas, é preciso apenas considerar que a verdade extraordinária dos místicos quânticos está longe de ser considerada uma ciência respeitada no rol científico. Isso devido ao fato de que a classe científica naturalista sente arrepios em ouvir até pequenos sussurros de sobrenaturalidade na ciência. Não pretendo discutir o motivo (a teoria quântica) que levou esses místicos quânticos a fundamentarem tal idéia, justamente por tratar de um campo da ciência que poucos compreendem com clareza, mas é fácil perceber principalmente em O Ponto de Mutação, de Capra, que a permuta entre a teoria quântica e o Taoísmo é forçada e muitas vezes conceitual. A questão é, essa nova classe de religiosos cristãos tem sido formada e tenta dar “razão” à própria fé utilizando toda parafernália esotérica quântica de Capra – talvez pudessem chamá-los de religiosos quanticamente cristãos.


Já prefaciado, então...

Émille Durkheim, considerado o pai da sociologia moderna, dizia que “as bases fundamentais do pensamento e consequentemente da ciência possui sua origens na religião”, sugerindo que uma das características fundamentais da constituição de um dado grupo de indivíduos como sociedade é a religião. No entanto, atribuir essa influência da religião como sendo de caráter epistemológico é aceitável quando se considera a realidade vigente em que se encontra a ação científica – a visão de realidade possuída por tal pesquisador, sendo influenciada pela religião, por exemplo, o geocentrismo de Ptolomeu. É comum encontrar cristãos fazendo menção a respeito da fé cristã newtoniana, antes contestada mas agora comprovada com a publicação de obras que mostram Newton como um interpretador profético, como por exemplo As Profecias do Apocalipse e o Livro de Daniel (Editora Pensamento no Brasil); sem deixar de citar Ptolomeu, Copérnico, Galileu Galilei, Blaise Pascal entre tantos outros. O problema não está no uso do chamado “argumento da autoridade”, que defende a idéia de que, “se essas grandes mentes criam no Deus cristão, logo quem sou eu pra discordar deles, também creio”, justamente por que no espaço e tempo de muitos deles a aplicação do pensamento de Durkheim é perfeita, e é considerável aludir aos tais exemplificando a perfeita convivência entre a fé e a razão de um indivíduo e suas relações a partir de uma visão sociológica e espiritual. Porém, a mesma prática voltada para o taoísmo de Capra e Goswani não é tão prosaica, não porque os mesmos fazem uso da filosofia oriental esotérica, que não é comumente aceita nos moldes da teologia cristã, mas porque tais questões voltadas não só para a teoria quântica como também para a relação entre sujeito observador e a realidade observada não são tão fáceis de tratar para conceber num modelo teórico que exprima tudo isso.

Particularmente, vejo que, além da complicada teoria quântica que ainda não é digna de confiabilidade como verdadeira devido ao problema da unificação - segundo Sthephen Hawking em Uma Breve história do Tempo (editora Racco no Brasil) - a relação entre sujeito e realidade é bastante obnubilada, seria preciso relacionar todo o conhecimento em potencial com uma espécie de descrição fenomenológica da realidade e do ato de adquirir conhecimento. Durante vários séculos esse foi um dos grandes problemas da filosofia, a intrínseca relação entre sujeito e realidade material, ocasionando na origem de duas vertentes que são classificadas pelo pensamento filosófico, a razão e o empirismo. Sem mais delongas, até o presente momento, não vejo coerência em justificar a fé cristã aludindo às teorias esotérico-quânticas mirabolantes que colocam a mente humana em plena ligação com todo o universo; em uma análise mais profunda é mais fácil se estabelecer um posicionamento deísta do que o teísmo cristão bíblico.

