Um Neologismo: Expertalhismo Dawkiniano


1° Parte

Quando eu soube da existência de um livro chamado God Delusion (Deus um Delírio, ed. Companhia das Letras no Brasil) de Richard Dawkins, confesso que me senti mal na primeira vez que o vi na livraria. Pensei comigo, "será que alguém conseguiu provar que Deus não existe?", e meu receio foi maior quando folheando o grosso calibre dawkiniano - não só no tamanho do livro na versão em português mas também no ataque estridente sem mensurar conseqüências - percebi logo que o alvo principal era o cristianismo.
Um certo dia me maneando ociosamente numa livraria resolvi comprar um exemplar de Deus um Delírio, porém, antes de ler, preferi me voltar a conhecer um pouco mais a pessoa de Richard Dawkins. Isso com o intuito de entender melhor seu ponto de vista. Diante disso, concluí que o livro deveria ser lido com respeito, mas não ao que estava escrito e sim ao quilate científico de Dawkins - zoólogo evolucionista, professor da Oxford Univesity e autor de vários best-sellers voltados a popularização da ciência.
A proposta deste post não é pretensiosamente levantar alguma argumentação contra Dawkins, as críticas à obra dawkiniana tem sido bem representadas, dando oportunidade aos leitores de observar uma prévia entre as duas faces do histórico impasse entre fé e razão, ou melhor, fé e cientificismo. Alister Mcgrath é um bom exemplo de contra ofensiva, colega de Dawkins em Oxford, biofísico e teólogo, além de autor dos best-sellers refutativos à obra de Dawkins: O delírio de Dawkins (ed. Mundo Cristão no Brasil) e Dawkins' God: genes, memes and origin of life, obras que não só criticam Dawkins como também apresentam uma refutação as suas idéias, sendo elas a causa de um interessante debate entre ambos ocorrido em 2007.

Durante a leitura de Deus um Delírio percebi algumas facetas sutis que estão mais para uma intenção econômica do que para um resultado elucidativo, onde a argumentação científica fica sufocada frente ao aproveitamento por parte do autor da realidade vigente das pessoas que terão acesso a obra. Isso fica evidente nas declarações que dizem, "se esse livro funcionar como espero, os religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem", em outro ponto comunga o conforto de que, religiosos fundamentalistas serão sempre fundamentalistas, sendo assim inconvertíveis. Aparentemente Dawkins tenta prevê seu público alvo agindo pedantemente em alguns pontos, e em outros, sendo pessimista com a realidade mosaica do meio secular, ou seja, pessimista por saber que em geral o meio desprovido do conhecimento científico fundamenta suas concepções no senso comum; para Dawkins, isso não passa de ignorância.
Dawkins não só defende a teoria da evolução como também a apresenta ao leitor como uma “descrição real da realidade”, mesmo negando o fundamentalismo intrínseco no seu discurso estridente, principalmente contra a religião, a forma com que Dawkins apresenta e justifica seu darwinismo dá a qualquer um (em geral leigos, pois Dawkins apresenta sua obra para pessoas segregadas do meio acadêmico e de sua linguagem técnico-científica) a posição de que a teoria evolutiva é um fato irrefutável, ridicularizando e caindo no clássico ad hominem qualquer um que pense o contrário. Dawkins não poupa nem mesmo autoridades do rol científico, como Francis Collins, ateu convertido ao cristianismo que defende a evolução como o mecanismo usado e escolhido por Deus para desenvolver sua criação. Em uma entrevista num programa de TV americano cujo nome não tem importância, Dawkins elogia Collins por seu trabalho como diretor do projeto genoma, atribuindo a Collins o título de cientista brilhante. É estranho, pois, Dawkins e toda classe atéia ativista (Dan Dennet, Sam Harris e Cristopher Hitchens) usam o termo “brilhante” para se auto-intitularem, com a justificativa de que o termo “ateu” é forte e pejorativo; no entanto, mesmo sabendo que Collins é cristão e já tendo publicado o que eu chamo de sua "justificativa de fé", A Linguagem de Deus (editora Gente no Brasil), ainda sim, Dawkins atribui a Collins o adjetivo de brilhante.
Nessa entrevista Collins é um brilhante até o momento em que o apresentador, também ateu, afirma que Collins em similitude a todos os cristãos acredita na bíblia como revelação divina, inclusive no gênesis em uma conotação metafórica. A resposta de Dawkins é imediata, “então ele não é tão brilhante assim”; fica notório na declaração de Dawkins que o interesse ali é semelhante ao de todos os seus best-sellers bélicos contra a religião, que é o desrespeito à cognição alheia, ficando explícito que o brilhantismo está na questão da existência de Deus e não na produção ou representação científica.

