Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores D’Arcais Tema: Deus existe? 2° Parte


Sem nenhuma delonga prévia –

O contra-argumento de Paolo Flores d’Arcais que diz: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão” vai se tornar o coração do debate e o momento mais importante no que diz respeito à temática abordada. A princípio, Flores insiste nas citações dos patrícios cristãos dos primeiros séculos que “supostamente” não enxergavam razão alguma na teo-filosofia cristã.

O “Credo quia absurdum” (no sentido de “crer por ser um absurdo”) de Tertuliano e a “loucura da cruz” do apóstolo Paulo, servem como combustível pra o argumento de Flores de que para as primeiras gerações de cristãos não era a razão que levava a crer, e sim a fé. E ainda, não simplesmente crer num Deus criador, mas crer no absurdo de um Cristo morto e ressuscitado em primogenitura.

A necessidade de se demonstrar que o “resumo e a culminância” da razão não estão presentes na teologia cristã é de fundamental importância pelo almejo ao mérito de desvencilhar qualquer relação histórica entre as ciências humanamente criadas com a doutrina da cristandade. Joseph Ratzinger por sua vez deixa a desejar e acaba despejando um hibrido de Pascal e Kierkegaard a respeito da insuficiência da nossa especulação filosófica quando consideramos a ação insólita do amor divino. Diante do frágil argumento de Ratzinger, Flores acabando sendo municionado a apontar uma “incerteza” estranha à fé de Pascal devido ao clássico argumento da aposta, e ainda, o que segundo meu ponto de vista é o mais absurdo, usar a distância histórica – 300 anos aproximadamente – de Santo Agostinho aos eventos neo-testamentários pra questionar a perfeita relação entre a doutrina cristã e o racionalismo platônico proposto pelo bispo de Hipona.

No que diz respeito à razão

Apesar da impossibilidade de cada debatente tratar minuciosamente cada ponto no debate ocorrido ao vivo, qualquer desapontamento é justo com o prefeito da Congregação de Doutrina da Fé, Ratzinger – que permitiu a ovação da platéia à Flores e deixou a hierarquia eclesiástica da instituição católica pesar mais do que a defesa da verdade. Entre os deslizes de Ratzinger, está falta de tratamento prévio para a “loucura” citada por Paulo, que é justificável quando o mesmo afirma que a “sabedoria desse mundo, dos poderosos desse mundo, se aniquilam”; no entanto, Ratzinger acerta quando demonstra que Paulo não atribuía irracionalismo à doutrina cristã justamente por que utilizou da filosofia grega nos poetas para pregar no areópago ateniense. A evidência maior para esse pensamento é o primeiro entre poucos vestígios da lei moral nas epístolas do apóstolo no trecho da Carta aos Romanos 2-15, mas também, que a exploração da verdade com “V”(V maiúsculo) só se dá seguramente mediante a ação do “Espírito de Deus que penetra todas as coisas, até as profundezas de Deus”, como consta na Epístola aos Coríntios 2-10.

Esse mesmo capítulo encerra com a expressão: “nós temos a mente de Cristo”. Não foi a doutrina cristã que se nutriu da fonte racional, mas o impulso racional humano que se nutre da fonte divina, a saber, o “Espírito que penetra todas as coisas”; sendo assim, não se pode esperar o contrário de Santo Agostinho quando encontra no racionalismo platônico um ajuste como chave e fechadura com o cristianismo da patrística, e ainda, o mesmo ajuste ocorre no antagônico ao racionalismo em Aristóteles – futuro empirismo inglês do período iluminista -, só que dessa vez com a proposta de Tomás de Aquino oito séculos após Agostinho. As duas propostas para uma segura forma de construção de conhecimento, que durante um longo período histórico se escarneciam num embate filosófico, se mostraram cristianizadas em paradoxo sem problema algum para o fundamento da fé cristã, que é a ressurreição de Jesus Cristo.

Flores não ouviu de Ratzinger que não é o absurdo da fé em si que se incompatibiliza com a razão, mas a ausência da “mente de Cristo” durante o exercício da razão, nisto consiste o absurdo proposto por Paulo e tomado como exercício nu e cru da fé invocada por Tertuliano. É possível reportar a filosofia agostiniano e aquiniana em favor da evidência dessa “mente”, conduzida no mesmo exercício de tantos durante a história humana.

No que diz respeito ao erro de Ratzinger: O iluminismo.

A princípio ficou parecendo que Ratzinger quis adornar seu discurso tornando-o mais atraente quando o relacionou à liberdade do intelecto humano durante o século das luzes. Flores foi voraz recorrendo às encíclicas papais de João Paulo II que registrava a causa das mazelas da pós modernidade gestadas no Iluminismo. Mal sabia Ratzinger que Flores tinha feito o dever de casa direitinho.

Ratzinger não está errado quando diz que “o cristianismo deveria voltar a pensar naquelas suas raízes”, e que por isso “não via nenhuma oposição absoluta entre o cristianismo e o iluminismo, porém, uma oposição entre traços do iluminismo moderno e a fé cristã”.

Flores além de jogar pesado chamando Ratzinger à responsabilidade bíblica que convoca ao “sim, sim ou não, não”, também o encurrala quando aponta as citações das encíclicas papais acerca do período iluminista, desarmando qualquer intenção de Ratzinger de continuar na defesa do seu argumento enfeitado devido o seu comprometimento em ser incondicionalmente submisso ao “santo padre”.

Para João Paulo II, nasce no iluminismo todo individualismo pós moderno que desumaniza o homem, extrai dele a alma que o torna um ser singular em meio à coletividade, e o joga às traças, no comunismo, no liberalismo imoral desenfreado e no hedonismo consumista que rege a sociedade atual. O santo padre é defendido por Ratzinger com o contexto histórico vivido pelo mesmo, atribuindo a João Paulo II o título de último apologista do socialismo ideal, justamente por ter vivido em meio à barbárie nazista da segunda grande guerra.

O fato é que Ratzinger também não é nenhum apedeuta, e se redime quando convoca a todos para uma profunda reflexão de valores em responsabilidade de cada um aos problemas atuais. Em seu discurso, bem conhecido no nosso país no meio político, consegue arrancar alguns aplausos, um elogio do mediador do debate, e ainda não cai no sacrilégio de discordar do santo Papa.

Mesmo com as lacunas deixadas por Ratzinger, Paolo Flores não fica na vantagem justamente por que seu argumento é fraco e imprudente, não se sustentando diante de uma análise mais minuciosa da história da igreja e dos sistemas filosóficos envolvidos. É possível presumir um Flores sem chance alguma diante de debatedores sagazes como Dinesh D’Souza e William Lane, mais experientes que Ratzinger no trato com ateus militantes.

Um ponto importante citado por Ratzinger quando invoca o argumento de Pascal é a relação entre a fé com a geometria e matemática no que diz respeito ao nascimento de todas elas com o puro exercício da razão. Mas... Isso fica para uma postagem bem futura.