Os materialistas apresentam essa nova vertente da física moderna como charlatanismo quântico; a Verdade Bíblica apresenta algo além da prova da existência de Deus, simplesmente por que o fato de Deus “estar lá” é tão simples e natural que já parte diretamente para a relação entre Deus e o homem. Porém, não há também incoerência em atribuir ao fato de existir nessa existência perceptível as digitais divinas do Criador. “Certo” cristão fez menção a uma frase citada por Carl Sagan, astrônomo, que disse, “a ausência de evidencia não é evidencia da ausência”, como se referindo a ausência de evidencias empíricas da existência de Deus. Ora, o erro começa quando se faz uso desse pensamento visto que Sagan se referia a vida inteligente extraterrestre, e depois, não há ausência de evidencia, a própria existência é a principal evidencia entre outras evidencias. Em Romanos 1: 20 o apóstolo Paulo diz, “[...] os atributos invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, tanto seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que foram criadas, de modo que eles são inescusáveis”; é possível que o “dar razão da vossa fé” mencionado pelo apóstolo Pedro vá além de dar uma razão lógica, filosófica ou científica da fé, talvez seja dar razão a fé da mesma forma que há razão no relacionamento entre dois indivíduos que se amam, ou seja, não há razão, há apenas realidade, existe apenas um relacionamento real – talvez essa seja a “verdade por si só extraordinária” mais incontestável que exista.

O problema, “talvez”, esteja no paradoxo inerente no ato de conceber essa fácil verdade extraordinária; é um fácil tão difícil de compreender, e o pior, tão dificíl de se ter.



Um Neologismo: Expertalhismo Dawkiniano


1° Parte

Quando eu soube da existência de um livro chamado God Delusion (Deus um Delírio, ed. Companhia das Letras no Brasil) de Richard Dawkins, confesso que me senti mal na primeira vez que o vi na livraria. Pensei comigo, "será que alguém conseguiu provar que Deus não existe?", e meu receio foi maior quando folheando o grosso calibre dawkiniano - não só no tamanho do livro na versão em português mas também no ataque estridente sem mensurar conseqüências - percebi logo que o alvo principal era o cristianismo.
Um certo dia me maneando ociosamente numa livraria resolvi comprar um exemplar de Deus um Delírio, porém, antes de ler, preferi me voltar a conhecer um pouco mais a pessoa de Richard Dawkins. Isso com o intuito de entender melhor seu ponto de vista. Diante disso, concluí que o livro deveria ser lido com respeito, mas não ao que estava escrito e sim ao quilate científico de Dawkins - zoólogo evolucionista, professor da Oxford Univesity e autor de vários best-sellers voltados a popularização da ciência.
A proposta deste post não é pretensiosamente levantar alguma argumentação contra Dawkins, as críticas à obra dawkiniana tem sido bem representadas, dando oportunidade aos leitores de observar uma prévia entre as duas faces do histórico impasse entre fé e razão, ou melhor, fé e cientificismo. Alister Mcgrath é um bom exemplo de contra ofensiva, colega de Dawkins em Oxford, biofísico e teólogo, além de autor dos best-sellers refutativos à obra de Dawkins: O delírio de Dawkins (ed. Mundo Cristão no Brasil) e Dawkins' God: genes, memes and origin of life, obras que não só criticam Dawkins como também apresentam uma refutação as suas idéias, sendo elas a causa de um interessante debate entre ambos ocorrido em 2007.

