Uma Proposta de Crise Epistemológica na Ciência - 2º Parte

Considerando a temática devidamente prefaciada, a segunda parte dessa sessão de posts tratará diretamente de questões práticas relacionadas à atividade científica atual, justamente com o que deveriam ser suas considerações epistemológicas. Ou, das relações da ciência com a falta de epistemologia inerente ao que deveria ser a prática, no mínimo racional, desenvolvida pela capacidade humana de perscrutar os fenômenos. Pessoalmente, acredito que durante toda a história científica a construção do conhecimento esteve cercada por dogmas das mais variadas vertentes, e ao contrário do que foi proclamado pela classe científica (em tons de acusação), a dogmatização mais nociva no campo científico teórico-empírico não é a religiosa, mas o próprio dogma científico – cientificismo.
No post anterior a intenção determinística laplaciana para o universo exemplifica a junção entre a bajulação (provindo do interesse político ainda existente hoje) e o desejo pessoal, sendo o segundo, enquadrado na tentativa de marcar a história com uma suposta ideia “revolucionária”, fugindo dos padrões trilhados pela ciência da época. É óbvio que fugir dos padrões científicos do seu tempo é concebível, no entanto, deve ocorrer como uma consequência para o que as evidências direcionam, sempre considerando a qualidade epistemológica do campo que se está trabalhando. No caso da matemática, o caráter metafísico, separado da experiência fenomenológica que ela mesma descreve, se justifica apenas em si mesmo com as relações lógicas, sem precisar de uma problemática empírica a fim de impulsionar o desenvolvimento pelos moldes metafísicos.
O fato é que, o local de gestação das relações lógicas matemáticas, deveria servir de incômodo pra parte da classe científica atual (e porque não dizer da ciência histórica?), mas é justamente o meio pelo qual se justificam e se orgulham por obtê-la – a razão. No entanto, para que nenhuma injustiça seja cometida antes de afirmar algo, é preciso se ater ao fato de que a posição ideológica, quanto modelo considerado e atribuído aos fenômenos da natureza, é completamente pertinente na atividade do cientista: ele aceita uma cosmovisão pré-estabelecida pré estabelecida em sí por um mecanismo que ele desconhece, seja ela naturalista, materialista, panteística, animista e etc...; acreditando ser tal cosmovisão o produto da sua atividade investigativa, ou melhor, o lugar onde pra ele convergiu apontado pelas evidências empíricas. E é justamente neste ponto que inicia a pratica da “militância falaciosa”. O que “proteladamente” estou querendo dizer é que, o campo da razão humana, responsável pela gestação e desenvolvimento da lógica matemática, de fato, é o mesmo que ao longo dos séculos propôs, especulou e ampliou a atividade supranatural do homem racional com a divindade. Ou seja, o útero estruturado pela razão humana que pariu a matemática, da mesma forma, lançou ao mundo a teologia. E sem sombra de dúvida, nessa “família” a teologia é o irmão mais velho que durante séculos (considerando o exemplo histórico) serviu muito bem à humanidade de mãos dadas com a “irmã mais nova”.
A suposta e restrita incompatibilidade entre a teologia e a matemática, mais tem sido o resultado da escolha de uma cosmovisão pessoal do que do próprio exercício da razão, isso devido à intrínseca insuficiência correspondente à atividade investigativa. E a base que se opoe a essa visão é justamente a auto suficiência racional da lógica matemática, de tomar para si apenas a conceptualização dos sinais da linguagem para se auto descrever, não dependendo de uma problemática externa à mente humana, concebida mediante os sentidos, como a química, a física e a biologia.



“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma.
Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”
Nietzsche



Desconsiderando a vida prática de Nieztsche que foi antagônica a esse pensamento, a prática científica investigativa deve ser um enlace entre o exercício da dúvida e a honestidade de assumir, ou a incompletude do modelo proposto, ou o caráter inerente de lei limite da proposta. O fato é que nem todo campo de pesquisa aplica em si a sustentabilidade epistemológica, cuidando em fazer uma ciência em prol unicamente do desenvolvimento imparcial do conhecimento. Os preconceitos individuais do cientista são inseparáveis da prática exploratória, no entanto, existem preconceitos irrelevantes, e outros, completamente nocivos. O materialismo é um deles porque é dogmático, engessado, pragmático, insustentável, e o pior, é completamente insuficiente diante da complexidade não só da natureza investigada, como também, diante da obscura relação entre observador e objeto.

O problema do dogma evolucionista frente à quebra de paradigma

Nesta parte do post, penso ser relevante primeiramente apontar o dogma em questão:

"Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução" - Theodosius Dobzhansky (1900-1975)

