Debate – Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Paolo Flores D’Arcais Tema: Deus existe? 2° Parte


Sem nenhuma delonga prévia –

O contra-argumento de Paolo Flores d’Arcais que diz: “se a fé pretende ser o resumo e a culminância da razão” vai se tornar o coração do debate e o momento mais importante no que diz respeito à temática abordada. A princípio, Flores insiste nas citações dos patrícios cristãos dos primeiros séculos que “supostamente” não enxergavam razão alguma na teo-filosofia cristã.

O “Credo quia absurdum” (no sentido de “crer por ser um absurdo”) de Tertuliano e a “loucura da cruz” do apóstolo Paulo, servem como combustível pra o argumento de Flores de que para as primeiras gerações de cristãos não era a razão que levava a crer, e sim a fé. E ainda, não simplesmente crer num Deus criador, mas crer no absurdo de um Cristo morto e ressuscitado em primogenitura.

A necessidade de se demonstrar que o “resumo e a culminância” da razão não estão presentes na teologia cristã é de fundamental importância pelo almejo ao mérito de desvencilhar qualquer relação histórica entre as ciências humanamente criadas com a doutrina da cristandade. Joseph Ratzinger por sua vez deixa a desejar e acaba despejando um hibrido de Pascal e Kierkegaard a respeito da insuficiência da nossa especulação filosófica quando consideramos a ação insólita do amor divino. Diante do frágil argumento de Ratzinger, Flores acabando sendo municionado a apontar uma “incerteza” estranha à fé de Pascal devido ao clássico argumento da aposta, e ainda, o que segundo meu ponto de vista é o mais absurdo, usar a distância histórica – 300 anos aproximadamente – de Santo Agostinho aos eventos neo-testamentários pra questionar a perfeita relação entre a doutrina cristã e o racionalismo platônico proposto pelo bispo de Hipona.

No que diz respeito à razão

Apesar da impossibilidade de cada debatente tratar minuciosamente cada ponto no debate ocorrido ao vivo, qualquer desapontamento é justo com o prefeito da Congregação de Doutrina da Fé, Ratzinger – que permitiu a ovação da platéia à Flores e deixou a hierarquia eclesiástica da instituição católica pesar mais do que a defesa da verdade. Entre os deslizes de Ratzinger, está falta de tratamento prévio para a “loucura” citada por Paulo, que é justificável quando o mesmo afirma que a “sabedoria desse mundo, dos poderosos desse mundo, se aniquilam”; no entanto, Ratzinger acerta quando demonstra que Paulo não atribuía irracionalismo à doutrina cristã justamente por que utilizou da filosofia grega nos poetas para pregar no areópago ateniense. A evidência maior para esse pensamento é o primeiro entre poucos vestígios da lei moral nas epístolas do apóstolo no trecho da Carta aos Romanos 2-15, mas também, que a exploração da verdade com “V”(V maiúsculo) só se dá seguramente mediante a ação do “Espírito de Deus que penetra todas as coisas, até as profundezas de Deus”, como consta na Epístola aos Coríntios 2-10.

Esse mesmo capítulo encerra com a expressão: “nós temos a mente de Cristo”. Não foi a doutrina cristã que se nutriu da fonte racional, mas o impulso racional humano que se nutre da fonte divina, a saber, o “Espírito que penetra todas as coisas”; sendo assim, não se pode esperar o contrário de Santo Agostinho quando encontra no racionalismo platônico um ajuste como chave e fechadura com o cristianismo da patrística, e ainda, o mesmo ajuste ocorre no antagônico ao racionalismo em Aristóteles – futuro empirismo inglês do período iluminista -, só que dessa vez com a proposta de Tomás de Aquino oito séculos após Agostinho. As duas propostas para uma segura forma de construção de conhecimento, que durante um longo período histórico se escarneciam num embate filosófico, se mostraram cristianizadas em paradoxo sem problema algum para o fundamento da fé cristã, que é a ressurreição de Jesus Cristo.

