Uma nova (talvez) rota anti-esquerdista

Tomar como crítica ao movimento histórico socialista aquele velho sofisma de que o mesmo teve seu sistema doutrinário construído por um burguês (Karl Marx) - esse que conclamava a luta violenta no sentido literal contra a classe burguesa –, enquadraria a crítica numa posição ad hominem sem sentido, visto que, devemos enquadrar na mesma posição de Marx o crítico que se levanta contra a fome sem nunca ter desfrutado de um ronco no estômago. No entanto, em similitude a esse sofisma, seria a taxação escarnecedora de capitalista, atribuída àquele desfavorecido vítima da “luta de classes” que se opõe a tal modelo socialista de sociedade; mas que teve a “infelicidade” de nascer cercado de belas e cheirosas enfermeiras num hospital privado. Mas concordemos: seria a mesma coisa se o tal desafortunado fosse parturiado pelas mãos dos açougueiros do SUS treinados na escola Freddye Krueger.

Talvez um dos chavões mais usados por um esquerdista contra um anti-esquerdista seja a acusação de capitalista – isso quando o mesmo ridiculamente o enxovalha por ter votado no Alckimim nas últimas eleições, ou até mesmo, atira a pedra menos burra que lançada na cabeça do anti-esquerdista vem escrita legivelmente, e ainda deixa uma marca na testa, com o xingamento: “neoliberalista filho do FHC”. Diante desses poucos exemplos de termos pré-fabricados e decorados na escola preparatória de pueris esquerdistas (a universidade), fica a pergunta: “por que o anti-esquerdista tem que ser sempre o capitalista?”. Isso me faz lembrar do termo atribuído à forma de alcançar um ponto no gráfico cartesiano representativo de uma medida energética de entalpia (depois que aprendi isso em introdução a físico-química I procuro saber se algumas situações se enquadram na mesma idéia); tal termo, denominado função de estado, determina que tal valor possa ser alcançado por diferentes vias, ou melhor, diferentes rotas de processamento. Sabendo disso, posso afirmar seguramente que o anti-esquerdismo é uma função de estado, pois tal posição não se dá necessariamente por intermédio da rota capitalista, mas pode vir simplesmente tomando como análise a fundamentação filosófica (muitas vezes deixada de lado) do movimento de esquerda, que foi construída na pedante base estrutural materialista no único sentido de se opor a conformidade de uma época marcada pelas moribundas influências absolutistas da passada revolução francesa. Influências essas tantos provindas de uma tradição patriarcal (familiar, detentora dos bens de consumo), como também regida pela presente concepção de ação divina determinadora, ou seja, num sentido mais maktub, determinista, como se aquele desafortunado acomodado com sua própria apedeutíce não tivesse razões pra lutar e melhorar a sua realidade pelo simples fato de ter vindo ao mundo naquelas condições.

A questão não é silogística, no sentido de que, um não materialista necessariamente se torna anti-esquerdista pelo simples motivo de que a fundamentação dos movimentos de esquerda está sustentada no materialismo. Muito menos na posição daquele que afirma viver “segundo a vontade de Deus” em ser enquadrado no rol determinista, apático e conformado com a mórbida realidade simplesmente sendo feliz com sua monetariamente pobre vida. O problema, mediante uma concepção própria, é epistemológico. Seria incoerente quando não redundantemente hipócrita, defender uma visão de mundo (e sociedade) que tem como premissa fundamental um sistema que relativiza a moral e rotula inconscientemente a ciência como fundamentalista - ao mesmo nível de escárnio a que uma cartomante é exposta por um cientificista moderno.

Talvez uma tolice possa estar sendo defendida neste post, agora convenhamos, a tolice anti-esquerdista é doce comparada com o amargo fundamentalismo científico materialista que se veste de liberalismo, quando na verdade engessa o intelecto cujas limitações são desconhecidas. Se não existia a via epistemológica da função de estado anti-esquerdista, acho que acabo de criá-la, longe das facetas desiguais e a-sentimentais do capitalismo, que faz da humanidade singularmente inestimável do homem, objeto de valor irrisório diante do sentido cabal, em essência, do que o mesmo representa.

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