Esse fato isolado fica longe de uma descrição não tão concisa do trabalho e da pessoa de Dawkins, sem deixar de citar sua importância intelectual no meio secular até por que Dawkins é um sujeito com uma publicação científica expressiva. No entanto, a fundamentação da militância dawkiniana contra a superstição tem suas bases em paradigmas, sendo eles estritamente materialistas numa roupagem científica "incontestável segundo ele" que deixam o receptor do argumento envolvido com o suposto caráter cientifico das “evidências” naturais.

2° Parte

O uso dos paradigmas pós-modernistas – principalmente o relativismo no que diz respeito à moral como resultado do pensamento naturalista – faz com o que o sujeito enxergue tais argumentos como supostamente óbvios, no entanto, o mesmo sujeito esquece que ele próprio é um fruto desses paradigmas. De forma mais sucinta, é a aplicação real do homem como resultado do meio social numa alusão a Hegel; ou ainda, da disponibilidade tecnológica no sentido mais amplo de tecnologia como propunha Marx. Em relação à gestação das convicções do indivíduo pelo meio, Dawkins parte do pressuposto de que todo sujeito dotado de uma mínima parcela de conhecimento corroborará com sua argumentação, visto que para ele os ateus são sempre mais inteligentes por que não se submeteram à tendência de crer em nada alem da realidade física; e ainda, foram agraciados com a aleatoriedade que os colocou em um tempo e um espaço no qual o acesso à tecnologia é mais facilitado, corroborando com a superestrutura marxista que compõe a sociedade e que faz da tecnologia sinônimo de inteligência, essa por sua vez sinônimo de ateísmo.

O fato é que Dawkins causa um olhar indiferente (pra não dizer amedrontado) na classe religiosa de leitores que conhecem seu trabalho, e ainda, um deleite a tempos potencializado por aqueles que defendem a posição do néscio no salmo 14, que diz no seu coração: “não há Deus (...)”, satisfazendo o anseio de viver sozinho na existência sem nenhuma dívida condenatória que lhe venha a ser atribuída. Dawkins além de invocar as palavras do néscio ainda declara, “ateus, saiam dos armários (...)”, e encerra Deus um Delírio com o que ele chama de, palavras de “otimismo e esperança”, fato estranho numa tentativa camuflada de justificar a vida numa posição em que todas as convicções estão voltadas para o nada. No materialismo não há esperança ou otimismo para o fim da vida, o que existe é o vácuo absoluto, a inexistência da consciência, com o objetivo de confortar a todos aniquilando a dor que sentimos em existir. Essa filosofia de vida é milenar, sendo característica dos epicuristas gregos que invocavam o atomismo de Demócrito para justificar a justa posição frente às mazelas da vida - Dawkins não está fazendo nada de novo.

Talvez o maior expertalhismo de Dawkins seja na consciência do período histórico que nos encontramos, em que determinadas características da pós-modernidade dão munição ao argumento ateísta que se restringe ao materialismo filosófico, além do naturalismo, na aleatória sucessão de eventos hipotéticos que justificam a realidade perceptível. Essa talvez seja a justificativa da prosaica posição adotada pelo homem pós-moderno de ser cauteloso nas suas escolhas visto que, a instituição religiosa, seja no caminhar paralelo e segregado do Estado, ou ainda, envolvida e influente nos trâmites governamentais confundindo-se até com uma teocracia, não deixa um registro histórico louvável na intenção de usar tal registro como argumento defensor ante os ataques da estirpe dawkiniana. Diante dessa realidade, fica difícil para o sujeito assimilar o conhecimento com crítica e perícia, até por que: o conhecimento teológico; a importância histórica da religião; a sua participação na instituição moral das diversas sociedades vigentes; a influência cristã nos paradigmas econômicos e sociais; a relação do homem x natureza no sentido mais filosófico de percepção e conhecimento da realidade; e por fim, o mal uso dos princípios da fé, que tem se tornado objeto de mercado não se diferenciando, por exemplo, de commodities agrícolas negociados em função da oferta e da demanda, não faz parte da vida cotidiana do sujeito que se volta a pensar em tais questões referentes ao conflito: mundo espiritual e mundo material. Para alguns, todas essas questões causam reflexão pois os mesmos tem consciência de que se trata da própria existência, no entanto, outros preferem apenas existir adotando um agnosticismo indiferente, se abstendo do enfado causado pelo trabalho de averiguar esse campo tão turbulento do conhecimento.
Alguém, num dia de prosa comigo, citou que Dawkins não era "intelectualmente honesto", e de fato ele não é, não precisar ser um religioso, no sentido mais amplo, para constatar isso. Muitos ateus se mostraram contrários aos ataques de Deus um Delírio, que em geral é contra qualquer forma de divindade, no entanto, é cômico perceber que Dawkins não usa nenhum critério para invocar divindades como Zeus, Horus, Mitra, Brahma e Odin na iniciativa de atacar o cristianismo. Porém é fato que Deus um Delírio e ainda o próprio Dawkins tem deixado de ter tanta expressividade atualmente, talvez pelo fato de que essa desonestidade intelectual tenha sido evidenciada por ter ficado notória a intenção estritamente lucrativa em publicar uma obra atrás da outra sobre tais questões. Na maioria delas, com argumentos repetitivos e mal educados cientificamente, apresentando a ciência de forma errada para quem não tem conhecimento do papel e das limitações epistemológicas da ciência. Já me desculpando do neologismo forçado para o termo "expertalhismo dawkiniano", tenho em mente de que a esperteza de Dawkins é bem maior do que a simples fagulha supracitada, e que podemos aguardar com calma, pois Dawkins e sua classe ativista atéia ainda vão espernear muito na intenção de chamar atenção, é só esperar a próxima investida de algum deles.