Flores não ouviu de Ratzinger que não é o absurdo da fé em si que se incompatibiliza com a razão, mas a ausência da “mente de Cristo” durante o exercício da razão, nisto consiste o absurdo proposto por Paulo e tomado como exercício nu e cru da fé invocada por Tertuliano. É possível reportar a filosofia agostiniano e aquiniana em favor da evidência dessa “mente”, conduzida no mesmo exercício de tantos durante a história humana.

No que diz respeito ao erro de Ratzinger: O iluminismo.

A princípio ficou parecendo que Ratzinger quis adornar seu discurso tornando-o mais atraente quando o relacionou à liberdade do intelecto humano durante o século das luzes. Flores foi voraz recorrendo às encíclicas papais de João Paulo II que registrava a causa das mazelas da pós modernidade gestadas no Iluminismo. Mal sabia Ratzinger que Flores tinha feito o dever de casa direitinho.

Ratzinger não está errado quando diz que “o cristianismo deveria voltar a pensar naquelas suas raízes”, e que por isso “não via nenhuma oposição absoluta entre o cristianismo e o iluminismo, porém, uma oposição entre traços do iluminismo moderno e a fé cristã”.

Flores além de jogar pesado chamando Ratzinger à responsabilidade bíblica que convoca ao “sim, sim ou não, não”, também o encurrala quando aponta as citações das encíclicas papais acerca do período iluminista, desarmando qualquer intenção de Ratzinger de continuar na defesa do seu argumento enfeitado devido o seu comprometimento em ser incondicionalmente submisso ao “santo padre”.

Para João Paulo II, nasce no iluminismo todo individualismo pós moderno que desumaniza o homem, extrai dele a alma que o torna um ser singular em meio à coletividade, e o joga às traças, no comunismo, no liberalismo imoral desenfreado e no hedonismo consumista que rege a sociedade atual. O santo padre é defendido por Ratzinger com o contexto histórico vivido pelo mesmo, atribuindo a João Paulo II o título de último apologista do socialismo ideal, justamente por ter vivido em meio à barbárie nazista da segunda grande guerra.

O fato é que Ratzinger também não é nenhum apedeuta, e se redime quando convoca a todos para uma profunda reflexão de valores em responsabilidade de cada um aos problemas atuais. Em seu discurso, bem conhecido no nosso país no meio político, consegue arrancar alguns aplausos, um elogio do mediador do debate, e ainda não cai no sacrilégio de discordar do santo Papa.

Mesmo com as lacunas deixadas por Ratzinger, Paolo Flores não fica na vantagem justamente por que seu argumento é fraco e imprudente, não se sustentando diante de uma análise mais minuciosa da história da igreja e dos sistemas filosóficos envolvidos. É possível presumir um Flores sem chance alguma diante de debatedores sagazes como Dinesh D’Souza e William Lane, mais experientes que Ratzinger no trato com ateus militantes.

Um ponto importante citado por Ratzinger quando invoca o argumento de Pascal é a relação entre a fé com a geometria e matemática no que diz respeito ao nascimento de todas elas com o puro exercício da razão. Mas... Isso fica para uma postagem bem futura.

25 comentários:

  1. Postagem perfeita! Tô acompanhando com muito interesse, o debate. Gosto muito de sua exposição. Deus continue te iluminando!

    E falando em Iluminar, o que você acha do que o João Paulo II falou sobre o pós-modernismo ter suas raízes no Iluminismo? Qualquer livro de história, até mesmo brasileiro, pode dizer que o Iluminismo deixou mais forte o antropocentrismo, o naturalismo, o pragmatismo, o humanismo e toda a bagagem moderna e não pós-moderna.

