Ideologia? Eu é que não quero uma.


“[...] o perigo de trocar a necessária segurança do pensamento filosófico pela explicação total da ideologia e pela sua Weltanschauung (cosmovisão) não é tanto o risco de ser iludido por alguma suposição geralmente vulgar e sempre destituída de crítica, mas o de trocar a liberdade inerente da capacidade humana de pensar pela camisa de força da lógica de uma idéia que pode subjugar o homem quase tão violentamente como uma força externa.”
Arendt, Hannah; Origens do totalitarismo.


“Ideologia, eu quero uma pra viver” (Cazuza). É notório que Cazuza refletia tão bem no campo do amor ao passo que antagonicamente fazia em questões conflituosas da realidade vigente. A compreensão de ideologia também é oposta ao analisarmos a profundidade filosófica (num sentido ontológico e epistemológico) do trecho supracitado de Arendt, e o total descaso e niilismo sublimado da apedeutíce do jovem pateticamente poeta acendido pela mídia oitentísta; claro que isso se deu simplesmente por o mesmo ser filho do dono de uma gravadora famosa do Rio de Janeiro burguês.
Em um tempo já passado considerei a detenção de uma ideologia algo primordial na vida de alguém com objetivos francos. Percebi que estava redondamente enganado. E mais uma vez, caí na mesma situação de Chesterton, como na tentativa de construir uma nova heresia moderna, novamente volta-se a Ortodoxia cristã, alegando que o primeiro tolo foi ele mesmo antes de ser acusado por um leitor de charlatanismo intelectual.
O que percebi foi que, enquanto eu estava fugindo da pretensão cientificista na intenção de ser o mais honesto possível em minhas conclusões, eu me distanciava no sentido de querer me agarrar a certa ideologia em todos os campos que perscrutava. Mas me senti aliviado em perceber a concordância etimológica que Paul Ricoeur e Hannan Arendt comungaram no termo “ideologia”; isso por que o alívio deu-se devido à explanação epistemológica que Arendt e Ricoeur deram ao termo ideologia, tratando com outros termos questões éticas e políticas da mesma forma que as ciências experimental e racional são subjugadas às bases epistemológicas (essas por si mesmas questionáveis e não dogmáticas ao meu ponto de vista).
Resumidamente, para Arendt e Ricoeur, a ideologia inevitavelmente simplifica e esquematiza a realidade, ao passo que a mesma se fundamenta em proposição (ões) axiomática(s) em que todo o sistema segue sendo construído a partir dela. Arendt vai mais além afirmando que todo pensamento ideológico tem a intenção de apresentar a lógica de uma idéia o mesmo status de realidade. Talvez todo esse prelúdio conceitual tenha sido enfadonho, mas julgo necessário, visto que, a intenção é afirmar que determinados posicionamentos se dissolvem numa análise mais profunda dos termos, incluindo assim, qualquer defesa de um modelo de realidade e a sua imposição num sentido arbitrário.
Em suma, a defesa de uma ideologia está para o fundamentalismo (no sentido pejorativo mesmo!) na política, assim como o cientificismo está para o aleijo intelectual no sentido de desonestidade no tratamento dos dados e no acesso ao mesmo durante a construção do modelo científico. Tal desonestidade se dá na atribuição ao objeto percebido (assim como na ideologia) o caráter de realidade, em que ambos são adjetivos de uma mesma fonte, ou seja, a percepção do objeto e a ideologia sendo adjetivos da experiência empírica.