Durante a leitura de Deus um Delírio percebi algumas facetas sutis que estão mais para uma intenção econômica do que para um resultado elucidativo, onde a argumentação científica fica sufocada frente ao aproveitamento por parte do autor da realidade vigente das pessoas que terão acesso a obra. Isso fica evidente nas declarações que dizem, "se esse livro funcionar como espero, os religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem", em outro ponto comunga o conforto de que, religiosos fundamentalistas serão sempre fundamentalistas, sendo assim inconvertíveis. Aparentemente Dawkins tenta prevê seu público alvo agindo pedantemente em alguns pontos, e em outros, sendo pessimista com a realidade mosaica do meio secular, ou seja, pessimista por saber que em geral o meio desprovido do conhecimento científico fundamenta suas concepções no senso comum; para Dawkins, isso não passa de ignorância.
Dawkins não só defende a teoria da evolução como também a apresenta ao leitor como uma “descrição real da realidade”, mesmo negando o fundamentalismo intrínseco no seu discurso estridente, principalmente contra a religião, a forma com que Dawkins apresenta e justifica seu darwinismo dá a qualquer um (em geral leigos, pois Dawkins apresenta sua obra para pessoas segregadas do meio acadêmico e de sua linguagem técnico-científica) a posição de que a teoria evolutiva é um fato irrefutável, ridicularizando e caindo no clássico ad hominem qualquer um que pense o contrário. Dawkins não poupa nem mesmo autoridades do rol científico, como Francis Collins, ateu convertido ao cristianismo que defende a evolução como o mecanismo usado e escolhido por Deus para desenvolver sua criação. Em uma entrevista num programa de TV americano cujo nome não tem importância, Dawkins elogia Collins por seu trabalho como diretor do projeto genoma, atribuindo a Collins o título de cientista brilhante. É estranho, pois, Dawkins e toda classe atéia ativista (Dan Dennet, Sam Harris e Cristopher Hitchens) usam o termo “brilhante” para se auto-intitularem, com a justificativa de que o termo “ateu” é forte e pejorativo; no entanto, mesmo sabendo que Collins é cristão e já tendo publicado o que eu chamo de sua "justificativa de fé", A Linguagem de Deus (editora Gente no Brasil), ainda sim, Dawkins atribui a Collins o adjetivo de brilhante.
Nessa entrevista Collins é um brilhante até o momento em que o apresentador, também ateu, afirma que Collins em similitude a todos os cristãos acredita na bíblia como revelação divina, inclusive no gênesis em uma conotação metafórica. A resposta de Dawkins é imediata, “então ele não é tão brilhante assim”; fica notório na declaração de Dawkins que o interesse ali é semelhante ao de todos os seus best-sellers bélicos contra a religião, que é o desrespeito à cognição alheia, ficando explícito que o brilhantismo está na questão da existência de Deus e não na produção ou representação científica.

Esse fato isolado fica longe de uma descrição não tão concisa do trabalho e da pessoa de Dawkins, sem deixar de citar sua importância intelectual no meio secular até por que Dawkins é um sujeito com uma publicação científica expressiva. No entanto, a fundamentação da militância dawkiniana contra a superstição tem suas bases em paradigmas, sendo eles estritamente materialistas numa roupagem científica "incontestável segundo ele" que deixam o receptor do argumento envolvido com o suposto caráter cientifico das “evidências” naturais.

2° Parte

O uso dos paradigmas pós-modernistas – principalmente o relativismo no que diz respeito à moral como resultado do pensamento naturalista – faz com o que o sujeito enxergue tais argumentos como supostamente óbvios, no entanto, o mesmo sujeito esquece que ele próprio é um fruto desses paradigmas. De forma mais sucinta, é a aplicação real do homem como resultado do meio social numa alusão a Hegel; ou ainda, da disponibilidade tecnológica no sentido mais amplo de tecnologia como propunha Marx. Em relação à gestação das convicções do indivíduo pelo meio, Dawkins parte do pressuposto de que todo sujeito dotado de uma mínima parcela de conhecimento corroborará com sua argumentação, visto que para ele os ateus são sempre mais inteligentes por que não se submeteram à tendência de crer em nada alem da realidade física; e ainda, foram agraciados com a aleatoriedade que os colocou em um tempo e um espaço no qual o acesso à tecnologia é mais facilitado, corroborando com a superestrutura marxista que compõe a sociedade e que faz da tecnologia sinônimo de inteligência, essa por sua vez sinônimo de ateísmo.