    Interessante também é que ele pareceu ter pensado que a indivualidade do pós-modernismo e não a busca utópica por democracia, do humanismo, gerou as ideologias de esquerda como o comunismo e o socialismo. O próprio nome comunismo sugere "comunidade" e não "indivíduo" e o socialismo "sociedade" e não "individualidade". Não sei, não. Mas até onde eu penso que posso pensar, talvez com pedantismo, ignorância e muita ingenuidade, nunca um pensamento individual poderia gerar ideolodias com pretensões sociais, que é o que o papinha lá levanta.

    O que você acha, DG?

  1. Wendy, sempre bom ter você aqui!!

    Concordo em partes com J.P II. No que diz respeito ao estado vigente de sociedade atual, de fato, o Iluminismo contribuiu muito para a construção dessa sociedade consumista e individualista. Claro que vários fatores contribuíram pra isso no que diz respeito à influência do avanço científica na vida do homem comum, um bom exemplo disso foi o impacto que a teoria evolucionista causou, e ainda causa, no rol's de conversas entre leigos - como eu disse, entre leigos, pois na comunidade científica a evolução não interfere em nada no posicionamento de fé e a proporção em relação à sociedade do senso comum, essa proporção dá vantagem aos cientistas crentes.
    No entanto, precisamos nos ater ao fato de que esse fortalecimento antropocêntrico teve efeito contrário; o homem se "automaquinizou" e de independência pensante e auto-suficiência racional, passou à dependência programada das condições de contorno do meio que pré-determina o resultado do processo de transformação da realidade. E esse processo se dá tanto fisiologicamente como intelectualmente. Estou afirmando que, aos poucos, a humanidade caiu no determinismo pueril de que nem assobiar uma canção qualquer pode ser feita por livre e espontânea vontade - como Chest. dizia a respeito do absurdo de golpear o capim com a bengala sem nenhum sentido.
    Acho que essa mazela - apresentada aqui de uma forma tão simplista - se não teve origem (não sou especialista pra afirmar isso) teve seu tanque abastecido com combustível de sobre pra chegar à pós-modernidade e provocar essa relativização de valores que frequentemente presenciamos um palmo do nosso nariz.
    Mas como eu disse que concordo em partes com Paulo II, a parte que eu discordo é a que afirma que o Iluminismo é a causa cabal de tudo isso. Prefiro acreditar na bíblia, que diz que a causa não foi, não é, e nem será de um movimento social ou de uma descoberta científica, mas a causa é inerente à condição humana - como você mesmo diz, "somos deuses falidos e a essência de Deus precede a nossa". Nós somos a causa de qualquer mazela, e não a ideologia ou conceito abstrato concernente a um período histórico.

  1. Quanto ao movimento de esquerda levemente citado por você, não devemos confudir a associação dos termos e o propósito miraculoso que tal posicionamento politico-social propoe com a realidade das coisas.
    Comunismo e Socialismo sugerem outra coisa, muito mais apresentada nas suas respectivas origens e que hoje engana a "meninada" que entra na universidade, e que logo logo chupa pirulito vermelho em homenagem a MArx. Ahhh, mas quando a namorada escarra no pricípio moral e cai em infidelidade, ou por sua vez a esposa convida o marido conservador a fazer um "swing"... Ae o sujeito reclama por não sabe de onde isso vem. heheh.

  1. Thanks a lot, DG.

    Tudo bem que, status quo, a sociedade seja individualista. Mas o que eu não acredito é que o Iluminismo tenha encorajado algo como uma característica pós-modernista, visto que com o estopim do Iluminismo inicia-se a época moderna. Entende? É como dizer que a letra A precede a C e não a B. A minha pergunta foi: você acha que o Iluminismo de séculos passados, geraria algo que a humanidade vem experimentando do limiar do século XX? Não estou tocando na questão moral ou com o fato de o relativismo ser bom ou mal, mas sim com a gafe do Papa. Pois, segundo você, ele disse que o Iluminismo (séculos atrás) gerou uma coisa do século XX. Hahaha! Acho que você não me entendeu.

