Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores d’Arcais

Tema: Deus existe?
1° Parte


A concepção humana acerca da existência de Deus tem sido a causa de todo arcabouço social, antropológico e científico desde as civilizações mais primitivas das quais existem registros históricos. “As bases fundamentais do pensamento e consequentemente da ciência”, como afirmava Durkheim, “possuem suas origens na religião”; diante desse verdadeiro pensamento tendo por base cada via tomada por todos os sistemas filosóficos construídos ao longo da história, política e religião se discutem sim, desde que os envolvidos no diálogo tenham bases sustentáveis pra permanecerem de pé. Infelizmente é preciso aceitar a amarga idéia que coloca o futebol fora desse grupo, afinal de contas, a atuação presente de uma equipe não será de sucesso se a mesma simplesmente invocar seu passado de glória.
O debate ocorrido em 2000 entre o ainda cardeal católico e prefeito da congregação de doutrina da fé, Joseph Ratzinger (atual Bento XVI), e o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais, tem sua peculiaridade justamente porque a pergunta da temática é tratada com muita responsabilidade, um adjetivo evidente no discurso de ambos que em nenhum momento em especial entram no mérito de tratar questões metafísicas inerentes às qualidades naturais de Deus – ambos trabalham com o que se tem na mão, ou seja, na realidade física da natureza e da sociedade. Mediada por um judeu, Gad Lerner, o debate solene e respeitoso entre ambos (muito diferente de alguns envolvendo os ateus Cristopher Hitchens e Richard Dawkins), cai sobre nuanças da temática que são de fundamental importância na compreensão do pressuposto deusístico numa concepção holística, tratando o sistema teo-filosófico cristão de forma singular diante das outras religiões justamente porque o cristianismo é visto como peculiar. Isso devido sua base fundamental que se concreta junto com as principais vertentes filosóficas de toda história da humanidade, que em seus sistemas eram divergentes entre si, como o racionalismo e o empirismo, mas que conseguiam uma em similitude a outra, se harmonizarem com a doutrina cristã moral, e ainda, com ótica cristã concernente a realidade.

Cristianismo racionalmente verdadeiro e o braço secular do Estado.

A primeira questão chave do debate é levantada por Ratzinger ainda no seu prelúdio, quando afirma que o cristianismo não se baseia nas “imagens e idéias míticas, cuja justificação se encontra em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a analise racional da realidade pode perceber”. Ratzinger, assim como praticamente todos apologistas, filósofos e cientistas cristãos, afirma que o cristianismo se nutriu da fonte do conhecimento inerente ao ser humano, e não na poesia e na política, como o emaranhado sistema religioso grego-romano construía suas religiões com seus deuses humanamente apoteosados. Essa nutrição vai ser chamada por ele no debate de “triunfo do conhecimento sobre o mundo das religiões”, afirmando que o antagonismo existente entre religião e razão não se aplica ao cristianismo justamente porque o mesmo só tem sentido à luz da razão. No entanto, o caráter de religião revelada permanece intacto devido a herança judaica, sendo que o que é defendido pelos filósofos cristãos da patrística e pelos apologistas, é que essa doutrina revelada aos profetas judeus e trazida pelo Cristo, se harmoniza com as bases fundamentais do pensamento humano numa visão epistemológica.
Paolo Flores presumivelmente discorda e usa apenas dois argumentos contra a afirmação do cardeal, porém, somente uma delas é relevantemente argumentativa. O primeiro deles tratado nesse post é a seguinte contra-afirmação de Flores: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão, [...] então compreenderão que se a fé pretende ser isso é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor, inclusive mediante o braço secular do Estado”. Deixando para o próximo post o termo equivocado de Flores que diz, “se a fé pretende ser”, em lugar de, “se o cristianismo pretende ser” - até porque Flores é simplista porque na reprodução escrita do debate é explicito que ele se refere a essa fé como fé católica e não fé cristã como um todo – o temor de que o cristianismo possa ser imposto por esse braço secular do Estado pode parecer um questionamento pueril, mas tem uma audácia que esconde numa roupagem hipocritamente humilde a intenção chave do argumento. Caso a preocupação de Flores e de outros ateus fosse a da pratica da imposição de premissas cristãs à sociedade secular (termo criado inclusive por cristãos por reconhecer não a aceitação da moral, mas da fé cristã), seria fácil confrontá-lo com o fato de que as bases democráticas das sociedades ocidentais são enrijecidas e firmes. O próprio cristianismo foi quem trouxe tal democracia com Jesus Cristo, sendo reivindicada e afirmada socialmente na reforma protestante, tecendo o fio condutor das sociedades formadas além do atlântico e do ocidente em geral. O que Flores não considerou foi que, antes mesmo de a revolução francesa atacar o regime autoritário impositor da monarquia "impondo outro regime", o democrático, o cristianismo já militava nessa vertente igualitária da humanidade; a doutrina apostólica e os ensinamentos de Cristo gestaram numa sociedade pluralista, porém individualista, o conceito de unidade e irmandade levando em consideração e respeitando as diferenças e a qualidade unitária de cada ser humano, em que os fatores culturais e morais eram vistos como a expressão visível da qualidade de seres diferentes (folhas) provindos de um mesmo ramo na árvore da criação.
Diante do fato histórico, de uma forma geral sem se ater a determinadas alianças políticas entre igreja e estado durante a história da humanidade, é notório o caráter não impositor do cristianismo em sua própria teologia. Particularmente considero quase impossível a imposição de um regime mediante os ditames impositivos de antigos sistemas ideológicos que amarravam a sociedade a um dogma religioso ou a uma premissa filosofica social. O comunismo é um bom exemplo que sustenta meu argumento; não há mais espaço pra tanta barbárie cometida em nome de uma ideologia dogmática quando observamos a realidade mundial no que diz respeito à comunicação em massa e conhecimento da história dos regimes ditadoriais do passado - inclusive do mal provocado por modelos sociais que se sustentavam em pressupostos materialistas, dando ao homem o título de máquina desajeitada que carrega seus genes sem nenhum propósito e bem comum.
São esses males que estão escondidos na afirmação de Flores acerca do seu temor quanto à imposição da moral cristã mediante o braço secular do Estado. Considerar o sistema teológico cristão em harmonia e permuta com a premissa filosófica respeitosa da razão, seria desarmar e infundar discussões presentes no âmago da sociedade, como a questão do aborto, do homossexualismo, cultura de células embrionárias e eutanásia. Se a razão é amiga da teologia cristã, ela tem argumentos bem sólidos contra a secularização da moral e relativização da mesma em todas as discussões e intenções supracitadas.

As próximas postagens tratarão do "se a fé pretende ser" de Flores no que diz respeito ao erro dessa afirmação, que é o erro do seu outro argumento utilizado no debate, que era o de que os cristãos primitivos viam a fé como absurdo em discordância com relação à razão - esse é um argumento não tão relevante de Flores que poderia ser respondido utilizando somente os fatos da história da filosofia. Mas Ratzinger por imprudentemente utilizar a palavra "Iluminismo", leva o debate pra uma área que o deixa de saia justa devido os erros cometidos pela instituição católica durante a história.