O fato é que Dawkins causa um olhar indiferente (pra não dizer amedrontado) na classe religiosa de leitores que conhecem seu trabalho, e ainda, um deleite a tempos potencializado por aqueles que defendem a posição do néscio no salmo 14, que diz no seu coração: “não há Deus (...)”, satisfazendo o anseio de viver sozinho na existência sem nenhuma dívida condenatória que lhe venha a ser atribuída. Dawkins além de invocar as palavras do néscio ainda declara, “ateus, saiam dos armários (...)”, e encerra Deus um Delírio com o que ele chama de, palavras de “otimismo e esperança”, fato estranho numa tentativa camuflada de justificar a vida numa posição em que todas as convicções estão voltadas para o nada. No materialismo não há esperança ou otimismo para o fim da vida, o que existe é o vácuo absoluto, a inexistência da consciência, com o objetivo de confortar a todos aniquilando a dor que sentimos em existir. Essa filosofia de vida é milenar, sendo característica dos epicuristas gregos que invocavam o atomismo de Demócrito para justificar a justa posição frente às mazelas da vida - Dawkins não está fazendo nada de novo.

Talvez o maior expertalhismo de Dawkins seja na consciência do período histórico que nos encontramos, em que determinadas características da pós-modernidade dão munição ao argumento ateísta que se restringe ao materialismo filosófico, além do naturalismo, na aleatória sucessão de eventos hipotéticos que justificam a realidade perceptível. Essa talvez seja a justificativa da prosaica posição adotada pelo homem pós-moderno de ser cauteloso nas suas escolhas visto que, a instituição religiosa, seja no caminhar paralelo e segregado do Estado, ou ainda, envolvida e influente nos trâmites governamentais confundindo-se até com uma teocracia, não deixa um registro histórico louvável na intenção de usar tal registro como argumento defensor ante os ataques da estirpe dawkiniana. Diante dessa realidade, fica difícil para o sujeito assimilar o conhecimento com crítica e perícia, até por que: o conhecimento teológico; a importância histórica da religião; a sua participação na instituição moral das diversas sociedades vigentes; a influência cristã nos paradigmas econômicos e sociais; a relação do homem x natureza no sentido mais filosófico de percepção e conhecimento da realidade; e por fim, o mal uso dos princípios da fé, que tem se tornado objeto de mercado não se diferenciando, por exemplo, de commodities agrícolas negociados em função da oferta e da demanda, não faz parte da vida cotidiana do sujeito que se volta a pensar em tais questões referentes ao conflito: mundo espiritual e mundo material. Para alguns, todas essas questões causam reflexão pois os mesmos tem consciência de que se trata da própria existência, no entanto, outros preferem apenas existir adotando um agnosticismo indiferente, se abstendo do enfado causado pelo trabalho de averiguar esse campo tão turbulento do conhecimento.
Alguém, num dia de prosa comigo, citou que Dawkins não era "intelectualmente honesto", e de fato ele não é, não precisar ser um religioso, no sentido mais amplo, para constatar isso. Muitos ateus se mostraram contrários aos ataques de Deus um Delírio, que em geral é contra qualquer forma de divindade, no entanto, é cômico perceber que Dawkins não usa nenhum critério para invocar divindades como Zeus, Horus, Mitra, Brahma e Odin na iniciativa de atacar o cristianismo. Porém é fato que Deus um Delírio e ainda o próprio Dawkins tem deixado de ter tanta expressividade atualmente, talvez pelo fato de que essa desonestidade intelectual tenha sido evidenciada por ter ficado notória a intenção estritamente lucrativa em publicar uma obra atrás da outra sobre tais questões. Na maioria delas, com argumentos repetitivos e mal educados cientificamente, apresentando a ciência de forma errada para quem não tem conhecimento do papel e das limitações epistemológicas da ciência. Já me desculpando do neologismo forçado para o termo "expertalhismo dawkiniano", tenho em mente de que a esperteza de Dawkins é bem maior do que a simples fagulha supracitada, e que podemos aguardar com calma, pois Dawkins e sua classe ativista atéia ainda vão espernear muito na intenção de chamar atenção, é só esperar a próxima investida de algum deles.

Eles estão soltos, mas nós estamos de olho neles.