  1. Caro wendy, perdoe meu raciocínio ser meio lento... De fato devo não ter te entendido e admiro sua paciência comigo rsrs.

    Vou ler de novo pra tentar entender rsrs.

  1. Hahahahaha! Não é difícil ter paciência com você. Difícil era ter paciência com o Rodrigo.

  1. Este comentário foi removido pelo autor.
  1. caro amigo Diego, eu fiz questão de imprimir o teu texto, no qual fala sobre uma discursão do Cardeal Ratzinger com o então ateu Paolo Flores, vi que foi um debate muito bom, e com ceteza que há grandes polêmicas, sendo assim, eu não quero fazer nenhuma mensão a estas polêmicas(espero que possamos ter uma oportunidade para falar sobre isso).
    Quando falo sobre polêmicas, seria referente a filosofia e telogia ou razão e fé. Acredito que por mais que seja algo polêmico, mas talvez já se tenha resolvido,quando falo polêmica porque quero remeter sobre a filosofia da linguagem, logo, porque esta ganhou o teu espaço na filosofia contemporânea com Martin Heidegger etc. Sendo assim, seria uma polêmica devido a linguagem que podemos ressaltar em contextualização com tais termos já citados que seria "polêmica".
    Contudo quero destacar pelo fato da vossa pessoa escrever ou fazer um comentário sobre grandes fenômenos pensante, mas não quero aqui deixar brecha alguma sobre o que você escreve ou comenta, apenos quero fazer uma ponderação sobre o que você do período do iluminismo e seus filósofos e também gostaria que você deixasse claro pra mim, sobre o que ver relevante ao iluminismo se de fato houve uma construção do sujeito pensante ou uma desconstrução e porque o motivo que o Iluminismo parece ofuscar a imagem de Deus?
    enfim, quanto a questão da existência de Deus, é plausivel pensar sim, mas saiba que de se de fato existir o homem é porque existe algo que é maior que ele, ou seja, Deus. Falar sobre a não-existência de Deus é com certeza negar o homem. Ou, poderia pensar, se o homem nega Deus é porque ele quer se auto-afirmar, será que é necessário o homem se auto-afirmar diante daquilo que se concebe que já existiria antes dele?
    diria que aqui deixo brecha sim, para um raciocínio, quer seja crítico construtivo, quer seja destrutivo.
    Mas, gostei de ter lido sim, apenas o que me deixa um pouco imcomodado é quando você faz afirmações de tais termos, e parece que você se perde em algumas afirmações destes, mas o modo de escrever é legal, apenas são algumas afirmações que merece um pouco mais de tempo para se afirmar. E quero dizer que filosfia e teologia requer reflexão, ou seja, tempo.
    valeu...

  1. Olá reverendo Clenilson, bonita foto.
    Já que você gosta de "discutir". Vamos lá !!

    Esse debate foi reproduzido num livro que tem por título: Deus existe? Caso queira se aprofundar mais, o preço está bom no site da submarino.
    Confesso que a primeira parte da sua postagem não entendi "bulhufas", o motivo, não compete a mim expor aqui.
    Mas em algum momento, em meio a um tubilhão de palavras, você questionau algo relacionado ao Iluminismo.
    Aproveitando esse "gancho", porq vc não discute um pouco o posicionamento retraído de Ratzinger depois da tentativa frustrada de enfeitar seu discurso relacionando o arcabouço da fé cristã com a acessão da razão durante o século das luzes. Fica explícito que Ratzinger foi pego de surpresa quando Paolo jogou na mesa as enciclicas papais em que Paulo II condena justamente o que ele defendia com base no que eu expus no texto.
    Na verdade, a pergunta tem que ser feita por mim. Qual a relação do cristianismo com o Iluminismo? E porq Ratzinger visivelmente ficou desconcertado preferindo se omitir e não defender seu pensamento a ter que se indispor com o "Santo Padre" e contrariar uma norma estritamente "institucional" mais parecida com um dogma hierárquico - o que de fato é.