Eles estão soltos, mas nós estamos de olho neles.

7 comentários:

  1. DG, eu gostei bastante da postagem, parabéns! Não sei como alguém tão risível como eu, tão cheio de bobagens e tão pobre intelectualmente, poderia vir aqui e escrever o que estou prestes a escrever. Sinto-me envergonhado, desde já. E logo de agora te peço perdão.

    No entanto, gostaria de fazer algumas inferências que podem te ajudar a enriquecer seu pensamento. Sei que você e eu buscamos a mesma coisa: apresentar idéias para as pessoas com mais cuidado e perfeição, pra que elas possam entender. No entanto, por fraqueza nossa, acabamos colocando algumas coisas em nossos textos que não cabem neles. Eu não sei se você gosta de correções nos seus comentários, mas eu gosto e, por isso, sempre que puder e quiser, gostaria que você criticasse meus textos, afim de que eu possa melhorá-los. Antes de tudo, saiba que estou fazendo isso tanto por nossa amizade quanto por nosso crescimento intelectual. Você escreve feito um patife! Fica só se exibindo com nomes de filósofos e isso e aquilo. Hahaha! Coisa feia... Mas o que vim falar mesmo foi sobre uma pequena passagem que li. Eu já li McGrath e fiquei inquieto quando a li:

    "Alister Mcgrath é um bom exemplo de contra ofensiva, colega de Dawkins em Oxford, biofísico e teólogo, além de autor dos best-sellers refutativos à obra de Dawkins: O delírio de Dawkins (ed. Mundo Cristão no Brasil) e Dawkins' God: genes, memes and origin of life, obras que não só CRITICAM DAWKINS como também apresentam uma refutação as suas idéias, sendo elas a causa de um interessante debate entre ambos ocorrido em 2007."

    O que é que eu quero dizer a este respeito? Quero dizer que McGrath não critica Dawkins, como pessoa. Ele critica suas idéias. Só suas idéias. Criticar Dawkins seria contrário ao que ele escreveu em seu livro "O delírio de Dawkins". Já li a edição da MC que você citou e fiquei perplexo com tamanha ousadia e imparcialidade nos campos de teologia, ciência e psicologia da religião que esse homem tem demonstrado. Sem esquecer de sua esposa, que também é incrível e sabe o que diz. Pra que você se sinta mais à vontade, gostaria de escrever uma pequena passagem do livro de McGrath onde se revela a falta de interesse dele em criticar a pessoa de Dawkins. Vejamos:

    "Tenho me questionado muitas vezes sobre como Dawkins e eu pudemos chegar a conclusões tão absolutamente diferentes com base na longa e árdua reflexão sobre, em essência, o mesmo mundo. Uma possibilidade é que, por crer em Deus, eu seja demente, rédulo, enganado e enganador, cuja capacidade intelectual foi deturpada pelo vírus-Deus infeccioso, maligno. Ou, então, porque sou demente, crédulo, enganado e enganador, minha capacidade intelectual foi deturpada ao ser tomada pelo vírus-Deus infeccioso, maligno, e por isso creio em Deus. Temo que ambas as possibilidades sejam a essência da resposta que encontro nas páginas de Deus, um delírio. Embora isso possa constituir uma resposta, não é particularmente convincente. Ela poderia agradar aos ateus reacionários, cuja fé inflexível não lhes permite operar fora dos limites do "não-deus". Espero, porém, ter razão em supor que tais dogmáticos impensantes não sejam típicos do ateísmo. Outra resposta a minha questão poderia ser a repetição da mesma tolice, desta vez aplicando-a a Dawkins. (Embora neste caso, suponho que teríamos de pressupor que sua mente tenha sido tomada por algum tipo de "vírus não-deus".) Mas não tenho intenção de escrever tal absurdo. Por que insultar Dawkins? E, ainda mais importante, por que insultar a inteligência de meus leitores?"

