Uma Proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 2º Parte

Considerando a temática devidamente prefaciada, a segunda parte dessa sessão de posts tratará diretamente de questões práticas relacionadas à atividade científica atual, justamente com o que deveriam ser suas considerações epistemológicas. Ou, das relações da ciência com a falta de epistemologia inerente ao que deveria ser a prática, no mínimo racional, desenvolvida pela capacidade humana de perscrutar os fenômenos. Pessoalmente, acredito que durante toda a história científica a construção do conhecimento esteve cercada por dogmas das mais variadas vertentes, e ao contrário do que foi proclamado pela classe científica (em tons de acusação), a dogmatização mais nociva no campo científico teórico-empírico não é a religiosa, mas o próprio dogma científico – cientificismo.
No post anterior a intenção determinística laplaciana para o universo exemplifica a junção entre a bajulação (provindo do interesse político ainda existente hoje) e o desejo pessoal, sendo o segundo, enquadrado na tentativa de marcar a história com uma suposta ideia “revolucionária”, fugindo dos padrões trilhados pela ciência da época. É óbvio que fugir dos padrões científicos do seu tempo é concebível, no entanto, deve ocorrer como uma consequência para o que as evidências direcionam, sempre considerando a qualidade epistemológica do campo que se está trabalhando. No caso da matemática, o caráter metafísico, separado da experiência fenomenológica que ela mesma descreve, se justifica apenas em si mesmo com as relações lógicas, sem precisar de uma problemática empírica a fim de impulsionar o desenvolvimento pelos moldes metafísicos.
O fato é que, o local de gestação das relações lógicas matemáticas, deveria servir de incômodo pra parte da classe científica atual (e porque não dizer da ciência histórica?), mas é justamente o meio pelo qual se justificam e se orgulham por obtê-la – a razão. No entanto, para que nenhuma injustiça seja cometida antes de afirmar algo, é preciso se ater ao fato de que a posição ideológica, quanto modelo considerado e atribuído aos fenômenos da natureza, é completamente pertinente na atividade do cientista: ele aceita uma cosmovisão pré-estabelecida pré estabelecida em sí por um mecanismo que ele desconhece, seja ela naturalista, materialista, panteística, animista e etc...; acreditando ser tal cosmovisão o produto da sua atividade investigativa, ou melhor, o lugar onde pra ele convergiu apontado pelas evidências empíricas. E é justamente neste ponto que inicia a pratica da “militância falaciosa”. O que “proteladamente” estou querendo dizer é que, o campo da razão humana, responsável pela gestação e desenvolvimento da lógica matemática, de fato, é o mesmo que ao longo dos séculos propôs, especulou e ampliou a atividade supranatural do homem racional com a divindade. Ou seja, o útero estruturado pela razão humana que pariu a matemática, da mesma forma, lançou ao mundo a teologia. E sem sombra de dúvida, nessa “família” a teologia é o irmão mais velho que durante séculos (considerando o exemplo histórico) serviu muito bem à humanidade de mãos dadas com a “irmã mais nova”.
A suposta e restrita incompatibilidade entre a teologia e a matemática, mais tem sido o resultado da escolha de uma cosmovisão pessoal do que do próprio exercício da razão, isso devido à intrínseca insuficiência correspondente à atividade investigativa. E a base que se opoe a essa visão é justamente a auto suficiência racional da lógica matemática, de tomar para si apenas a conceptualização dos sinais da linguagem para se auto descrever, não dependendo de uma problemática externa à mente humana, concebida mediante os sentidos, como a química, a física e a biologia.



“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma.
Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”
Nietzsche



Desconsiderando a vida prática de Nieztsche que foi antagônica a esse pensamento, a prática científica investigativa deve ser um enlace entre o exercício da dúvida e a honestidade de assumir, ou a incompletude do modelo proposto, ou o caráter inerente de lei limite da proposta. O fato é que nem todo campo de pesquisa aplica em si a sustentabilidade epistemológica, cuidando em fazer uma ciência em prol unicamente do desenvolvimento imparcial do conhecimento. Os preconceitos individuais do cientista são inseparáveis da prática exploratória, no entanto, existem preconceitos irrelevantes, e outros, completamente nocivos. O materialismo é um deles porque é dogmático, engessado, pragmático, insustentável, e o pior, é completamente insuficiente diante da complexidade não só da natureza investigada, como também, diante da obscura relação entre observador e objeto.

O problema do dogma evolucionista frente à quebra de paradigma

Nesta parte do post, penso ser relevante primeiramente apontar o dogma em questão:

"Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução" - Theodosius Dobzhansky (1900-1975)

Atualmente a teoria evolucionista tem sido adotada e ensinada nas universidades com a mesma qualidade inerrante das escrituras sagradas cristãs. Talvez a primeira tentativa de justificar o dogma theodosiano tenha sido com o desenvolvimento do neodarwinismo causado pelo avanço do conhecimento no campo da química aplicada à genética dos seres vivos. Mesmo desconhecendo a existência do DNA (isso pra não dizer do átomo) e desconsiderando princípios fundamentais de termodinâmica, Darwin propôs um modelo de mutação fisiológica e hereditária para os seres vivos se baseando simplesmente em observações oculares, desprovido de qualquer experimentação reprodutiva daquilo que estava propondo. O fato é que, num período pós iluminista, marcado pela ascensão de uma pueril ciência experimental, uma cosmovisão alternativa que viesse a desvencilhar a sociedade da manipulação clerical que ainda subjugava a economia e a política às suas imposições seria, muito bem vinda.
Antes, é preciso considerar que, em termos de proposta científica diante das especulações acerca do desenvolvimento dos seres vivos na terra, a teoria evolucionista é satisfatória mediante suas limitações e lacunas - que diga-se de passagem, a faz semelhante a um queijo suíço; mas que funciona limitadamente (como as leis de Newton) diante da problemática apresentada pela biologia e pela classificação das espécies em termos taxonômicos. O pensamento de Theodosius é cabal e impositivo, e “estupra” a filosofia da ciência que ao longo de mais de dois mil anos vem tateando a natureza da interface entre objeto e observador, e que ainda se mostra não solucionável. É fato que a polêmica do século XIX ecoa ainda hoje no que diz respeito ao caráter teórico da evolução, no entanto, a polêmica, a rejeição e a aceitação da teoria evolucionista são alimentadas pela falta de conhecimento da mesma, e ainda, da falta de conhecimento das intenções darwinianas. Os naturalistas e materialistas eram alimentados pelo instinto positivista da revolução, ainda embebedados pelas novas vias de lucro monetário e intelectual produzidos pela revolução francesa; no entanto, eram suprimidos pela hegemonia religiosa da época, necessitando de uma suposta “arma” argumentativa vestida de uma pseudo comprovação empírica (observação ocular apenas) – Darwin serviu como uma luva de seda no casco de um jumento.
O resultado do desejo de segregar a ciência natural dos domínios religiosos (numa concepção ampla de religião) é o atraso do desenvolvimento científico. A sensatez de invocar as bases epistemológicas e comprovar a ruptura de paradigma kuhniana, ou, em outro sistema, a legitimidade de uma teoria científica por meio do exercício da sua falseabilidade (Popper), não pode se aplicar a teoria evolucionista que mesmo recebendo o título de “teoria” é colocada no pedestal dogmático do cientificismo como intocável. Fato que está levando o embate a rotular os mais moderados de evolucionistas, e ainda, de darwinistas aqueles que fazem suas preces na sacristia simiesca. Mesmo impondo a atividade de questionar a veracidade da teoria evolutiva ao religioso “fundamentalista”, não era esperado que até o religioso tirasse sua capa “dogmática” e exercitasse a sensatez de considerar a evolução em seu caráter genuíno de teoria – sendo Francis Collins e Alister McGrath belos exemplos de autoridade nesse campo.
Atualmente, em termos de mudança, é mais fácil ter o próprio pessimismo municionado com a realidade pós moderna que faz ciência com uma máquina pragmática de molde materialista. Mas há motivos para acreditar que haverá sempre uma minoria em prol da ciência genuína, alheia à especulação condicionada aos interesses econômicos e relativísticos em suprimir a qualidade do exercício da razão por meio do viés teológico – subjugando-o ao escárnio inconsciente da classe leiga que alimenta os cofres bancários dos neoateus ativistas. Recentemente, a bióloga evolucionista Lynn Margulis em entrevista a revista Discover fez a seguinte declaração:

“[…] Este é o problema que eu tenho com os neodarwinistas: eles ensinam que a geração de novidade é o acúmulo de mutações aleatórias no DNA, numa direção estabelecida pela seleção natural […] A seleção natural elimina, e talvez mantenha, mas ela não cria. […] Eu fui ensinada muitas vezes que o acúmulo de mutações aleatórias resultava em mudança evolucionária – resultava em novas espécies. Eu acreditei nisso, até que procurei pela evidência. […] Não existe gradualismo no registro fóssil […] O ‘equilíbrio pontuado’ foi inventado para descrever a descontinuidade”.

Ainda é possível se deparar com a sensatez em meio à ciência dos cifrões, mesmo diante do fato de que os meios acadêmicos são verdadeiros templos de pragmatismo científico e treinamento cientificista. Isso quando a má formação dos professores não induz a práticas completamente desonestas e anti-acadêmicas, como a indução à leitura de Richard Dawkins como material complementar acadêmico em grupos de formação em ciência biológicas e áreas afins.
O “problema epistemológico” da ciência é uma realidade historicamente presente na investigação, inclusive no simples ato de pensar. No entanto, a “crise epistemológica” foge do padrão problemático científico de não ser capaz de auto justificar-se devido à própria natureza, esta que é inseparável da qualidade humana. A crise reporta a valores pessoais, a interesses que sintetizam o incômodo causado por ideias absolutistas no campo da moral e da ética que por sua vez caem no questionamento de suas respectivas aplicações; não por causa de suas naturezas ontológicas, mas devido ao que elas impõem... Pois, querendo ou não, a ciência natural é falha em descrever tanto o erro de jogar uma bitola de cigarro na rua quanto o erro de violar o equilíbrio da vida humana. Ou seja, o método científico traz não só a incompletude de sua aplicação aos fenômenos naturais, como a incapacidade de justificar a si própria, e ainda, traz sua inviabilidade em descrever a vida humana numa concepção holística.
Pessoalmente, acredito que o método científico nunca será capaz de sustentar algum desses campos. Mas nos serve bem, e isso é o que deve importar.

Para as mães que são Mães

Em uma homenagem às mães que são Mães, segue um pequeno poema de Drummond. O mesmo que eu recitei à minha mãe numa oportunidade a alguns atrás.


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Uma proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 1º Parte

Em geral os estudiosos da arte de escrever aconselham impor o título do tratado somente ao findar de sua construção. Confesso que antes de escrever o presente texto pensei primeiro no que seria o título, que se originou da tentativa de convergir numa só frase o estado vigente em que se encontra a realidade científica da pós modernidade. A “ciência” hoje se encontra numa crise epistemológica, onde a atividade repetitiva e técnica dos que utilizam seus recursos se confundem, quando não os iludi, com a natureza questionadora e instigante da ciência genuína.


(Caracterizar a ciência “genuína” requer trilhar um caminho laborioso que não julgo ser capaz de transcorrer aqui num simples post; isso porque inúmeros tratados foram propostos ao longo da história nesta tentativa, e ainda hoje, muitos deles são questionados em função das diferentes cosmovisões existentes).


O último filósofo pré socrático chamado Platão, fundamentou seu sistema filosófico baseando-se na existência das qualidades inatas do ser humano tomando a projeção imperfeita de um estado transcendental de perfeição que ele chamou de “mundo das ideias”. Deixando de lado uma argumentação epistemológica mais pomposa, até porque a intenção do post é demonstrar a crise epistêmica da ciência atual por meio de exemplos práticos, podemos considerar alguns atos científicos não como projeções imperfeitas de uma ciência genuína, mas como projeções dogmáticas e completamente fora da linha de base onde se permite colapsar as convicções dos cientistas. Uma filosofia científica com bases sólidas, que envolva o espectador, além da realidade especulativa em questão, teve como incitação a atividade de vários filósofos que trataram a ciência de forma qualitativa, desde Kant, Kuhn, Popper e Husserl (só citando alguns) a conclusão comum foi de que a realidade tangível não é tão tangível assim, e o que propomos na verdade se limita à qualidade de modelo interpretativo, e não de modelo descritivamente cabal do objeto especulado. Ou seja, uma ciência genuína seria naturalmente uma projeção imperfeita da qualidade de “conhecer” da ciência do mundo das idéias de Platão. A chamada “coisa em si” kantiana e a “epoche” husserleriana, adverte o ato de especulação da realidade num sentido de que a mesma é intangível, e que a fenomenologia está preocupada mais com os objetos da consciência, admitindo que estar consciente do evento não é “tocar” o evento em termos de “coisa em si”.
A expressão visível da crise epistêmica - o que poderíamos chamar de mazela fenotípica, em contraste com os impasses epistemológicos presente no cerne da filosofia da ciência – vem ecoando ao longo dos séculos na medida em que a construção do conhecimento progride e é acumulado. Talvez não seja viável incluir aqui questões relacionadas a concepções holísticas do universo, como a tentativa de conceber um universo determinístico como bem defendia Laplace simplesmente por perceber na matemática uma lógica intrínseca num sentido racional e metafísico da sua natureza ontológica. No entanto, sem ir muito longe, este poderia ser o primeiro exemplo de um despontar dessa crise epistemológica antes mesmo da pós modernidade, ou melhor, gestada nos aposentos do “século das luzes”, onde se vê os desejos pessoais bem a frente das necessidades da investigação em si. A questão não era se o universo é determinista ou não, mas sim, que Laplace queria que assim o fosse a fim de justificar não só seus discursos materialistas como também facilitar a aceitação de seu tratado por parte de Napoleão Bonaparte, e de quebra, obter um “carimbo” de Lagrange, outro matemático mais próximo da confiança do imperador. Laplace e Lagrange estava coerentes com a filosofia "modinha" da época, que era ostentar na ciência um viés materialista sem garantia de eficiência – como hoje está demonstrado que não houve vantagem nenhuma em optar por tal estratégia.
No espaço temporal que compreende o período moderno até a atual pós modernidade, se encontra o que eu chamo da maior tentativa de enquadrar a natureza investigada à vontade humana, a Teoria da Unificação. A unificação das forças presentes no universo e que justificam diversos fenômenos de interação e de expressão, em termos de processos de transformação e automação, é um desejo que vem se perpetuando nos meios científicos, mais restritamente no campo da física teórica. O êxito de tal aspiração resultaria na possibilidade de descrever o estado físico do universo em diferentes pontos do tempo ascendente – o que de certa forma corroboraria com a imprudência laplaciana se não fosse à incipiência da teoria quântica, em temperar o microcosmos com um sistema de probabilidades para um dado evento em vez de um princípio clássico de causa e feito. Não vou divagar no fato de Einstein ter tentado propor uma unificação sem conhecer duas forças hoje tão prosaicas (forças fraca e forte), mas na insistência ainda hoje dos físicos de tentar unificar um sistema de equações sem ao menos ter certeza da sua veracidade. Fica explícito que a questão é de tendenciosidade (preconceito ou vontade própria numa linguagem sociológica) e não de evidência demonstrada no tatear da natureza. Em seu Best Seller Uma Breve História do Tempo, Sthephen Hawking levanta um questionamento sobre a unificação no ponto problemático da natureza restrita do parâmetro gravitacional. Onde a incompatibilidade do fenômeno da gravidade presente nos corpos com os parâmetros qualitativos dos sistemas mecânico quânticos reporta à aceitação tanto da teoria da relatividade como teoria correta, como também da mecânica quântica como teoria correta. É completamente irrisório considerar a veracidade de ambas as teorias sem considerar seus estados de leis limites, ou seja, atribuir o status de “lei irrevogável” seria cair no mesmo erro de Lord Kelvin em lançar sob ombros flácidos da mecânica clássica newtoniana e das equações de Máxwell para o eletromagnetismo a responsabilidade de descrever a realidade tangível.
No problema da unificação da física a questão epistemológica se torna mais problemática quando questionamos a existência dessa suposta unificação como “suposta de fato”. É a simples pergunta, “e se não houver unificação”? Não quero unicamente recorrer à hipótese (pessoal) de que a intenção da unificação está restritamente em determinar o estado do universo no tempo zero (t=0 do big bang, antes de tudo) nem no tempo infinito (quando o universo estiver morto), mas levanto a possibilidade completamente pertinente de que a unificação reporta ao desejo de que o universo tenha uma causa física inata em sí mesmo, antagônicamente ao que hoje é sabido, de que não há nenhuma causa física para a expansão ou até mesmo para a existência de vida na terra – Martin Rees que o diga na sua obra chamada Seis Números, levantando o chamado Princípio Antrópico.
O segundo post tratará da continuação e provavelmente da conclusão da temática iniciada; pelo menos por enquanto. É preciso se ater à complexidade do campo argumentado, que levanta tanto questões históricas como também outras de caráter filosófico da ciência. Outro ponto que influência e corrobora com toda questão levantada é quanto à natureza sociológica da ciência ao longo dos séculos, que é crucial durante a construção de modelos que descrevem a realidade, e que muitas vezes (na verdade, por um ponto de vista pessoal, todas às vezes) levam a conclusões que podem não descrever a realidade de forma coerente, ou até mesmo, a posições equivocadas quanto ao poder restrito à ciência como determinadora do curso da vida humana em termos de certezas e verdades.

Texto Alheio

Nunca ocorreu neste blog o ato de publicar textos alheios, pelo contrário, escrevo sobre textos alheios quando não sobre meu próprio texto (em geral sendo superficial). No entanto, recentemente Olavo de Carvalho publicou na sua Sepientiam Auten non Vincit Malitia um belo texto elucidativamente sarcástico tratando de um dos casos mais “estranhamente” explicados do conflito fé e razão – o chamado “caso Galileu”.
O fato é que indiretamente o texto do Olavo recai sobre a recente tragédia carioca, nas entrelinhas do discurso se encontra o escudo contra qualquer má interpretação dos eventos que motivaram o criminoso a cometer tal ato. Reconheço que estou sendo subjetivo, mas prefiro assim, afinal de contas, “quem lê entenda”.
A partir de agora é com o Olavo.


Um mártir da ciência

A narrativa praticamente inteira da origem das ciências modernas, tal como aparece na mídia popular, em livros escolares, em filmes, em peças de teatro e até numa boa quantidade de obras escritas por acadêmicos, é uma farsa publicitária de dimensões colossais, que a pesquisa histórica das últimas décadas vem desmascarando impiedosamente.
As biografias convencionais de Giordano Bruno, Galileu, Newton, Copérnico, Descartes e outros pais da modernidade falsificam não somente as suas doutrinas, para torná-las mais palatáveis ao gosto do público, mas os fatos materiais de suas vidas, para embelezar esses personagens à custa da difamação de seus contemporâneos.
Se você pretende que seus filhos venham a ter uma educação de verdade, comece por não permitir que eles sejam alimentados, por um sistema educacional criminoso, com balelas idiotas que deformarão para sempre sua visão do passado histórico e farão deles bois-de-presépio, prontos a dizer “amém” aos professores analfabetos que não vêem neles almas imortais a ser protegidas, mas militantes e eleitores em potencial, para a glória dos picaretas que nos governam.
Entre muitas outras, a lenda mais deformante é talvez a de Galileu Galilei como “mártir da ciência”, fundador da ciência experimental e homem corajoso que enfrentou a Inquisição em nome do direito de investigar a verdade.
Para começar, qualquer pesquisador sério da história das ciências sabe que Galileu nunca raciocinou a partir de dados experimentais, mas de construções matemáticas hipotéticas que depois ele legitimava com pseudo-experimentos puramente imaginários, jamais levados à prática, e usados sempre como meios de persuasão retórica, nunca de verificação. Os poucos experimentos efetivos que ele realizou foram todos errados. No que Galileu estava mesmo interessado eram antigas doutrinas ocultistas e esotéricas, das quais obteve a inspiração para suas teorias e dinheiro para sustentar uma vida senhorial como autor de horóscopos para celebridades.
Em segundo lugar, ele jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como “a melhor de Roma” e sua filha Maria Celeste como “um lugar tão delicioso”.
O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).
A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.
Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.
Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.
Comparem esse e outros episódios do mesmo teor com os de centenas de milhões de inocentes torturados e assassinados em nome da ciência por iluministas, evolucionistas, marxistas ou nazistas, e verão que a famosa “opressão religiosa” da qual a modernidade teria nos libertado era um reino de tolerância e benevolência que a brutalidade da vida moderna soterrou num passado cada vez mais distante, cada vez mais inimaginável.

Olavo de Carvalho, publicado em 13 de abril de 2011 no diário do comércio.

O que na verdade somos

Um Poema...
O essencial é saber ver [...]
Mas isso [...]
Isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender [...]
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
e raspar a tinta com que pintaram os sentidos. - Alberto Caeiro

Um comentário...
Nós. Casas. Vão-nos pintando pela vida afora até que memória não mais existe do nosso corpo original. O rosto? Perdido. Máscara de palavras. Quem somos? Não sabemos. Para saber é preciso esquecer, desaprender. - Rubem Alves

Um pensamento...

Ninguém melhor nos engana do que nós mesmos. A justificativa para isso? Não nos conhecemos. E isso tem uma lógica interessante, onde geralmente as pessoas que nos enganam são as que acabamos de conhecer; ou seja, as pessoas que não conhecemos direito, ou, aquelas que conhecemos a muito tempo mas encontramos “uma vez na vida e outra vez na morte”.
Um silogismo: "somos tendenciosamente enganados por quem não conhecemos, e nós não nos conhecemos, logo, somos facilmente enganados por nós mesmos”. No poema, somos paredes de uma casa pintada. A cor original? Raspe, e muito, porque só quem é ajudante de pintor é quem sabe o quanto é chato, ruim, complicado, cansativo e perigoso para a saúde raspar a tinta das paredes de uma casa. Raspar tinta é desaprender, e isso é muito perigoso. Tirar máscaras é desaprender, e isso também é perigoso, pois o risco de cair e se afogar em um poço de ceticismo é bem considerável.
É fácil comparar e comprovar toda essa conversa na origem das coisas, para o nosso caso, na origem das palavras. A palavra persona vem do latim, quer dizer “máscara”, e é o que no mundo das artes cênicas chamam de personagem. Personagens estão por toda parte, nas novelas, seriados, quadrinhos, livros... dentro de nós. Até por que, do latim, a palavra persona, derivou o que chamamos de personalidade, ou seja, o que nós possuímos, cada um individualmente, sendo a causa que “supostamente” define a pessoa que somos. O mais cômico é que, exaltados e vaidosos dizemos, “eu tenho personalidade... tá? ou então elogiamos, “meu amigo é um cara de personalidade”.
A realidade é que, aquilo que nós tão altivamente nos orgulhamos como sendo nossa personalidade, nada mais é do que uma máscara, uma pintura que ao longo dos anos em nossa existência foi sendo desenhada aleatoriamente sem controle; e de forma inconsciente foi moldada ao que somos nesse exato momento. O produto que somos, é o multifacetado efeito dos eventos ocorridos em nossas vidas, dos livros que lemos, das pessoas que conhecemos, das vitórias, das derrotas, dos perigos, das tristezas, dos amores, da bonança, da falta, do lugar que vivemos e dos lugares que passamos, e o pior, das nossas escolhas.
Escolhas... será que elas são reflexos daquilo que somos ou é justamente a evidência do efeito como resultado daquilo que nos tornamos por termos nos esquecidos quem de fato éramos?
Para a primeira ou segunda hipótese, o Apóstolo Paulo diria a mesma coisa, “mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento, e que me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros”. Grande verdade, a lei do pecado é a lei da escolha, onde temos o entendimento (algumas vezes não temos) das coisas, que nem ao menos sabemos a o que tal entendimento está condicionado, ou foi condicionado. Mas mesmo assim as escolhas são e serão os fenótipos dos personagens (personalidade) em nós contidos.
O diagnóstico para a personalidade, ou seja, a maneira de tirar as máscaras, lixar a tinta da parede e com isso ver o que realmente somos, e quem somos, é desaprender. Caeiro descobriu o que a muito tempo foi dito, e numerosas vezes repetido ao longo da história pelos mais sábios homens (não é a toa que Schopenhauer dizia: “os sábios sempre disseram as mesmas coisas”). A mesma coisa estava escrito no tempo de Apolo da antiga Grécia, “conhecer a ti mesmo”, e quando Sócrates foi consultar o oráculo do Delfos nesse templo, pôde ler tal escritura, então...tudo estava claro. A sacerdotisa Pítia perguntou: Sócrates, o que sabes tu? A resposta de Sócrates? Só sei que nada sei. O decreto? Sócrates, o mais sábio da Grécia. Segundo o relato de Platão, Sócrates, o divisor de águas da filosofia Grega, descobriu uma verdade eterna, que milênios depois em forma de poema, por Alberto Caeiro, se fez beleza para se “ver com os olhos”.

Desaprender... é mesmo uma verdade eterna?

É sim, e quem disse foi Jesus, que baixou um decreto, “deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus”. Ser criança é estar “desaprendido” das coisas, afinal de contas, as crianças aprendem, e a conseqüência é crescerem e serem acometidas da "adultice aguda”. O que Sócrates fez foi voltar a ser criança, desaprendendo, e assim, enxergou a si próprio, conheceu a si mesmo.

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande” - Adélia Prado
Mais uma que entendeu tudo certinho

Criança é alegria, é a expressão mais casta da vida, a fase da existência que o tempo não existe. Faça o teste, pergunte a uma criança: “o que é o tempo”? Ela provavelmente responderá inocentemente: “são os números do relógio dãaaaaa...” ou, “é o barulhinho dos ponteiros que fazem assim, tic, tac, tic, tac, tic, tac”.
O tempo existe para os adultos, estes o percebem quando tem consciência da estranha força que os arrasta da permanência, que promove o esvair da frágil existência que quer ficar, que quer permanecer, que não quer passar. Ele inevitavelmente engole as crianças para si quando apresenta e impõe a elas um universo cartesiano, dividido e apresentado na forma de conceitos, idéias e teorias. E aquele mundo mágico infantil, a terra do nunca, onde o tempo nunca passa e todos são eternamente crianças se transforma em uma mórbida terra mecanicista, regida por insípidas leis de causalidades macroscópicas e probabilidades quânticas, e que se esfacela em pequenos pacotes de energia que hora é onda, hora é partícula, simplesmente por que vive na indecisão de quanto ao que quer ser, justamente por não saber quem ela mesma é. Não sabe escolher como disse o Apóstolo.
Conhecer a si mesmo, é voltar a ser criança, e para voltar a ser criança é necessário desaprender tudo o que foi ensinado pelo mundo dos quanta, só assim se entra no reino de Deus. À medida que a persona vai sendo retirada, o “desaprendimento” vai confirmando a teologia cristã, e o que realmente somos vai ficando mais evidente, a criança vai renascendo, jeito que Jesus ensinou a Nicodemos, aí... é como cantar a canção, “quanto mais agente chega perto de Deus, agente se conhece mais”.

Tomara que a retórica da canção seja verdadeira

"Esse texto foi escrito a mais ou menos dois anos, e a possibilidade de alguns pontos não estarem de acordo com o pensamento atual do autor é considerável."