Texto Alheio

Nunca ocorreu neste blog o ato de publicar textos alheios, pelo contrário, escrevo sobre textos alheios quando não sobre meu próprio texto (em geral sendo superficial). No entanto, recentemente Olavo de Carvalho publicou na sua Sepientiam Auten non Vincit Malitia um belo texto elucidativamente sarcástico tratando de um dos casos mais “estranhamente” explicados do conflito fé e razão – o chamado “caso Galileu”.
O fato é que indiretamente o texto do Olavo recai sobre a recente tragédia carioca, nas entrelinhas do discurso se encontra o escudo contra qualquer má interpretação dos eventos que motivaram o criminoso a cometer tal ato. Reconheço que estou sendo subjetivo, mas prefiro assim, afinal de contas, “quem lê entenda”.
A partir de agora é com o Olavo.


Um mártir da ciência

A narrativa praticamente inteira da origem das ciências modernas, tal como aparece na mídia popular, em livros escolares, em filmes, em peças de teatro e até numa boa quantidade de obras escritas por acadêmicos, é uma farsa publicitária de dimensões colossais, que a pesquisa histórica das últimas décadas vem desmascarando impiedosamente.
As biografias convencionais de Giordano Bruno, Galileu, Newton, Copérnico, Descartes e outros pais da modernidade falsificam não somente as suas doutrinas, para torná-las mais palatáveis ao gosto do público, mas os fatos materiais de suas vidas, para embelezar esses personagens à custa da difamação de seus contemporâneos.
Se você pretende que seus filhos venham a ter uma educação de verdade, comece por não permitir que eles sejam alimentados, por um sistema educacional criminoso, com balelas idiotas que deformarão para sempre sua visão do passado histórico e farão deles bois-de-presépio, prontos a dizer “amém” aos professores analfabetos que não vêem neles almas imortais a ser protegidas, mas militantes e eleitores em potencial, para a glória dos picaretas que nos governam.
Entre muitas outras, a lenda mais deformante é talvez a de Galileu Galilei como “mártir da ciência”, fundador da ciência experimental e homem corajoso que enfrentou a Inquisição em nome do direito de investigar a verdade.
Para começar, qualquer pesquisador sério da história das ciências sabe que Galileu nunca raciocinou a partir de dados experimentais, mas de construções matemáticas hipotéticas que depois ele legitimava com pseudo-experimentos puramente imaginários, jamais levados à prática, e usados sempre como meios de persuasão retórica, nunca de verificação. Os poucos experimentos efetivos que ele realizou foram todos errados. No que Galileu estava mesmo interessado eram antigas doutrinas ocultistas e esotéricas, das quais obteve a inspiração para suas teorias e dinheiro para sustentar uma vida senhorial como autor de horóscopos para celebridades.
Em segundo lugar, ele jamais sofreu pressão ou intimidação de qualquer natureza. Sob recomendação pessoal do Papa Urbano VIII, aliás seu padrinho, ele foi tratado com o maior respeito e deferência pelos inquisidores. Ao longo de todo o processo, teve completa liberdade de movimentos e ficou hospedado na embaixada da Toscana, que seu amigo Benedetto Castelli descreveu como “a melhor de Roma” e sua filha Maria Celeste como “um lugar tão delicioso”.
O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).
A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.
Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.
Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.
Comparem esse e outros episódios do mesmo teor com os de centenas de milhões de inocentes torturados e assassinados em nome da ciência por iluministas, evolucionistas, marxistas ou nazistas, e verão que a famosa “opressão religiosa” da qual a modernidade teria nos libertado era um reino de tolerância e benevolência que a brutalidade da vida moderna soterrou num passado cada vez mais distante, cada vez mais inimaginável.

Olavo de Carvalho, publicado em 13 de abril de 2011 no diário do comércio.

2 comentários:

  1. É interessante como os homens se vêem separadamente num contexto mundial de crenças. Não sei se me expressei bem, mas o que quero dizer: o cientista fala de crenças como se ele mesmo não fosse resultado delas ou motivado pelas mesmas, mesmo que de outra natureza. Muitos, nesse episódido da escola no RJ, revestidos de toda "razão e pensamento evoluido", abrem a boca para dizer que a Religião foi a causa...Não deixa de ser, mas não na intenção com que a idéia foi expressada. A verdadeira Religião, segundo a Bíblia, se baseia no amor e na ajuda, mas a Religião cega expressada pela maioria não passa de disparate. Uma subversão!

    Ainda há aqueles que não tem o mínimo interesse de buscar a verdade das coisas. Enfim, acomodam-se na CRENÇA de que não precisam saber o por quê de estarmos aqui e o que nos poderá ocorrer. São, no limite, viventes do Carpe Diem. Quando acontecem episódios desse tipo é comum aparecerem nas discussões esses tipos de pessoas, que não sabem reconhecer a verdadeira religião e também não dão a mínima se ela é ou não necessária. Estão lá [na discussão] apenas para confundir ainda mais os incautos.

    RESUMINDO

    Todos nós somos movidos por crenças. Nenhum de nós sabe ao certo o por quê de estarmos aqui ou pra onde vamos, de modo natural, senão pela fé.

    A ciência morrerá, mas não chegará nem perto da resposta certa... Além do mais, que ser vivente da Terra poderia dizer a ela que alcançou seu objetivo?

  1. Weris, corroboro com tudo que você disse.
    É exatamente isso que o fundamentalismo científico não enxerga.
    Abração amigo !