    Creio que aí deixa claro que McGrath não foi baixo como Dawkins criticando indivíduos. Ele foi imparcial por ter criticado pensamentos e não pessoas. E tudo isso feito da forma mais sensata e moderada possível. McGrath acha que criticar Dawkins seria o mesmo que criticar os seus leitores.

    No mais, seu texto ficou ótimo. Mais uma vez, parabéns!

  1. Religiosos fundamentalistas serão sempre fundamentalistas ... ? O que vc pensa sobre isso?
    Eu faço esse questionamento, pq no texto há a informação de que hj,ateus como Francis Collins se converteram ao cristianimso e acreditam que a evolução é usada como o mecanismo escolhido por Deus para desenvolver sua criação. O que o Sr. pode dizer, hein?

  1. As palavras são uma mera representação da realidade, não são: a realidade em sua completude. Referem-se tão somente aos precários usos interpretativos lexicais de um determinado povo e lugar. Portanto partindo desse princípio: a Bíblia objeto positivo confirmativo das ações existências deusisticas* seria apenas um livro como qualquer outro −ínfimo e limitado ante a flexibilidade do código simbólico verbal (o pensamento da humanidade – materializado neste mundo tão somente através da linguagem), e a constante leitura ativa das construções frasais. Não estou aqui para levantar a bandeira do Materialismo Imanente descrendo assim o Idealismo Transcendente. Mas sim, para mostrar o caráter múltiplo e qualitativo das coisas em si e a limitada leitura que fazemos delas quando as trazemos para nossas falas, fato este que nos demonstra a necessidade de considerar como e quais fatores contribuíram para o estabelecimento de “Deus” como causa primeira.

    ações existências deusisticas*: fica notado a criação de um neologismo nominativo verbo flexional {d/e/u/s/i/s/t/i/c/a/s}. Que acaso se origina da palavra Deus, que é uma das marcas da nossa incauta sociedade machista.

    Jonas Jácome 03/04/10.

  1. Concordo que a minha explicação tenha sido simplista, mas não foi o próprio Jesus (o Cristo) que veio reinterpretar as leis com simplicidade? Assim como: Siddhartha Gautama, Krishna, Sócrates dentre outros... Quanto às idéias filosóficas tenho certo conhecimento da obra de Friedrich Wilhelm Nietzsche, nos seguintes livros: Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal, A Gaia Ciência, O Anticristo, Ecce Homo e Aurora. É em Nietzsche que mais verso, infelizmente eu ainda não tive a oportunidade de ler Dawkins, acaso possa me emprestá-lo?... Ah!, existem vários autores aos quais li algumas obras, isto para melhor entender a Nietzsche, a exemplo: Fiódor Mikhailovich Dostoievski - O jogador; Arthur Schopenhauer - Dores do Mundo; François-Marie Arouet/ Voltaire - Cândido, ou O Otimismo; Honoré de Balzac - Ilusões perdidas; Baltasar Gracián - A arte da prudência; Charles Baudelaire - As flores do mal, etc. Além é claro dos três volumes do “Curso de filosofia” de Battista Mondin: do mito a epistemologia. Isso que está acima citado (e olha que nem coloquei as obras dos autores que eu estudei nos meus oito anos no curso de Letras Vernáculas) me serviu para construir uma idéia simples – o discurso e moldado de acordo as vontades de que esteve ou está no poder, ou seja, a bíblia é um instrumento de legitimação do poder religioso. Logo ela está apta ser interpretada ao bel-prazer de quem a usa, e faz dela base para um poder relativo ao meio em que está.

    Jonas Jácome 05/04/10

  1. Meu caríssimo JOnas Jácome, estou preprarando uma postagem sobre o assunto que você postou, não esqueci de você não.

    abração meu Caríssmo

  1. Tem uma diferença entre Jesus e os os filósofos supracitados: ele jamais demonstrou estar interpretando alguma coisa.

    Outra coisa, Jesus é a Palavra, não a Bíblia. Claro que a Bíblia é um livro comum.

  1. Por vezes uma das maneiras que encontramos para dar mais lucidez as nossas ações cotidianas é: o desvelar da ampla gama de camadas que nos são dadas aos sentidos e a nossa mente. Não obstante, com cautela como fez - Søren Aabye Kierkegaard, na sua obra “O desespero humano”.
    Quanto ao mais devo concordar contigo há em mim o gérmen do Romantismo, ou seja, o exagero.