Atualmente a teoria evolucionista tem sido adotada e ensinada nas universidades com a mesma qualidade inerrante das escrituras sagradas cristãs. Talvez a primeira tentativa de justificar o dogma theodosiano tenha sido com o desenvolvimento do neodarwinismo causado pelo avanço do conhecimento no campo da química aplicada à genética dos seres vivos. Mesmo desconhecendo a existência do DNA (isso pra não dizer do átomo) e desconsiderando princípios fundamentais de termodinâmica, Darwin propôs um modelo de mutação fisiológica e hereditária para os seres vivos se baseando simplesmente em observações oculares, desprovido de qualquer experimentação reprodutiva daquilo que estava propondo. O fato é que, num período pós iluminista, marcado pela ascensão de uma pueril ciência experimental, uma cosmovisão alternativa que viesse a desvencilhar a sociedade da manipulação clerical que ainda subjugava a economia e a política às suas imposições seria, muito bem vinda.
Antes, é preciso considerar que, em termos de proposta científica diante das especulações acerca do desenvolvimento dos seres vivos na terra, a teoria evolucionista é satisfatória mediante suas limitações e lacunas - que diga-se de passagem, a faz semelhante a um queijo suíço; mas que funciona limitadamente (como as leis de Newton) diante da problemática apresentada pela biologia e pela classificação das espécies em termos taxonômicos. O pensamento de Theodosius é cabal e impositivo, e “estupra” a filosofia da ciência que ao longo de mais de dois mil anos vem tateando a natureza da interface entre objeto e observador, e que ainda se mostra não solucionável. É fato que a polêmica do século XIX ecoa ainda hoje no que diz respeito ao caráter teórico da evolução, no entanto, a polêmica, a rejeição e a aceitação da teoria evolucionista são alimentadas pela falta de conhecimento da mesma, e ainda, da falta de conhecimento das intenções darwinianas. Os naturalistas e materialistas eram alimentados pelo instinto positivista da revolução, ainda embebedados pelas novas vias de lucro monetário e intelectual produzidos pela revolução francesa; no entanto, eram suprimidos pela hegemonia religiosa da época, necessitando de uma suposta “arma” argumentativa vestida de uma pseudo comprovação empírica (observação ocular apenas) – Darwin serviu como uma luva de seda no casco de um jumento.
O resultado do desejo de segregar a ciência natural dos domínios religiosos (numa concepção ampla de religião) é o atraso do desenvolvimento científico. A sensatez de invocar as bases epistemológicas e comprovar a ruptura de paradigma kuhniana, ou, em outro sistema, a legitimidade de uma teoria científica por meio do exercício da sua falseabilidade (Popper), não pode se aplicar a teoria evolucionista que mesmo recebendo o título de “teoria” é colocada no pedestal dogmático do cientificismo como intocável. Fato que está levando o embate a rotular os mais moderados de evolucionistas, e ainda, de darwinistas aqueles que fazem suas preces na sacristia simiesca. Mesmo impondo a atividade de questionar a veracidade da teoria evolutiva ao religioso “fundamentalista”, não era esperado que até o religioso tirasse sua capa “dogmática” e exercitasse a sensatez de considerar a evolução em seu caráter genuíno de teoria – sendo Francis Collins e Alister McGrath belos exemplos de autoridade nesse campo.
Atualmente, em termos de mudança, é mais fácil ter o próprio pessimismo municionado com a realidade pós moderna que faz ciência com uma máquina pragmática de molde materialista. Mas há motivos para acreditar que haverá sempre uma minoria em prol da ciência genuína, alheia à especulação condicionada aos interesses econômicos e relativísticos em suprimir a qualidade do exercício da razão por meio do viés teológico – subjugando-o ao escárnio inconsciente da classe leiga que alimenta os cofres bancários dos neoateus ativistas. Recentemente, a bióloga evolucionista Lynn Margulis em entrevista a revista Discover fez a seguinte declaração:

“[…] Este é o problema que eu tenho com os neodarwinistas: eles ensinam que a geração de novidade é o acúmulo de mutações aleatórias no DNA, numa direção estabelecida pela seleção natural […] A seleção natural elimina, e talvez mantenha, mas ela não cria. […] Eu fui ensinada muitas vezes que o acúmulo de mutações aleatórias resultava em mudança evolucionária – resultava em novas espécies. Eu acreditei nisso, até que procurei pela evidência. […] Não existe gradualismo no registro fóssil […] O ‘equilíbrio pontuado’ foi inventado para descrever a descontinuidade”.

Ainda é possível se deparar com a sensatez em meio à ciência dos cifrões, mesmo diante do fato de que os meios acadêmicos são verdadeiros templos de pragmatismo científico e treinamento cientificista. Isso quando a má formação dos professores não induz a práticas completamente desonestas e anti-acadêmicas, como a indução à leitura de Richard Dawkins como material complementar acadêmico em grupos de formação em ciência biológicas e áreas afins.
O “problema epistemológico” da ciência é uma realidade historicamente presente na investigação, inclusive no simples ato de pensar. No entanto, a “crise epistemológica” foge do padrão problemático científico de não ser capaz de auto justificar-se devido à própria natureza, esta que é inseparável da qualidade humana. A crise reporta a valores pessoais, a interesses que sintetizam o incômodo causado por ideias absolutistas no campo da moral e da ética que por sua vez caem no questionamento de suas respectivas aplicações; não por causa de suas naturezas ontológicas, mas devido ao que elas impõem... Pois, querendo ou não, a ciência natural é falha em descrever tanto o erro de jogar uma bitola de cigarro na rua quanto o erro de violar o equilíbrio da vida humana. Ou seja, o método científico traz não só a incompletude de sua aplicação aos fenômenos naturais, como a incapacidade de justificar a si própria, e ainda, traz sua inviabilidade em descrever a vida humana numa concepção holística.
Pessoalmente, acredito que o método científico nunca será capaz de sustentar algum desses campos. Mas nos serve bem, e isso é o que deve importar.

Para as mães que são Mães

Em uma homenagem às mães que são Mães, segue um pequeno poema de Drummond. O mesmo que eu recitei à minha mãe numa oportunidade a alguns atrás.


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade