Uma proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 1º Parte

Em geral os estudiosos da arte de escrever aconselham impor o título do tratado somente ao findar de sua construção. Confesso que antes de escrever o presente texto pensei primeiro no que seria o título, que se originou da tentativa de convergir numa só frase o estado vigente em que se encontra a realidade científica da pós modernidade. A “ciência” hoje se encontra numa crise epistemológica, onde a atividade repetitiva e técnica dos que utilizam seus recursos se confundem, quando não os iludi, com a natureza questionadora e instigante da ciência genuína.


(Caracterizar a ciência “genuína” requer trilhar um caminho laborioso que não julgo ser capaz de transcorrer aqui num simples post; isso porque inúmeros tratados foram propostos ao longo da história nesta tentativa, e ainda hoje, muitos deles são questionados em função das diferentes cosmovisões existentes).


O último filósofo pré socrático chamado Platão, fundamentou seu sistema filosófico baseando-se na existência das qualidades inatas do ser humano tomando a projeção imperfeita de um estado transcendental de perfeição que ele chamou de “mundo das ideias”. Deixando de lado uma argumentação epistemológica mais pomposa, até porque a intenção do post é demonstrar a crise epistêmica da ciência atual por meio de exemplos práticos, podemos considerar alguns atos científicos não como projeções imperfeitas de uma ciência genuína, mas como projeções dogmáticas e completamente fora da linha de base onde se permite colapsar as convicções dos cientistas. Uma filosofia científica com bases sólidas, que envolva o espectador, além da realidade especulativa em questão, teve como incitação a atividade de vários filósofos que trataram a ciência de forma qualitativa, desde Kant, Kuhn, Popper e Husserl (só citando alguns) a conclusão comum foi de que a realidade tangível não é tão tangível assim, e o que propomos na verdade se limita à qualidade de modelo interpretativo, e não de modelo descritivamente cabal do objeto especulado. Ou seja, uma ciência genuína seria naturalmente uma projeção imperfeita da qualidade de “conhecer” da ciência do mundo das idéias de Platão. A chamada “coisa em si” kantiana e a “epoche” husserleriana, adverte o ato de especulação da realidade num sentido de que a mesma é intangível, e que a fenomenologia está preocupada mais com os objetos da consciência, admitindo que estar consciente do evento não é “tocar” o evento em termos de “coisa em si”.
A expressão visível da crise epistêmica - o que poderíamos chamar de mazela fenotípica, em contraste com os impasses epistemológicos presente no cerne da filosofia da ciência – vem ecoando ao longo dos séculos na medida em que a construção do conhecimento progride e é acumulado. Talvez não seja viável incluir aqui questões relacionadas a concepções holísticas do universo, como a tentativa de conceber um universo determinístico como bem defendia Laplace simplesmente por perceber na matemática uma lógica intrínseca num sentido racional e metafísico da sua natureza ontológica. No entanto, sem ir muito longe, este poderia ser o primeiro exemplo de um despontar dessa crise epistemológica antes mesmo da pós modernidade, ou melhor, gestada nos aposentos do “século das luzes”, onde se vê os desejos pessoais bem a frente das necessidades da investigação em si. A questão não era se o universo é determinista ou não, mas sim, que Laplace queria que assim o fosse a fim de justificar não só seus discursos materialistas como também facilitar a aceitação de seu tratado por parte de Napoleão Bonaparte, e de quebra, obter um “carimbo” de Lagrange, outro matemático mais próximo da confiança do imperador. Laplace e Lagrange estava coerentes com a filosofia "modinha" da época, que era ostentar na ciência um viés materialista sem garantia de eficiência – como hoje está demonstrado que não houve vantagem nenhuma em optar por tal estratégia.
No espaço temporal que compreende o período moderno até a atual pós modernidade, se encontra o que eu chamo da maior tentativa de enquadrar a natureza investigada à vontade humana, a Teoria da Unificação. A unificação das forças presentes no universo e que justificam diversos fenômenos de interação e de expressão, em termos de processos de transformação e automação, é um desejo que vem se perpetuando nos meios científicos, mais restritamente no campo da física teórica. O êxito de tal aspiração resultaria na possibilidade de descrever o estado físico do universo em diferentes pontos do tempo ascendente – o que de certa forma corroboraria com a imprudência laplaciana se não fosse à incipiência da teoria quântica, em temperar o microcosmos com um sistema de probabilidades para um dado evento em vez de um princípio clássico de causa e feito. Não vou divagar no fato de Einstein ter tentado propor uma unificação sem conhecer duas forças hoje tão prosaicas (forças fraca e forte), mas na insistência ainda hoje dos físicos de tentar unificar um sistema de equações sem ao menos ter certeza da sua veracidade. Fica explícito que a questão é de tendenciosidade (preconceito ou vontade própria numa linguagem sociológica) e não de evidência demonstrada no tatear da natureza. Em seu Best Seller Uma Breve História do Tempo, Sthephen Hawking levanta um questionamento sobre a unificação no ponto problemático da natureza restrita do parâmetro gravitacional. Onde a incompatibilidade do fenômeno da gravidade presente nos corpos com os parâmetros qualitativos dos sistemas mecânico quânticos reporta à aceitação tanto da teoria da relatividade como teoria correta, como também da mecânica quântica como teoria correta. É completamente irrisório considerar a veracidade de ambas as teorias sem considerar seus estados de leis limites, ou seja, atribuir o status de “lei irrevogável” seria cair no mesmo erro de Lord Kelvin em lançar sob ombros flácidos da mecânica clássica newtoniana e das equações de Máxwell para o eletromagnetismo a responsabilidade de descrever a realidade tangível.
No problema da unificação da física a questão epistemológica se torna mais problemática quando questionamos a existência dessa suposta unificação como “suposta de fato”. É a simples pergunta, “e se não houver unificação”? Não quero unicamente recorrer à hipótese (pessoal) de que a intenção da unificação está restritamente em determinar o estado do universo no tempo zero (t=0 do big bang, antes de tudo) nem no tempo infinito (quando o universo estiver morto), mas levanto a possibilidade completamente pertinente de que a unificação reporta ao desejo de que o universo tenha uma causa física inata em sí mesmo, antagônicamente ao que hoje é sabido, de que não há nenhuma causa física para a expansão ou até mesmo para a existência de vida na terra – Martin Rees que o diga na sua obra chamada Seis Números, levantando o chamado Princípio Antrópico.
O segundo post tratará da continuação e provavelmente da conclusão da temática iniciada; pelo menos por enquanto. É preciso se ater à complexidade do campo argumentado, que levanta tanto questões históricas como também outras de caráter filosófico da ciência. Outro ponto que influência e corrobora com toda questão levantada é quanto à natureza sociológica da ciência ao longo dos séculos, que é crucial durante a construção de modelos que descrevem a realidade, e que muitas vezes (na verdade, por um ponto de vista pessoal, todas às vezes) levam a conclusões que podem não descrever a realidade de forma coerente, ou até mesmo, a posições equivocadas quanto ao poder restrito à ciência como determinadora do curso da vida humana em termos de certezas e verdades.

Texto Alheio

Nunca ocorreu neste blog o ato de publicar textos alheios, pelo contrário, escrevo sobre textos alheios quando não sobre meu próprio texto (em geral sendo superficial). No entanto, recentemente Olavo de Carvalho publicou na sua Sepientiam Auten non Vincit Malitia um belo texto elucidativamente sarcástico tratando de um dos casos mais “estranhamente” explicados do conflito fé e razão – o chamado “caso Galileu”.
O fato é que indiretamente o texto do Olavo recai sobre a recente tragédia carioca, nas entrelinhas do discurso se encontra o escudo contra qualquer má interpretação dos eventos que motivaram o criminoso a cometer tal ato. Reconheço que estou sendo subjetivo, mas prefiro assim, afinal de contas, “quem lê entenda”.
A partir de agora é com o Olavo.


Um mártir da ciência

A narrativa praticamente inteira da origem das ciências modernas, tal como aparece na mídia popular, em livros escolares, em filmes, em peças de teatro e até numa boa quantidade de obras escritas por acadêmicos, é uma farsa publicitária de dimensões colossais, que a pesquisa histórica das últimas décadas vem desmascarando impiedosamente.
As biografias convencionais de Giordano Bruno, Galileu, Newton, Copérnico, Descartes e outros pais da modernidade falsificam não somente as suas doutrinas, para torná-las mais palatáveis ao gosto do público, mas os fatos materiais de suas vidas, para embelezar esses personagens à custa da difamação de seus contemporâneos.
Se você pretende que seus filhos venham a ter uma educação de verdade, comece por não permitir que eles sejam alimentados, por um sistema educacional criminoso, com balelas idiotas que deformarão para sempre sua visão do passado histórico e farão deles bois-de-presépio, prontos a dizer “amém” aos professores analfabetos que não vêem neles almas imortais a ser protegidas, mas militantes e eleitores em potencial, para a glória dos picaretas que nos governam.
Entre muitas outras, a lenda mais deformante é talvez a de Galileu Galilei como “mártir da ciência”, fundador da ciência experimental e homem corajoso que enfrentou a Inquisição em nome do direito de investigar a verdade.
Para começar, qualquer pesquisador sério da história das ciências sabe que Galileu nunca raciocinou a partir de dados experimentais, mas de construções matemáticas hipotéticas que depois ele legitimava com pseudo-experimentos puramente imaginários, jamais levados à prática, e usados sempre como meios de persuasão retórica, nunca de verificação. Os poucos experimentos efetivos que ele realizou foram todos errados. No que Galileu estava mesmo interessado eram antigas doutrinas ocultistas e esotéricas, das quais obteve a inspiração para suas teorias e dinheiro para sustentar uma vida senhorial como autor de horóscopos para celebridades.
Em segundo lugar, ele jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como “a melhor de Roma” e sua filha Maria Celeste como “um lugar tão delicioso”.
O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).
A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.
Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.
Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.
Comparem esse e outros episódios do mesmo teor com os de centenas de milhões de inocentes torturados e assassinados em nome da ciência por iluministas, evolucionistas, marxistas ou nazistas, e verão que a famosa “opressão religiosa” da qual a modernidade teria nos libertado era um reino de tolerância e benevolência que a brutalidade da vida moderna soterrou num passado cada vez mais distante, cada vez mais inimaginável.

Olavo de Carvalho, publicado em 13 de abril de 2011 no diário do comércio.