    Meu posicionamento quanto a essa relação já está explicito e implícito no texto.

  1. Este comentário foi removido pelo autor.
  1. meu caro Diego, se você não se encomodar podemos falar deste assunto num outro espaço, tudo bem..

  1. Ok clenilson.
    Seu pedido não me pegou de surpresa, apesar de eu não achar necessário.

    Enquanto isso... Que tal alguns questionamentos mais relevantes?

    Exemplo, a relação, cristinanismo e iluminismo segundo sua ótica.

  1. Cleinilson,

    Eu não sei se tenho liberdade pra questionar-lo, pois não te conheço e esse blog não é meu, então, se não quiser ler as palavras direcionadas a você, pode ignorá-las. Mas eu sempre gosto de comentar e replicar no blog do DG, ele sempre me deixa expor minhas bobagens e pensamentos chulos. Mas vamos lá...

    1) De que modo a existência do homem sugere a existência de Deus? Eu sou cristão e por isso concordo com essa sua afirmação. Mas como você acha que um ateu receberia essa informação? Como um ateu saberia se antes dele já existia Deus?

    Note que eu não questiono você como se eu estivesse me opondo a você, pois sou cristão, note isso, por favor. No entanto, como você acha que esse argumento duraria num debate com um ateu sério?

    No mais, concordo contigo quando diz que a Teologia, bem como a Filosofia, merecem um pouco mais de rigor crítico e a validade de nossas opiniões é diretamente proporcional à nosso estudo sobre elas.

  1. questioná-lo*

  1. DG,

    só pra me corrigir. Eu errei feio ao dizer que "sociedade" não sugere a individualidade. O Dietrich Schwanitz me deu um cascudo em seu livro Cultura Geral. Mesmo assim, ainda acho que o papa se enganou ao dizer que o Iluminismo enfatizou a individualidade pós-moderna e não a individualidade moderna, porterior à ele.

  1. Wendy...
    Bons questionamentos vc fez ao Clenilson. Afinal de contas, no trato com o incrédulo, a eloquência nas palavras é coadjuvante. E esse é um ponto crucial na exposição de um dos pilares do cristianismo, quero dizer, a pré-antecedência existencial de Deus que possui facetas inatas à qualidade divina, como: atemporalidade, pré-ciência e entre outras naturais e morais.

    Quanto à influência iluminista na pós-modernidade, não vejo porq não atribuir eventos pós modernos ao século das luzes só porq a modernidade veio depois. Será que, pra sentirmos a brisa do vento dentro de nossa casa, essa brisa não tem que passar por uma janela antes? Será que não estamos sendo cartesianos demais na linha da história? Concorda que ainda hoje a filosofia grega socrática e pré socrática influência não só na arte mas na política e em outros setores atuais?
    Muitos autores são comuns entre si quando atribuem certos valores pós-modernos ao iluminismo, em algum momento eu os cito aqui.
    Mas acho que esse é um assunto muito longo que poderíamos aproveitar melhor em um momento que eu tiver mais tempo.

    Abração

  1. Você não poderia estar mais correto! Mas deixe-me meditar um pouco. Eu acho que eu vou conseguir te dizer o que me ocorreu em outra ocasião. Farei isso porque nem em tudo eu errei.

    Sabemos que o pós-modernismo tenta desconstruir certos aspectos modernos. E se tenta fazer isso, é porque a modernidade bagunçou alguma coisa. Se a humanidade pós-moderna não atura certas instituições modernas, é só pelo fato de que ela considera a modernidade ruim, não é? Isso seria lógico! Não posso rasgar uma camiseta se eu a considero bonita, isso eu não posso. A pós-modernidade tenta colocar (e tem conseguido em muito) as coisas nos seus devidos lugares, ao passo que a modernidade tenta escrutinar tudo de forma indevida. Por exemplo, a modernidade quis aplicar o método científico para estudar a idéia de Deus. Sim! Pois foi na modernidade que nasceu a sede por provas da existência dEle. Na Pós-modernidade, o cara tem que admitir que não se pode dissecar Deus como se disseca um rato ou uma rã. Exemplos como este, nos mostram que a verdade para a modernidade e para a pós-modernidade são coisas bem diferentes.

    Usei este exemplo para chegar no relativismo. O que é o relativismo senão a desconstrução da autoridade da verdade? Mas isso daí é na modernidade. Na pós-modernidade temos algo mais assombroso, embora menos irritante: o questionamento em cima do próprio conceito de verdade, que é a influência do existencialismo do Kierkegaard. Se o relativismo moderno e o pós-moderno tivessem a mesma essência, por que os teóricos contemporâneos ocupariam a cabeça com "relativismo moderno" e "relativismo pós-moderno"? Bastava usarmos o termo "relativismo".

  1. Por isso, embora sejam parecidos, não podem ser tratados como sendo a mesma coisa.

    Mas se quisermos considerá-los a mesma coisa e o chamássemos apenas de relativismo, poderemos dizer que ele nasce com a desconstrução da verdade católica (universal) por parte de "hereges", cresce na Renascença e Reforma (com toda aquela quebra de valores atuais e tentativa de implantar coisas remotas; cultura grega e cultura cristá primitiva) e entra na fase adulta no Iluminismo. Hoje em dia ele está velho e pós-moderno e sabe o que se deve relativizar e o que se deve absolutizar.

    Houve influências relativistas modernas sobre o relativismo pós-moderno? Sem dúvida! Kierkegaard que o diria, se estivesse vivo. No entanto, como foram criados em épocas e circunstâncias diferentes, só podemos dizer que eles possuem espíritos parecidos, como o vento passando nas janelas, mas devemos sempre lembrar de que as janelas não estão no mesmo lugar e que o ar sofreria alterações dependendo do espaço por onde passara.

  1. Tudo bem, então. QUando você tiver tempo agente questiona mais estas coisas. É sempre ótimos comentar contigo.

    Perdoa a multidão de palavras, é que eu quis verbalizar pensamentos ainda densos para minha mente infantil.

  1. Wendy, vou aproveitar eu seu tempo ocioso em relação a mim, e vou pedir que vc explane melhor as questões que vou citar abaixo, isso porq a partir daqui acredito que vamos desenvolver uma boa conversa.

    Qual a diferente do conceito de verdade na modernidade e na pós-modernidade?

    Em que sentido o existencialismo influencio o questionamento em cima do conceito de verdade?

    Como a pós-modernidade sabe o que relativizar e o que absolutizar?

    Na ultima questão, fica parecendo que estamos diante de uma entidade denominada tal, e não de um sistema dinâmico social que nem mesmo a antropologia aliada à uma genética avançada consegue definir.
    No meu entendimento, vejo a pós-modernidade muito mais maléfica aos princípios cristãos do que a modernidade; isso levando em consideração a lógica que aponta pra um piorar das coisas à medida que o tempo passa. No seu discurso parece que você prefere a modernidade em vez da pós.
    Claro que vc deixou isso bem claro no aspecto da aplicação do método científico limitado onde ele não tem capacidade de se “intrometer”. Hoje é fato que o método científico não explica nem a sí próprio, no entanto, vai dizer isso aos positivistas da modernidade, rsrs. Nesse ponto vc esta certo em preferir a pós.
    Mas quanto aos valores morais, muitos que antes eram tidos como inatos à natureza humana cujo a origem estavam longe de descobrir. Convenhamos com o fato de que, deixaram de procurar a origem e passaram a negar o produto pronto.
    Talvez se enquadraria naquilo que Chesterton diz sobre o prazer que o homem sente em esfolar um gato, que antes era a prova diante do próprio nariz da condição humana caída, passou a ser a negação da existência do gato, e não da natureza maléfica. Rsrsrs
    Mas continue, está bom “ouvir” vc.

  1. Você pode notar que gosto de ser propositalmente redundante quando começo me referir ao que quero. hahahaha
    Deixar o clima descontraído.

  1. DG, você está evoluindo muito. Isto é que é postura de questionador. Continue assim. Vou tentar responder, sim, as questões que você levantou do meu discurso. Vejamos:

    1)Qual a diferente do conceito de verdade na modernidade e na pós-modernidade?

    2)Em que sentido o existencialismo influenciou o questionamento em cima do conceito de verdade?

    3)Como a pós-modernidade sabe o que relativizar e o que absolutizar?

    1) Bom, diante desses dois padrões culturais e filosóficos, eu me sinto tão ingênuo, que não me sinto capaz de expor uma resposta ultra-sensata. Mas a Modernidade tratava a verdade como algo verossimilhantemente absoluto. Neste absolutismo há espaço para vários totalitarismos, como é o caso da ciência com o cientificismo. Na Pós-modernidade a verdade não é só questionada, mas o próprio conceito de verdade. Na Pós-modernidade (embora você tenha acertado que ela ainda é super indefinida para ser exposta) vê-se que não há liberdade para esses totalitarismos, o que é muito bom, não para o Cristianismo, mas para Jesus. Ele não disse "O Cristianismo é a Verdade", que é uma frase objetiva num fenômeno humano, mas que "EU sou a Verdade", que é uma frase Subjetiva numa Pessoa existencial.

    2)E é daí que nasce todo o Existencialismo Cristão, por assim dizer. Pois o Existencialismo é ou não é a responsabilidade do homem por si mesmo e a consciência de que você pode fazer sua própria história, sem ligar para a outra pessoa ser ou não cristã como você é? Você prega o Evangelho sem querer que essa pessoa creia em você, mas creia na Verdade. E não na verdade como um conceito ou um objeto, mas na verdade como uma PESSOA: Jesus. E como diz Kierkegaard, num dos textos que apresentei no meu blog, você percebe que é só na Subjetividade que você VIVE a essência do Evangelho. É um sujeito (você) se relacionando com outro Sujeito (Deus) e não como na moderna Teologia Sistemática: você (um sujeito) se relacionando com um objeto (Deus). Sim! Pois para a Modernidade Deus é um objeto e Nietzsche está totalmente correto em afirmar Sua morte. É por isso que eu acho que o Pós-modernismo, embora ainda indefinível completamente, tem muito mais do Existencialismo dentro de si, do que qualquer outra ideologia. É só na Subjetividade que as pessoas podem crer em Jesus por livre e expontânea vontade e é a falta do Subjetividade que está afastando milhares e milhares do Cristianismo e levando-os ao Islam.

  1. 3) Como você disse (e eu concordo) que a Pós-modernidade é muito líquida, por assim dizer, precisamos ter um conceito de Pós-modernidade primeiro, antes de discutí-la. A Pós-modernidade é, nada mais e nada menos, que a desconstrução de valores, instituições e aspectos culturais modernos. O prefixo "pós" é o que me faz nomeá-la assim e não "hipermodernidade" ou "modernidade líquida" como alguns outros teóricos do pós-modernismo cogitam.

    Concluindo, você tem toda razão em dizer que a pós-modernidade é maléfica para o Cristianismo, pois uma doutrina só é firme quando seus fiéis depositam toda a sua confiança nEle. Mas como Cristo não é uma doutrina, então o Cristianismo tem mesmo é que se diluir. Não de uma vez por todas, isso demorará séculos.

    Eu prefiro a pós-modernidade. Quando eu digo que o método científico não pode "cheretar" as verdades subjetivas de Deus, eu estou é gostando que a humanidade esteja tendo essa percepção, pois só assim se desconstruirá essa supremacia científica da verdade e se poderá cair nos braços do Onipotente sem precisar estudá-lo teologicamente.

    HAHA! O positivismo será desconstruído também. Haha! Deixa os positivistas continuarem louvando o Deus deles.

    Já sobre os valores morais, que você citou, eu concordo contigo. Será terrível se não formos com calma. A Pós-modernidade deve ir com calma e deve realizar seu trabalho em não menos que três séculos e eu já acho um tempo pequeno. Mas como dizer que as coisas levam menos tempo pra destruir do que pra construir, sei que em três séculos, será o suficiente pra destruirmos o que foi levantado em vinte séculos. hahaa!

    Mas os valores morais não vão se perder, DG. Com o passar dos séculos os poderes Judiciário e Legislativo, pegaram vários valores e conselhos cristãos e transformaram em leis. Ou seja, mesmo que a religião seja afetada, o Estado continuará punindo aqueles que tentarem escravizar o próximo ou praticar a poligamia. A menos que deixemos o Comunismo reinar, abrindo as portas para pessoas como Dilma. hahahaha! A pós-modernidade não nega o produto, mas duvida de seu conceito e procura sua origem.

    De fato, Chesterton se irritava com o relativismo MOderno. O Catolicismo é massa por não deixar o pecado se tornar um segredo.

    Deixo uma pergunta para que possamos continuar:

    Você sabe qual é a diferença entre Subjetivismo (ou subjetividade) e Relativismo?

  1. Opa, DG, desculpe ter errado a resposta do seu terceiro questionamento. Eu me prendi àquela outra parte do seu comentário. haha! Agora eu vou responder direito.

    Ainda a 3)Como a pós-modernidade sabe o que relativizar e o que absolutizar?

    Eu creio que a separação de Deus do Cristianismo, gerará uma diferença de "ministérios". Ao invés de perdermos tempo aplicando os métodos modernos em coisas desnecessárias, vamos aplicá-lo somente ao necessário e iremos evoluir mais rápido, ao passo que aplicaremos os novos métodos em coisas mais específicas. Saber o que relativizar e o que absolutizar é um sonho pós-moderno. Ninguém vai andar dizendo que é doutor em Deus e que pode converter alguém. Ele pregará o Evangelho sem pretender impor goela abaixo. Mas eu ainda preciso ler e me informar mais sobre o pós-modernismo.

  1. Acredito que o contexto de sua explanação sobre o que somos vem de uma natureza de um aprendizado de varias gerações sendo paterna ou materna.
    Ao estudar a linhagem de antepassados pela genealogia familiar.
    Pude visualizar algumas tradições que meus antepassados, em suas condutas, cotidiano, trabalho, fé e conceito politico.
    Somos preso ao passado por nossas tradições isto quase se torna, não perspetiva, em nosso comportamento.
    O ser humano quando trata certas coisas em caráter não assimila profundidade de uma definição concreta do sentido da vida.
    Muito fácil tomar uma decisão no impulso da moda por que é condicionado a fazê-lo.
    Grande parte das pessoas tomam decisões condicionadas pela presença de uma certa pessoa que se coloca como líder ( pai, professor, artista, politico etc..)
    Quando assumimos o papel de oposição a tal conceito sendo qual for.
    Passamos a entrar em processo de questionamento das tradições e assim adquirimos uma mudança na rotina da mesmice.
    O ciclo da vida tem uma ordem em acerto e erro, bem ou mal, beneficio ou maleficio.
    Quando um ser consegue ter uma harmonia com + acertos neste ciclo ele poderá desfrutar de uma consciência mais tranquila em resolver certas questões.
    A vida entra numa esta guinação, monotonamente quando brigamos entre o certo e o errado de um conceito.
    Em caráter politicologia, alguns sintomas como desmotivação, ociosidade, morosidade que estacionamos no tempo não progredimos, não adquirimos o melhor, neste ciclo de vida.